PARA ENTENDER A PATIFARIA

Para ampliar sua própria criticidade, todo cidadão brasileiro honesto, uma estupenda maioria nossa, deveria ler a série de crônicas do jornalista Merval Pereira, do jornal O Globo, em Brasília, intitulada Mensalão: o dia a dia do mais importante julgamento da história política do Brasil, editado pela Record, com prefácio do ministro STF Carlos Ayres Britto e orelha do jurista Joaquim Falcão, diretor da Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas, outrora um dos mais talentosos cientistas políticos, à época da Fundação Joaquim Nabuco, admiração intelectual nossa de longa data.

Como ressalta, no prefácio, o ministro Carlos Ayres Britto, o texto do Merval “apontava para o surgimento de uma quadra histórica mais fortemente veiculadora da ideia-força de que há um modo argentário de fazer coalizões ou alianças político-partidárias que o Direito brasileiro e seus mais isentos intérpretes não mais toleram e até excomungam. E que já não dá para prosseguir na cultura da impunidade, que a tanto se opõe o princípio tão jurídico quanto civilizado de que a lei é para todos; ou seja, princípio de que ninguém, republicanamente ninguém, está acima do bem e do mal”.

A pergunta está na boca do povo: por que será que deputados federais, mentalmente jumentálicos e comportamentalmente desvairados, estão enfurecendo milhares de pessoas responsáveis com a proposição de PECs mal intencionados, que desmoralizarão o arcabouço jurídico brasileiro, buscando iludir os que não enxergam suas manobras criminososas? Por que razões, de posturas cínicas estampadas nos semblantes quase debiloides, eles visam iludir um eleitorado que ainda se encontra, em sua maioria, num estágio mentalmente subdesenvolvido, ratificando aquilo que o notável Gunnar Myrdal, economista sueco, já dizia na época de minha graduação universitária: “o pior subdesenvolvimento é o mental”?

Depois de um papo, o João Silvino da Conceição, meu irmão caminheiro, fez um elogio rasgado a livro lançado recentemente pela Bertrand Brasil, escrito por um dos principais pensadores contemporâneos, Edgar Morin, um nascido em 1921, também antropólogo, sociólogo e filósofo, muito além dos tempos de agora, um mundo recheado de conflitos étnicos, religiosos, sexuais, midiáticos e políticos, onde até um ditador asiático ainda quase adolescente, de fisionomia inconfundível, poderá querer brincar de tocar fogo no mundo, esquecendo-se de colocar o rabo de molho, pois poderá ser um dos primeiros tosqueados.

No livro do Morin, A Via – Para o Futuro da Humanidade, se pode ter um panorama de um mundo em crises sucessivas causadas por três vertentes, a mundialização, a ocidentalização e o desenvolvimento. E entre caos e sobrevivência, Edgar Morin busca traçar as linhas mestras de uma reestruturação de práticas e pensamentos coletivos de uma sociedade planetária que necessita tornar-se mais humana e solidária, sob pena de incalculáveis catástrofes ambientais.

Afirmando ser uma versão preliminar repleta de lacunas, a ser futuramente complementada por especialistas, Morin ratifica o que escreveu no fim do prefácio do seu notável O Método: “Sinto-me conectado ao patrimônio planetário, animado pela religião do que religa, pela rejeição daquilo que rejeita, por uma solidariedade infinita.”

Para melhor defenestrar os larápios fantasiados de políticos da cena brasileira, saibamos ler, com os olhos voltados para o futuro, o livro Mensalão – o dia a dia do mais importante julgamente da história política do Brasil, entendendo, para mais cidadanizados nos tornarmos, a reflexão do também ministro do STM Celso de Mello: “Há políticos, governantes e legisladores que corrompem o poder do Estado, exercendo sobre ele ação moralmente deletéria, juridicamente criminosa e politicamente dissolvente”. E alertou sobre “a perigosa situação a que o país está exposto, dirigido por dirigentes capazes de perpetrar delitos difamantes”. Como nunca antes na história deste país …