ESQUERDAS & ESQUERDEIROS(AS)


Nas preliminares de mais uma campanha eleitoral, quando até o ex-governador Paulo Maluf declara ser portador da Ficha Limpa mais higienizada do Brasil, lembrei-me de uma expressão feliz do sociólogo Guerreiro Ramos: “No Brasil, existem pouco esquerdistas e muitos esquerdeiros”. E esquerdeiras, para utilizar o hoje politicamente correto falado em reuniões, assembleias, audiências, palanques e outras coisas que tais deste mundão de Deus descoberto por Cabral. Os dois últimos grupamentos, esquerdeiros e esquerdeiras, integralmente desatentos daquela conclusão emitida por G.W.F. Hegel, uma especialidade do notável padre jesuíta Paulo Menezes, no prefácio da sua Fenomenologia do Espírito: “Em geral, o que é muito conhecido é, precisamente por ser muito conhecido, não conhecido”.

Num instante em que o mundo se envolve com uma crise financeira ainda não finda de proporções planetárias, pois globalizado o mundo definitivamente já se encontra, tornam-se inadiáveis análises menos simplistas sobre realidades e prospectivas econômico-financeiras de países e continentes, as interpretações devendo ser efetivadas pelos ângulos mais diferenciados, sem as posturas emocionais exibicionistas típicas dos(as) que vivem ansiando por um holofote, por mais pequenino que ele seja.

Para se travar bons combates ideacionais sobre a questão do petróleo e os rumos do desenvolvimento nacional, em 1952 foi criado o Grupo Itatiaia, reunindo intelectuais do eixo Rio-São Paulo, por excelência nacionalistas, em 1953 o grupo sendo formalmente estruturado sob o nome de Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (IBESP), tornando-se o editor da revista Cadernos do Nosso Tempo.

Na estruturação de uma tipologia do desenvolvimento, os debates do IBESP visavam edificar uma ideologia que possibilitasse destupiniquizar dirigentes públicos e empresariais nos procedimentos necessários para a transformação econômica, social e cultural do Brasil. Em substituição ao IBESP, foi criado, em 1955, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), pelo decreto nº 37.608 de 14 de julho do então natalense presidente Café Filho, do PSP, de curtos 14 meses no comando do país.

Entre os membros ilustres integrantes do ISEB, podemos citar Miguel Reale e Sérgio Buarque de Hollanda. A maioria dos membros do ISEB era formada por pensadores nacionalistas, influenciados pelas ideias da Cepal, entre eles Hélio Jaguaribe, Roland Corbisier, Alberto Guerreiro Ramos, Nelson Werneck Sodré, Antonio Cândido, Cândido Mendes, Ignácio Rangel, Álvaro Vieira Pinto e Carlos Estevam Martins, entre tantos outros. Teve também como colaboradores Celso Furtado, Gilberto Freyre e Heitor Villa Lobos. Entre os alunos mais famosos do ISEB encontrava-se Abdias Nascimento, atualmente candidato a Prêmio Nobel da Paz, merecidamente.

Hoje, mais que todos os ontens, há uma urgente necessidade de se vislumbrar os amanhãs nacionais. O pensar de Celso Furtado não merece jamais ser relegado a segundo plano: “Não podemos fugir à evidência de que a sobrevivência humana depende do rumo de nossa civilização, primeira a dotar-se dos meios de auto-destruição. Que possamos encarar esse desafio sem nos cegarmos, é indicação de que ainda não fomos privados dos meios de sobrevivência. Mas não podemos desconhecer que é imensa a responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a justeza das decisões políticas.” Reflexão que está a exigir desdobramentos analíticos e estratégicos, envolvendo todos os pensares, favorecendo a emersão de novos posicionamentos, sínteses evolucionárias que possibilitem estratégias harmoniosas com os desafios de uma era interdependente, onde a cidadanização de todos redundaria no fortalecimento democrático de todas as esferas, reduzindo a um mínimo desprezível os assistencialismos eleitoreiros, demagógicos ou meramente escapistas.

Urge algo mais pensante na Universidade Brasileira, além dos muitas vezes nostálgicos vários ontens e os(as) esquerdeiros(as) classificados(as) por Guerreiro Ramos. Algo debatedor, crítico, motivador, emulador de estratégias evolucionárias, sempre atentas à vergastada primorosa do australiano Robert Hughes, consagrado crítico de artes da revista Time, mais que oportuna: “A velha divisão de direita e esquerda acabou se assemelhando mais a duas seitas puritanas, uma lamentosamente conservadora, a outra posando de revolucionária mas usando a lamentação acadêmica como maneira de fugir ao comprometimento no mundo real “.

(Portal da Globo Nordeste, 12.07.2010, Blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves