LINGUAGEM QUE NÃO MORREU


No ano passado, fui presenteado com um livro que não despertou atenção pelo título que ostentava: LTI – A Linguagem do Terceiro Reich, editora Contraponto. No último feriadão deparei-me com ele, ao rearrumar estante que continha alguns não-lidos. Por curiosidade, desejando apenas reler a dedicatória que explicitava mais de 40 anos de amizade fraterna, resolvi “dar uma espiadinha” na apresentação da tradutora Miriam Bettina Paulino Oelsner, economista com mestrado em Literatura Alemã pela Universidade de São Paulo, especializada em holocausto, judaísmo, memória, nazismo, manipulação da linguagem e propaganda. Uma apresentação didática que acicatou meu interesse pelo texto, do notabilíssimo Victor Klemperer, filólogo judeu alemão, sem militância política, que perdeu a cidadania quando a doutrina racial nazista tornou-se lei, sendo forçado a usar a estrela de Davi sobre a roupa, escapando dos campos de concentração por ter se casado com uma alemã classificada como “ariana” e que tinha se recusado radicalmente a abandoná-lo, tornando-se fiadora da sua sobrevivência. Durante a guerra, Klemperer, destituído das funções docentes que exercia na Universidade de Munique, ainda foi enviado como trabalhador para fábricas que utilizavam mão-de-obra manual.

Diante do desespero e da morte que rondava o casal, uma estratégia escolhida por Klemperer foi a de registrar tudo que acontecia na vida diária alemã, desde a ascensão do nazismo, a glória do regime, a adesão das massas, a onipresença de um poder totalitário, as perseguições, a guerra e a derrota do Terceiro Reich. Acordando diariamente às 3,30h da manhã, escrevia clandestinamente, as observações sendo contrabandeadas pela sua esposa para casa de amiga de verdade, a médica Annemarie Köhler.

Segundo César Benjamim, autor das “orelhas” do livro, “depois da guerra, Victor usou os diários para escrever este livro com um objetivo educacional, pois a linguagem nazista ainda predominava na Alemanha que tentava se afastar desse passado” … “O filólogo mostra como as palavras aparecem e desaparecem, mudam de sentido e de ênfase, se encadeiam de diversas formas, emitem mensagens diferentes ao longo do tempo. Vê, estarrecido, que até mesmo as vítimas usam a linguagem do Terceiro Reich. … “Quem controla as maneiras como nos expressamos também controla as maneiras como pensamos”.

O LTI (Lingua Tertii Imperii) foi publicado em 1947 pela editora Aufbauverlag, de Berlim, seguindo-se inúmeras edições. Um livro que fez Kemplerer tornar-se docente da Universidade de Halle (1948), eleito para a Academia de Ciências da Alemanha (1953) e recebedor do título de Doutor em Pedagogia na Escola Técnica Superior de Dresden (1951). Victor Klemperer eternizou-se em 1960, recebendo postumamente o prêmio F.C. Weiskopf, da Academia de Artes de Berlim.

O livro foi organizado por temas que refletem vivências e se encontra estruturado em duas grandes partes: antes e depois de 19 de setembro d 1941, quando o regime nazista impôs o uso obrigatório, como castigo, da estrela amarela com a insígnia Jude, considerado por Klemperer como “o pior dia de todo o período nazista”, pior até do que o dia onde seu filho adotivo adotou, em 1933, a ideologia nazista.

Uma leitura indispensável para historiadores e economistas, advogados e teólogos, engenheiros e cientistas, posto que, segundo o autor, “o nazismo se emprenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões e frases que foram impostas pela repetição, milhares de vezes, e foram aceitas inconsciente e mecanicamente”.

A leitura do livro faz ampliar a compreensão acerca de alguns procedimentos contemporâneos, como aquela frase infeliz dita por esposa de candidato, acusando a adversária de seu marido de comer criancinhas. E o daquela jovem paulista que incentivou o afogamento dos nordestinos. Atitudes que escondem ideais e anseios mórbidos.

(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 02.03.2011)
Fernando Antônio Gonçalves