NPD018. A VOZ DO JOÃO


O interfone anuncia a chegada do meu amigo João Silvino da Conceição. Sempre acompanhado de seus papéis rabiscados, sua desolímpica sabedoria e sua sutil capacidade de enviar recados para gregos e troianos, independentemente dos saldos bancários, sobrenomes, níveis neuroniais ou neurológicos, partidos ou crenças.
Sem a sua amada, sete-arrobas morenas generosamente distribuídas e que muito bem satisfazem cabeça, tronco e membros do João, ele apenas desejava mostrar uns escritos reflexivos destinados ao presidente, governadores e prefeitos de todo Brasil, sem a menor preocupação de agradar siglas.
Os escritos do João Silvino me cativam pela sua sinceridade analítica. Longe ser um intelectual preparado, manifesta ele sua criatividade de maneira arguta. Sem complicações hermenêuticas, tampouco simploriedades levianas. E sem abdicar de uma cidadania vinculada a uma responsabilidade que busca transformar promessas em realidades, dando o melhor de si em qualquer circunstância.
Eis as “recomendações” lidas pelo Silvino, para todos os destinatários:
a. Um princípio não deve ser nunca olvidado: “em toda democracia, as respostas são difíceis diante de uma demanda facilmente induzida”. E numa sociedade brutalmente injusta como a nossa, muitas pessoas desejarão respostas imediatas para seus problemas.
b. Manifestações legítimas podem ficar empanadas por exteriorizações anárquico-esculhambativas de grupelhos que apenas desejam emporcalhar as administrações, só para tirar proveitos futuros.
c. Caridade é bonita. Aproveitamento da miséria dos outros é coisa bem diferente de uma eficaz pedagogia cidadã.
d. Participando todos de um único cosmo, nele estão refletidas esperanças, conquistas e humilhações. O adesismo cínico é tão grotesco quanto imaginar que alguns episódios e personalidades do passado não poderão voltar nunca mais.
e. Quem só possuir apenas uma visão “economicista” jamais acreditará nas potencialidades do homem como construtor de amanhãs.
f. Crítica política é uma coisa, chafurdices são outros quinhentos. Debates consistentes edificam a consolidação das cidadanias coletivas.
g. O Cristóvam Buarque, um pernambucano competente e de honorabilidade comprovada, sabe das coisas: “O caminho não está em repudiar o socialismo, ou ficar na crítica ao neoliberalismo. Mas em entender a dimensão da crise, perceber a realidade da luta de interesses e oferecer alternativas que incorporem as massas, sem perder o apoio das camadas que são assalariadas, mas que já participam do bem-estar do país moderno que é o Brasil”.
h. Em qualquer circunstância, seguir o receituário de Lao-Tsé, reagindo inteligentemente mesmo diante dos tratamentos não inteligentes.
i. Durante a gestão municipal, como Aldous Huxley perceber que “experiência não é aquilo que acontece com o homem; é o que o homem faz com aquilo que acontece com ele.”
j. E entender que a crise maior, nas últimas décadas , não é econômico-financeira. É uma crise de percepção, onde situação e oposição ainda não perceberam a existência de inúmeros pontos de um caminhar conjunto, para o fortalecimento do regime democrático através da ampliação da igualdade social.
No mais, disse Silvino, é desejar sorte a todos, nesta pandemia crudelíssima, prenúncio de auroras bem mais iluminadas.