BEM-AVENTURANÇAS 2022

Um jornal nordestino publicou, há alguns anos, as Bem-Aventuranças do Educador, de autoria do querido padre José Ivan Pimenta Teófilo, um evangelizador de primeira, eternizado em 1990. Confesso que muito gostei, desejando oferecê-las aos leitores deste site, neste início de ano, encarecendo um minuto de reflexão cidadã:

Felizes os educadores que tomam consciência do conflito social em que estão metidos e nele tomam partido pelo projeto social dos empobrecidos, porque assim contribuirão para a transformação da sociedade; infelizes os educadores que imaginam que a ação educativa é politicamente neutra porque acabam transformando a educação num instrumento de ocultação das contradições da realidade social e de reprodução da ideologia e das relações sociais vigentes; felizes os educadores que sabem articular o saber sistemático com o saber popular, porque ajudarão as classes populares a afirmar sua identidade cultural; infelizes os educadores que transmitem mecanicamente um saber elitista, porque contribuem para reforçar a marginalização e a dominação cultural do povo; felizes os educadores que aprendem a dialogar com os educandos, porque resgatam a comunicação pedagógica criadora no processo educativo; infelizes os educadores que impedem os educandos de dizer a sua palavra, porque estão reproduzindo a educação do colonizador; felizes os educadores que se tornam competentes em suas ‘disciplinas’ ensinando a ‘desopacizar’ ideologicamente seus conteúdos, porque ajudarão os educandos a se apropriarem do saber como ferramenta de luta na defesa e afirmação de sua dignidade; infelizes os educadores que não se esforçam para ser criticamente competentes, porque enfraquecerão mais ainda o poder cultural das massas oprimidas reforçando o autoritarismo cultural das classes dominantes; felizes os educadores que procuram se organizar para conquistar melhores salários e melhores condições de ensino, porque estão ajudando a conquistar a educação a que o povo tem direito; infelizes os educadores que atuam isoladamente, buscando apenas seus próprios interesses, porque deixarão de contribuir para a conquista de uma escola digna; felizes os educadores que iluminam sua prática com o sonho de um futuro novo em que as pessoas aprendam, através de novas relações sociais, as lições da justiça e da solidariedade; infelizes os educadores que não sonham, porque não terão a coragem de se comprometer na luta criadora de uma nova sociedade a partir de sua prática educativa; felizes os educadores que aprendem a fazer da ação de cada dia a semente da nova sociedade; infelizes os educadores que pensam que as coisas só aparecerão no futuro, porque não perceberão nem farão perceber que o ‘novo’ já está no meio de nós, brotando de nossas práticas transformadoras, solidárias com as lutas dos espoliados da terra”.

Bem-aventurado também você, pe. José Ivan Pimenta Teófilo, hoje na Casa do Pai, que me fez ressuscitar, e também em muitos milhares de professores, a esperança num futuro educacional digno para todos os brasileiros!


Fernando Antônio Gonçalves é pesquisador social