APELO ÀS CONSCIÊNCIAS 2021

Muito feliz fiquei quando o papa Francisco, em sua Mensagem de Natal, resgatou uma famosa frase de Dom Hélder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista”. Embora ficando triste com a partida do médico Assuero Gomes, vitimado pela COVID-19, fiquei com a certeza do abraço carinhoso por ele dado no Dom, quando da sua chegada à Mansão do Pai.

Nunca escondi de ninguém as minhas quatro grandes admirações terrestres não familiares, os quatro mosqueteiros que alicerçaram os meus ainda sempre precários níveis de cidadania: Dom Hélder Câmara, Mahatma Gandhi, Paulo Freire e Martin Luther King, este Prêmio Nobel da Paz 1964. O primeiro, um integralmente diferente da Cúria Romana; o segundo, um filho de ricos que se tornou um gigante da libertação da Índia; o terceiro, um educador que mundialmente favoreceu a migração de muitos de uma transitividade ingênua para uma transitividade crítica, alavancando saberes e responsabilidades sociais; e o quarto, também adepto de uma não violência ativa, tornou-se uma das maiores vozes proféticas do século XX, a partir de sua militância, como pastor batista de uma igreja de Montgomery, no Alabama, Estados Unidos, na segunda metade dos anos 50 até a metade primeira da década seguinte, quando foi estupidamente assassinado.

Os meus ídolos possuíam uma característica comum: a não violência ativa como recurso único para alavancar consciências, ampliar enxergâncias, reduzindo egoísmos e autodevoramentos através de indispensáveis mutações históricas, pacíficas se possíveis. Todos eles sabiam fazer acontecer, sem postarem-se de donos da verdade, percebendo que as vitórias nunca emergem de imediato, tal e qual as sementes jogadas ao vento, algumas se nulificando, outras tornadas sem potência fertilizadora, as significativas abraçando os sinais aritméticos de mais e de multiplicação, pouco se lixando para ganhos e perdas conjunturais, a utopia à frente sempre a exigir novas iniciativas, coragem e fé.

Das leituras dos escritos dos quatro notáveis, do Luther King conhecia apenas o seu famoso Eu Tenho Um Sonho, pronunciado em 23 de agosto de 1963, em Washington, D.C., por ocasião da Marcha por Trabalho e Liberdade, poucos meses antes do assassinato de John Kennedy, em Dallas.

Minha deficiência foi agora em parte superada pela publicação, pela Jorge Zahar Editor, de Um Apelo à Consciência – Os Melhores Discursos de Martin Luther King, editado por Clayborn Carson e Kris Shepard.

Cada pronunciamento de King foi devidamente apresentado por uma personalidade. O primeiro é da autoria de Rosa Louise Parks, aquela militante negra já tornada eternidade, que, por ter-se recusado, em primeiro de dezembro de 1955, a dar seu assento no ônibus a um branquelo racista, foi presa, fato que ensejou, quatro dias depois, a criação da Associação pelo Progresso de Montgomery, quando Martin Luther King foi aclamado presidente e porta-voz da entidade.

O livro deveria ser lido por vários extratos da nossa atual sociedade brasileira, em que uma capacidade de maravilhamento alienada, que se imagina isenta de atropelamentos históricos, ainda não percebeu a gravidade da denúncia feita por Roland Corbisier, um dos talentos pátrios: “a periferia está exportando o seu ser e importando o seu não-ser”. E também pelos desvairados de todos os naipes, que, se souberem compreender com isenção de ânimos, perceberão que, usando aqui as palavras de Luther King, “não é hora de se comprometer com o luxo do comedimento ou de tomar o tranquilizante do gradualismo. Agora é hora de concretizar as promessas da democracia. Agora é hora de deixar o vale sombrio e desolado da segregação pelo caminho ensolarado da justiça racial. Agora é hora de conduzir a nossa nação da areia movediça da injustiça racial para a sólida rocha da fraternidade. Agora é hora de tornar a justiça uma realidade para todos os filhos de Deus”.

No instante histórico em que vivemos, Luther King parece querer advertir todos os brasileiros: “Não basta falar do amor. O amor é um dos pilares da fé cristã, mas há uma outra face chamada justiça. Justiça é corrigir com amor aquilo que se rebela contra o amor”.

Navegar é indispensável, viver de qualquer jeito já não é muito recomendável, nestes tempos de pós-modernidade. Não dar bolas para as pressões múltiplas em favor das vacinas contra a COVID-19 é demonstrar insensibilidade gritante para com o sofrimento de milhões de mortos e contaminados.

Recomendaria aos que ainda se encontram de papo pro ar, identificar seu melhor mentor: leituras reflexivas, papos inteligentes, meditações transcendentais, trabalhos comunitários, entre outros também significativos. Com o cuidado para não se deixar escravizar por correntes, visões, tarôs e tarados, percebendo que o futuro chega cada vez mais rapidamente. E que todo futuro vira hoje, para logo ser ultrapassado, numa velocidade alucinante.

Com a chegada do novo normal, atenção para não cuidar das coisas certas nas horas erradas – o vice-versa também sendo desagradável –, não esquecendo que a raça humana não se locomove em bandos, nem jamais duvidando de que a competência é bem mais rentável que meros deboches populistas.

Permanecer sempre no centro do seu ser, ainda é a melhor maneira de se aprender um pouquinho mais. E de apreender derredores, fatos e cenários, vacinando-se também contra a confiança em demasia, a especialização individual excessiva, a rotina do convívio e a cegueira diante dos problemas estruturais que vitimarão todos no final das contas.

E sonhar sempre. Sempre com os pés bem plantados e o coração apaixonado, posto que a lição de T.S.Eliot continua contemporânea: “Somente quem se arrisca a ir longe fica sabendo até onde pode chegar”.

Preparemo-nos para um 2021 mais cidadão, sem pieguismos nem vitimismos, tampouco as cafajestadas dos que não dão bolas, esquecidos que um dia poderão perder as suas.


Fernando Antônio Gonçalves é pesquisador social