PARA SER UM BRASIL ARRETADO

Às vésperas de mais uma Copa do Mundo, torcendo bastante para a conquista do hexacampeonato, arrumando o meu local de trabalho, descubro uma carta antiga do meu irmão de fé e camarada João Silvino da Conceição. Nos dizeres seguintes:

Irmão caminheiro:

Voltando do meu Rio Grande do Norte, onde fui votar e visitar um amigo doente, fiquei feliz com a eleição de muita gente nova para o Congresso Nacional. Desde muitos anos, o Brasil necessita de um Pacto Suprapartidário para uma inadiável reconstrução sistêmica, após o vendaval autoritário que deixou a maioria de sunga e choro. Relendo jornais do passado, apreciei o balizado por alguns homens públicos, lamentando ainda a debilidade intelectiva de outros muitos, incapazes na formulação de um diagnóstico sincero sobre as nossas potencialidades.

Mais que nunca, amigo, se concretiza o escrito por Gilberto Freyre, em 1926, numa monumental premonição sobre o Brasil futuro:

Eu ouço as vozes / eu vejo as cores / eu sinto os passos de outro Brasil que vem aí / mais tropical / mais fraternal / mais brasileiro. / O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados / terá as cores das produções dos trabalhos. / Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças / terão as cores das profissões e regiões. / As mulheres do Brasil em vez das cores boreais / terão as cores variamente tropicais. / Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil, / todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor / o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco. / Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil / lenhador / lavrador / pescador / vaqueiro / marinheiro / funileiro / carpinteiro / contanto que seja digno do governo do Brasil / que tenha olhos para ver pelo Brasil, / ouvidos para ouvir pelo Brasil / coragem de morrer pelo Brasil / ânimo de viver pelo Brasil / mãos para agir pelo Brasil / mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis / mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e / norte-americanos a serviço do Brasil / mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar). / Mãos livres / mãos criadoras / mãos fraternais de todas as cores / mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos, / sem Irineus / sem Maurícios de Lacerda. / Sem mãos de jogadores / nem de especuladores nem de mistificadores. / Mãos todas de trabalhadores, / pretas, brancas, pardas, roxas, morenas, / de artistas / de escritores / de operários / de lavradores / de pastores / de mães criando filhos / de pais ensinando meninos / de padres benzendo afilhados / de mestres guiando aprendizes / de irmãos ajudando irmãos mais moços / de lavadeiras lavando / de pedreiros edificando / de doutores curando / de cozinheiras cozinhando / de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens. / Mãos brasileiras / brancas, morenas, pretas, pardas, roxas / tropicais / sindicais / fraternais. / Eu ouço as vozes / eu vejo as cores / eu sinto os passos / desse Brasil que vem aí.”

Não existem respostas integralmente simples e corretas em parte alguma do mundo. Cada situação tem pelo menos os dois lados de uma mesma moeda. Compete aos brasileiros, pelas urnas, encontrar o melhor dos caminhos entre os atuais paradoxos, entendendo o que está acontecendo e se preparando para se tornarem melhores, jamais iguais aos passados que nunca mais regressarão.

A reconstrução da sociedade brasileira, com alicerces ainda mais democráticos e humanos, tornando-se está na maior aspiração de milhões de eleitores, principalmente os mais conscientes. Até os menos comprometidos sentem as manifestações comunitárias, desatentos ainda para os sinais explícitos de emergentes fenômenos de massa, reconhecem que o atual desenvolvimento econômico-social do país não está superando as mil e uma indisfarçáveis armadilhas da exclusão social, tampouco garantindo uma vida minimamente decente para os que se encontram às portas da chamada miséria absoluta.

Sejamos sempre bons eleitores e, se possível, também heptacampeões!