1558 – PARLAPATÕES E FAROFEIROS


Vez por outra, deparo-me com um atoleimado ser humano pela frente, metido a doutor em alguma coisa. Abilolado todo, como dizia minha avó-madrinha Zefinha. Sem entender bulhufas de uma contemporaneidade cada vez mais complexa e evolucionária, o abobado destila bosteiras por todos os poros, irracionaliza fatos do cotidiano mais simples, perambula recheado de crenças malucas, retratando um subdesenvolvimento mental que é o pior de todos os demais. E ainda vive a engabelar ele mesmo e o seu derredor com invencionices e presepadas idióticas.

O João Silvino da Conceição, esse arretado PhD em Coisas da Vida, costuma dizer que todo parlapatão que fica sempre olhando para os seus próprios problemas será por eles derrubado. E cita alguém que ele leu e muito gostou: “Os fatos costumam ser neutros; são as crenças que afetam nossas formas de pensar, sentir e agir”.

O Silvino ficou impressionado com uma entrevista concedida certa feita por Stephen Hawkings, um físico britânico portador de uma crescentemente gravíssima doença neurológica, que declarou estar se sentindo muito feliz por ter contribuído para um melhor conhecimento das origens do Universo! Aplaudido muito pela sua resistência existencial, sempre se portando com muita dignidade.

Numa das últimas visitas que eu fiz à casa-quase-casebre do Silvino da Conceição, conversa vai, conversa vem, cerveja sem álcool sempre gelada e uns pedacinhos de queijo coalho para desenfastiar o estômago, ele me disse que bem vive quem sabe entender as três regras de um jogo de damas. Atendendo a minha curiosidade, declinou-as: 1) não se pode fazer duas jogadas por vez; 2) somente se pode mover para frente; 3) quando se chega na última fila, se está livre para se ir aonde quiser. E arrematou, riso franco, peito aberto, sem medo algum de ser feliz: “Se todo bunda-mole soubesse aplicar as regras de um jogo de dama, logo deixaria de ser um farofeiro cheio de estripulias”. E complementou, cheio de convicção: “Todo ser humano que sofre antes do necessário sofre mais do que o necessário”.

Gosto muitíssimo de papear com o Silvino da Conceição, principalmente quando, vez por outra, insatisfações múltiplas parecem querer catapultar meu otimismo cotidiano crítico para bem longe. Quando de minha visita última, já portão aberto e abraços de até outro dia dados, ele presenteou-me com uma saideira de primeiríssima ordem: “Quando alguém se considera um ser humano puro e simples, e com um terceiro acontece o mesmo, então é natural se encontrarem para um bate-papo sempre aberto, as diferenças administradas com sabedoria e paciência recíprocas. Quando, entretanto, um deles se considera uma altíssima montanha, o outro pensando o mesmo, as convergências jamais acontecerão. Montanhas podem ser altas, mas jamais poderão se tocar”.

De retorno às minhas atividades cotidianas, após merecidos descansos, cônscio das responsabilidades sociais e familiares, sinto-me mais apto na identificação dos abestados da província, para rejeitar suas farolagens, que apenas ampliam inquietações e desconfortos. E estou bem mais afiado na identificação das “montanhas” citadas pelo Silvino da Conceição, charlatões que se autointitulam com esse ou com aquele título, apenas para engabelar panacas, como se todos fossem manadas dos seus conjunturais postos de mando.

No mais, é não esquecer Mário Quintana1: “A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Mário Quintana e Silvino da Conceição, doutores de Vida, sem brasões nem lamentações.


Fernando Antônio Gonçalves é pesquisador social