SAGAN E A ADORAÇÃO INFORMADA


Em 1985, Carl Sagan, um dos astrofísicos mais consagrados daquela época, participou, na Universidade de Glashow, Escócia, das Palestras Gifford, dissertando sobre “teologia natural”. Posteriormente, as nove Conferências constituíram um livro que foi editado no Brasil pela Companhia das Letras, em 2008, doze anos após a sua eternização, dezembro de 1996, após três transplantes de medula óssea. E o título dado à coletânea é por demais atraente: Variedades da Experiência Científica – Uma Visão Pessoal da Busca de Deus.

A prefaciadora Ann Druyan, da Democritus Properties, editora do livro, dá um testemunho consistente sobre Sagan: “Era um cientista, mas tinha algumas qualidades que associo ao Antigo Testamento. … Ele acreditava que o pouco que sabemos sobre a natureza sugere que sabemos menos ainda de Deus. … Ele estudou as religiões do mundo, tanto as viventes como as defuntas, com o mesmo apetite pelo aprendizado que o levava a seus objetos científicos de estudo. … Sua discussão não era com Deus, mas com quem acreditava que nossa compreensão do sagrado estava completa. … Carl acreditava que nossa maior esperança de preservar a essência prodigiosa da vida em nosso mundo era abraçar de verdade as revelações da ciência. … Segundo ele, nenhum passo na busca pelo esclarecimento deveria ser considerado sagrado, só a procura.”

Quando recebeu o convite para dar as Palestras Gifford, na Escócia, Carl Sagan entusiasmou-se. Primeiro, porque estaria seguindo os passos dos maiores cientistas que por lá também expuseram suas ideias, Werner Heisenberg, Niels Bohr, Alfred North Whitehead, Albert Schweitzer, Hannah Arendt, entre outros. Em segundo lugar, porque teria uma excelente oportunidade de detalhadamente explicar como ele entendia a relação entre ciência e religião, na sua busca inconstante para compreender a natureza do sagrado. E seu entusiasmo agigantou-se quando, a cada começo de palestra, ampliava-se o número de salas para acomodar públicos cada vez maiores.

Carl Sagan não reviu os originais da coletânea acima, editada quase vinte anos depois, ainda que sempre lembrados o respeito e a ternura de Sagan para com todos aqueles que não manifestavam a mesma opinião que ele. E o silêncio respeitoso unânime quando ele advertia com muita firmeza d’alma: “A História está repleta de pessoas que, como resultado do medo, ou por ignorância, ou por cobiça de poder, destruiram conhecimentos de imensurável valor que em verdade perteciam a todos nós. Nós não devemos deixar isso acontecer de novo”.

O título da coletânea, a editora parafraseou William James, que também proferiu as Palestras Gifford nos primeiros anos do século passado, denominando-as As variedades da experiência religiosa, um texto ainda muito reeditado nos tempos de agora. Pois, segundo Sagan, a única gratificação que a ciência nos nega é a da ilusão.

Na Introdução feita pelo autor, encontrada na mesma gaveta onde as transcrições das palestras estavam acomodadas, juntamente com uma imensa quantidade de anotações sobre um livro jamais tornado público de nome Ethos, Carl Sagan ressalta que as opiniões emitidas nas palestras são pessoais, todas elas apenas com um único objetivo: “rastrear meu próprio pensamento e entendimento do assunto na esperança de que isso estimule outras pessoas a ir mais além, e através dos meus erros – espero não ter cometidos muitos, mas era inevitável que cometesse – surjam outros insights”.

Distribuídas em nove capítulos, o livro Variedades da Experiência Científica – Uma Visão Pessoal da Busca por Deus ainda traz um apêndice com perguntas e respostas selecionadas. Uma delas, eu a transcrevo aqui: – Você tem algum comentário a fazer sobre o Santo Sudário? E a resposta dada por Carl Sagan revela sua imensa capacidade de ser classudamente sincero: – O Sudário quase com certeza é uma falsa relíquia; ou seja, não é uma fraude contemporânea, mas uma fraude do século XIV, quando havia um tráfico significativo de falsas relíquias. E meu conhecimento técnico sobre o Sudário de Turim vem do dr. Walter Mccrone, de Chicago, que trabalhou alguns anos em cima dele. Ele descobriu que o “sangue” eram pigmentos de óxido de ferro, e que não há nada que não possa ser explicado pela tecnologia disponível no século XIV. Aliás, não há nenhum sinal de proveniência do Sudário anterior ao século XIV. Então me perdoe por meu conhecimento ser de segunda mão nessa questão, e sei que tem gente que acredita, pelos motivos aparentes. Tem gente que acredita que seja o sudário autêntico de Jesus morto na cruz. Mas as provas são muito escassas.

Dois anos depois das conferência de Sagan, na Escócia, o Vaticano permitiu que amostras do Sudário fossem datadas pelo método do radiocarbono. Três laboratórios, Arizona, Oxford e Zurique, determinaram que o tecido datava do período entre 1260 e 1390 d.C.

Ler Carl Sagan é um exercício de ampliação da transitividade crítica, um preparo para novos desafios intelectuais para a ciência e a religião. Uma ultrapassagem histórica dos provincianismos religiosos que estão infestando os mais variados recantos do planeta. Inclusive a capital pernambucana, do saudoso Instituto de Teologia do Recife, uma instituição fechada pela obtusidade de uma personalidade neurótica, sem qualquer clarividência pastoral.

(Publicada em 24.12.2012, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves