A INVENÇÃO DO FUTURO


Há algum tempo, em Ilhabela, litoral de São Paulo, dois seminários aconteceram. Em debate a seguinte questão: como lidar com o novo laço social da globalização em nossas múltiplas expressões? Debateram o assunto, em duas grandes semanas, juristas, publicitários, cientistas políticos, psicanalistas e jornalistas. Os dados principais estão contidos no livro de título pra lá de sugestivo: A Invenção do Futuro, editora Manole, Barueri, SP.
Um dos assuntos mais debatidos foi o da violência, hoje nas manchetes principais dos meios de comunicação. A sociedade, atordoada em sua grande maioria, está se percebendo vítima diante de um monstro, o perigo sendo ainda mais assustador pela ignorância acerca das causas.
Essa violência tsumânica que assola os quatro cantos da terra, está vinculada umbilicalmente a alucinantes dados quantitativos, dois aqui citados como uma preocupante amostra: 1. A renda dos 1.125 bilionários do mundo é maior que a obtida pela metade da população adulta do planeta. 2. Somente em agosto de 2008, a Exxon, a maioral do globo, registrou um lucro de noventa mil dólares por minuto!!
Neste século, há uma necessidade de se saber desenvolver equilibradamente quatro mundos: o Mundo do Saber, o Mundo do Ser, o Mundo do Sentir e o Mundo do Fazer. Áreas que somente estarão niveladas através de uma nova configuração financeira internacional. Que possibilitará combater as múltiplas facetas da ignorância, do fanatismo e da tirania.
Grande parte da humanidade principia a perceber que a culpa pelos vexames terrestres é do próprio tresloucado desenvolvimento civilizacional, onde nunca se manifestou tão agressiva a voracidade por um irracional que alavanca, em milhões, a passividade, o mesmismo e um se-Deus-quiser recheado de funestas nostalgias. Não sendo desprezível, em se tratando do povo brasileiro, recente divulgação da Fiocruz: 20% dos nossos depressivos são adolescentes.
No Brasil, é necessário que se diga alto e bom som: “os governos eleitos pelo povo – Collor&Itamar, FHC e Lula – não conseguiram reverter a tendência de empobrecimento dos brasileiros, imposta desde o golpe de 1964. De acordo com o IPEA, órgão do governo federal, a população favelada aumentou 42% em 15 anos (1992-2007), mais de 55 milhões de pessoas vivem em moradias inadequadas, 43% da população urbana não têm acesso a esgoto. Sem mudar o modelo econômico, as condições de vida também não mudam”.
Para uma idéia nítida da crise financeira mundial que abalou as bolsas de valores, prejudicando principalmente os pequenos investidores, as perdas estão sendo até agora estimadas em US$ 33 trilhões, segundo revelação do presidente do Banco Central brasileiro, Henrique Meirelles. Em outras palavras: a perda sofrida pelos sete maiores investidores – US$ 131,3 bilhões – equivale a quase 11 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Paraguai, calculado pelo Banco Mundial em US$ 12 bilhões, dados de 2007.
O escritor Eduardo Galeano, em seu último livro, Espelhos, Uma História Quase Universal, L&PM, 2008, o encerra com lamentável constatação: “O século XX, que nasceu anunciando paz e justiça, morreu banhado em sangue e deixou um mundo muito mais injusto que o que havia encontrado. O século XXI, que também nasceu anunciando paz e justiça, está seguindo os passos do século anterior. Lá na minha infância, eu estava convencido de que tudo o que na terra se perdia ia parar na lua. No entanto, os astronautas não encontraram sonhos perigosos, nem promessas traídas, nem esperanças rotas. Se não estão na lua, onde estão? Será que na terra não se perderam? Será que na terra se esconderam?”
Os anéis e os dedos de todos estão a depender da vontade política de todos. O ditado “pimenta no abre-te-sésamo dos outros é refresco” está pairando sobre gregos e troianos. A hora é de muito refletir para um agir rápido e consistente, solidário e não-suicida.