POR UM NOVO CRISTIANISMO


Sempre sob as bênçãos do Homão da Galileia, meu Irmão Libertador, e acatando sugestão do caminheiro João Silvino da Conceição, conhecido meu desde quando bem pequeninos, inseri no meu site – www.fernandogoncalves.pro.br –, excepcionalmente bem estruturado e atualizado pela ECliente Soluções de Internet, sediada em Piracicaba, SP, uma nova área chamada Por Um Novo Cristianismo. Nela estarão inseridos textos e análises contemporâneos, buscando ampliar a espiritualidade crítica de todos aqueles seguidores de Jesus de Nazaré, um profeta tão aviltado nos últimos tempos por igrejas e pastores que o transformaram em motes financeiros arrecadadores de suas estruturas burocráticas faustosas, algumas delas até ostensivamente omissas diante do pedido de pena de morte feito por ele próprio para quem violentasse qualquer menor. Condenação explicitada em evangelhos sinóticos.
Para quem anda distanciado dos evangelhos, o texto no qual Jesus pede pena de morte para quem violentar um menor está em Mateus 18,5; e Marcos 9,42. Depois de identificar a si mesmo com os meninos inocentes, Jesus pronuncia terrível sentença: “Quem quer que faça mal a um desses pequeninos merece que lhe pendurem no pescoço uma pedra de moinho e o afundem nas profundezas do mar”.
Lamentável e fator de crescente descredibilidade, o fato agora tornado público: um sigilo papal que impede sacerdotes e bispos de denunciar às autoridades civis os casos de pedofilia praticados pelos seus religiosos. Como que garantindo a impunidade penal dos criminosos. Com um terrível agravante: aqueles que tomarem conhecimento de casos de pedofilia dentro da Igreja estão impedidos de denunciá-los, submetidos que são ao seguinte juramento, conforme denuncia Juan Arias, teólogo e ex-sacerdote: “Eu, tocando com as próprias mãos os sacrossantos evangelhos de Deus, prometo guardar fielmente o sigilo papal, de maneira que sob nenhuma forma, nenhum pretexto, seja por um bem maior, seja por motivo urgentíssimo e gravíssimo, me seja lícito violar o sigilo já mencionado. Que Deus me ajude e me ajudem estes santos evangelhos que toco com as próprias mãos”.
O filósofo italiano Flores D’Arcais, editor da revista Micromega, qualifica esse juramento como uma fórmula terrível que exime todo clérigo de qualquer comentário. Um comportamento que muito facilita a perpetuação dos sepulcros caiados tão condenados pelo profeta de Nazaré.
Segundo ainda Juan Arias, “o peso da responsabilidade sobre a omertà – o acobertamento de milhares de delitos cometidos por sacerdotes e bispos em todo o mundo contra meninos e adolescentes – recai fundamentalmente sobre a figura do papa atual, Bento XVI, o teólogo alemão Joseph Ratzinger. Antes de chegar ao papado, ele foi responsável, como prefeito da Congregação da Fé, pelo acobertamento dos crimes de pedofilia”.
Acreditando que o octogenário Bento XVI não conseguiu controlar o fundamentalismo tridentino que contamina alas e corredores do Vaticano, o teólogo Hans Küng, colega de magistério de Joseph Ratzinger na Universidade de Tübingen, divulgou, dias atrás, uma carta aberta a todos os bispos católicos do mundo. Nela, ele revela sua preocupação com uma Igreja “atolada na crise de confiança mais profunda desde a Reforma”. E explicita as oportunidades perdidas por Bento XVI, após cinco anos de pontificado:
“a. Desperdiçou-se a oportunidade de um entendimento duradouro com os judeus: o Papa reintroduziu a oração pré-conciliar em que se pede pela iluminação dos judeus e readmitiu na Igreja os bispos cismáticos notoriamente antissemitas, impulsionou a beatificação de Pio XII e só leva a sério o judaísmo como raiz histórica do cristianismo, não como uma comunidade de fé que perdura e que tem um caminho próprio para a salvação. Os judeus de todo o mundo se indignaram com o pregador pontifício na liturgia papal da Sexta-feira Santa, na qual comparou as críticas ao Papa com a perseguição antissemita;
b. Desperdiçou-se a oportunidade de um diálogo assentado na confiança com os muçulmanos; é sintomático o discurso de Bento XVI em Regensburg, no qual, mal aconselhado, caricaturizou o Islã como a religião da violência e da desumanidade, atraindo assim a permanente desconfiança dos muçulmanos;
c. Desperdiçou-se a oportunidade da reconciliação com os povos nativos colonizados da América Latina: o Papa afirma com toda seriedade que estes “desejavam” a religião de seus conquistadores europeus;
d. Desperdiçou-se a oportunidade de ajudar os povos africanos na luta contra a superpopulação, aprovando os métodos anticoncepcionais, e na luta contra a Aids, admitindo o uso de preservativos;
e. Desperdiçou-se a oportunidade de concluir a paz com as ciências modernas: reconhecendo inequivocamente a teoria da evolução e aprovando de forma diferenciada novos campos de pesquisa, como o das células-tronco; e
f. Desperdiçou-se a oportunidade de que também o Vaticano faça, finalmente, do espírito do Concílio Vaticano II a bússola da Igreja católica, impulsionando suas reformas.”
O teólogo Hans Küng ainda enumera outras omissões: “a. relativização dos textos conciliares, interpretados de forma retrógrada, contra o espírito dos Padres do Concílio, inclusive se situando expressamente contra o Concílio ecumênico, que, segundo o Direito Canônico, representa a autoridade suprema da Igreja católica: b. readmissão incondicional na Igreja dos bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ordenados ilegalmente fora da Igreja católica e que não aceitam o Concílio em aspectos fundamentais; c. apoio à missa medieval tridentina, ele mesmo celebrando ocasionalmente a eucaristia em latim e de costas para os fiéis; d. não leva a cabo o entendimento com a Igreja anglicana, assinado em documentos ecumênicos oficiais (ARCIC); e e. reforço dos poderes eclesiais contrários ao Concílio com a nomeação de altos cargos anticonciliares (na Secretaria de Estado e na Congregação para a Liturgia, entre outros) e de bispos reacionários em todo o mundo”.
Mais que nunca, um novo clamor a la João Batista se faz imperioso nas vozes dos cristãos de todas as igrejas do planeta: “Preparemos um novo caminho para o Senhor, fazendo veredas retas para ele. Construamos frutos que ampliem a dignidade comportamental. Sejamos novamente sal da terra. Acautelemo-nos dos falsos profetas vestidos com peles de ovelha, posto que são são lobos devoradores. E estejamos convictos de que, quando nos reunirmos com dois ou três em nome do Senhor, Ele estará presente. E repudiemos os mestres da lei hipócritas, raça de víboras, fantasiados de representantes d’Ele. Arrependamo-nos e edifiquemos uma espiritualidade socialmente comprometida à Mensagem d’Ele, jamais confundindo Salvação com Igreja”.

(Portal da Revista ALGOMAIS, 19/04/2010, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves