SOBRE JOSÉ COMBLIN


Ontem, recebi da portaria do meu prédio um fax-presente, com apenas uma indicação: F. Gonçalves, Av. Parnamirim. E as 25 páginas possuíam um título que me entusiasmou de supetão: Falas e Testemunhos de Comblin. Leitura imediatamente iniciada, agradecendo aos céus dádiva tão valiosa.

Peço licença ao Papa Berto, para sintetizar as páginas recebidas, socializando o pensar de um dos mais iluminados sacerdotes que conheci, amigo fraternalíssimo de Dom Hélder Câmara, recentemente estudado mais acuradamente na Semana de Estudos José Comblin, acontecida na Universidade Católica de Pernambuco, de 3 a 5 de setembro passado, congregando pessoas interessadas na reflexão crítica sobre o pensamento desse notável teólogo, que muito bem sabia espelhar a missão do cristão no mundo. A Semana faz parte do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da UNICAP, Grupo de Pesquisa Religiões, Identidades e Diálogos, devidamente registrado no CNPQ, que tem por finalidade “analisar os deslocamentos religiosos atuais, dando ênfase às várias tentativas de configuração de diálogo inter-religioso, bem como às novas gramáticas constitutivas das identidades religiosas”.

Eis a síntese do documento recebido, segundo o próprio Comblin:
a. Origem – Nasci em Bruxelas, capital da Bélgica, em 1923, que àquela época não tinha um milhão de habitantes. Meu pai era muito pobre e nasceu em região montanhosa de Luxemburgo que também era muito pobre. Dos cinco filhos homens do meu pai, quatro foram para a cidade. Meu pai casou tarde, tinha 45 anos e minha mãe 33 anos.

b. Formação e vocação – Meu pai lembrava que, quando eu tinha seis anos, tinha que ir à escola em uma cidade vizinha. Eu caminhava 5 km para ir e 5 km para voltar, seis anos de idade já tinha que andar tanto. Se me pergunta: quando você pensou em querer ser padre? Eu direi: eu sempre pensei isso desde os quatro anos de idade. Quando terminei o curso secundário, 17 anos, era justamente o começo da guerra, mas não tinha sido chamado para o serviço militar, pois não tinha 18 anos, escapei. Entrei no Seminário da Arquidiocese e lá me mandaram primeiro à universidade para estudar ciência biológica. Depois fiz filosofia, voltei para o Seminário para começar teologia. Depois fiz doutorado, passando quatro anos em Louvain. Ali me dei conta de que, de ano em ano, a religião estava baixando. Havia uma decadência tremenda. Numa pesquisa feita na Alemanha, concluíram que 1/1000 (um por mil) dos jovens participava dos cultos religiosos, seja protestante, seja católico. Quis procurar outro lugar, primeiramente a África, mas percebi, em 1953, que o Papa Pio XII tinha obsessão do comunismo, vendo doentiamente comunismo por toda parte, imaginando que a América Latina ia ser invadida pelo comunismo. Mas depois os bispos fundaram um colégio para preparar os que iriam para a América Latina. Em 1958, embarquei para Campinas, São Paulo.

c. Análise crítica sobre a formação sacerdotal tradicional – Esse modelo atual não tem futuro. Nas casas de formação, os seminaristas têm três aulas na parte da manhã, à tarde se supõe que estudam, mas a imensa maioria não tem capacidade de estudar por si mesmo. Muitos ficam dormindo ou aprendendo a perder tempo, mediocremente. E quando se ordenam, se acham importantes, pensam que podem falar com autoridade. Sabem alguma teologia vaga, indeterminada, que não se relaciona com a cultura, que não é comprovada. Tem coisas que muitos pentecostais já estão fazendo e é por isso que os pastores têm muito mais capacidade de comunicação, capacidade de contato com pessoas simples, porque aprenderam pela experiência como é que se faz o relacionamento. Os nossos seminaristas não precisam de uma teologia muito elaborada, tem que aprender a bíblia e depois, sobretudo, aprender a ter contato humano, aprender a comunicar, isso é o mais importante.

d. Análise crítica sobre a formação de leigos – A formação de leigo é muito mais importante atualmente, o problema é que esses leigos não recebem o status social, o que complica muito a vida. Acontece que, quando os leigos começam a abrir a cabeça, abrir os olhos, aprender a falar, eles entram em conflito com os sacerdotes, isso é muito frequente. O sacerdote não gosta muito de leigos formados, porque não são tão obedientes. O centro de todo problema está em Roma, porque seguram tudo tanto, sem deixar possibilidade inclusive de experiências. É um sistema burocrático. O Vaticano se burocratizou muito e tudo se transforma em formalidade ou regulamento. E se muda alguma coisa, a burocracia fica nervosa.

e. Instituto de Teologia do Recife – ITER – Dom Hélder tinha uma programação magnífica. Agora, na prática, sempre eu tive a impressão que os professores não correspondiam a esse programa. O ITER criou uma fama que eu acho que não merecia e que, de fato, publicações, produção intelectual, não teve, mas é claro que era também o lugar de encontro para os movimentos sociais, para o encontro de irmãos das comunidades e coisas assim, mas isso era um pouco atividade lateral; agora, o ensino mesmo, não respondia. E então quando Dom José Cardoso Sobrinho veio com essa acusação de que ali era perigo revolucionário, não tinha nada disso, o que havia é que ele queria atacar Dom Hélder.

O testemunho de Comblin sobre Dom Hélder é memorável. E algumas opiniões dele sobre o atual clero merecem incontidos aplausos. Um exemplo: “O clero prefere movimento carismático, é mais rápido e mais fácil, e só bater palmas, cantar e pronto”.

Sobre o pensamento desse sacerdote extraordinário, recomendo a leitura de dois livros. Uma obra póstuma, O Espírito Santo e a Tradição de Jesus, NhandutiEditora, São Bernardo do Campo, SP, 2012. E Padre José Comblin: Uma vida guiada pelo Espírito, Monica Maria Muggler, NhandutiEditora, São Bernardo do Campo, 2012. Para melhor conhecer a ação do Espírito Santo, que fez de um padre missionário e mestre. Numa época onde muitos não mais se sentem engajados, de chicote profético, com a Mensagem do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador.
(Publicada em 22.09.2014, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves