1430 – MANUELINAS


Tenho um amigo fraterno que mora na Europa, que vez por outra me envia uns “causos” passados com uns conterrâneos seus, de África e de Ásia. Fatos que bem proporcionam uma cada vez maior integração entre povos, aqui não mais cabendo bobas distinções entre brancos e negros, ricos e pobres, formados e não formados, parlamentares e prostitutas, gurus e lambecusistas. Vale apenas a distração ou a lógica desenvolvida, que pode vitimar qualquer ser humano na plenitude das suas faculdades mentais. Eis as últimas enviadas pelo Guto Gomes:

  1. cinema 180 graus”. Foi a maior festa quando da realização da primeira sessão. Terminado o filme, ninguém saiu do cinema. Manuel, proprietário luso da casa de diversão, foi ver o que tinha acontecido e encontrou todos os espectadores mortos. Assustado, concluiu com o porteiro, após a retirada dos corpos para o IML: – Assim não vai dar. Vou ter que diminuir a temperatura estabelecida pelo projeto…
  2. Um dos primos de um amigo meu faleceu o ano passado, por um “descuido de raciocínio” que o vitimou. Considerado um expert ao volante, totalmente desbarichellizado, dirigia em alta velocidade por uma estrada recém inaugurada quando leu, numa placa de sinalização, o alerta Curva Perigosa à Esquerda. Imediatamente, virando à direita, teve morte instantânea, indo de encontro a uma outra pista, situada 60 metros abaixo.
  3. Aproximando-se de um chaveiro, viu o aviso todo explícito “Trocam-se segredos”. Sentindo-se bem encorajado para se livrar de algo que o incomodava há mais de vinte anos, não titubeou: – Eu sou gay desde rapazinho e você?
  4. Na agenda telefônica de prima de outro amigo, namoradeira que faz gosto, com muitos quilômetros de mangueiras degustadas, apenas a letra T estava repleta, as demais sem qualquer anotação. Uma rápida vista d’olhos esclareceu o “mistério”. Na área do “T” estava escrito linha após linha: telefone do Joaquim, telefone do Pereira, telefone do Almeidinha…
  5. Numa loja de sapatos, numa segunda feira chuvosa, um bigodudo experimentava um sofisticado sapato de cromo alemão, quando recebeu a advertência do vendedor responsável: – Senhor, estes sapatos costumam apertar nos primeiros cinco dias. No que, agradecido, o corpulento cidadão explicou que não haveria problema algum, posto que somente irá usá-los no domingo vindouro.
  6. O dono de um baita talão de cheque vai a uma festa  grã-fina. Ressabiado, com medo de gafes, fica a observar como os demais convidados se comportam, o jeitão deles de beber e de comer. Observa também, com atenção redobrada, alguém já satisfeito, palitando os dentes com refinada discrição. Mais tarde, o anfitrião vem cumprimentá-lo: – E aí, ó Silva? Estás sendo bem servido? Com alegria incontida, a resposta sincera: – Olhe, pa! Eu nunca comi tão bem! Só daqueles palitinhos que as pessoas comem escondido, tapando a boca com as mãos, depois da sobremesa, eu já comi pra lá de quinze!
  7. Na ante-sala de uma casa de “mininas”, salgadinhos digeridos com muito gosto, um adolescente indaga a um coroa viagrado: – Ó Silveira, gostas de mulher com muito seio? A resposta veio sem muito esclarecimento: – De maneira alguma, Antunes. Pra mim, dois só já me bastam…
  8. Pai metido a rigoroso para filho todo rueiro: – Sabes o que Lincoln fazia quando tinha a sua idade? A resposta estonteia o “coroa” até hoje: – Sei não, pai, mas eu sei que ele era presidente quando tinha a sua idade.
  9. Para meu amigo-irmão Reinaldo de Oliveira, cabra danado de ótimo para contar histórias.

Fernando Antônio Gonçalves é pesquisador social