NPD 092. FAROFEIROS


Tenho uma patológica aversão a um tipo de gente que se imagina sempre gota-serena, muito embora viva nostalgicamente voltada para não sei quantos anos atrás. Completamente mofada, com ideias vagaluminosas, aquelas que somente reluzem pela parte de trás.
Mas a minha antipatia se quintuplica quando vejo uma pessoa belle époque arrotando grandezas mil, fantasistas todas, não imaginando jamais que o germe mais maléfico da atual crise brasileira é o do faz-de-conta, aquele que somente aumenta o cordão dos adeptos de uma baita alienação política, nunca analisando com seriedade não sectária os caminhos necessários para o desenvolvimento nacional amplamente integrador, sem populismos e demagogias viróticas.
O farofeiro se reinventa pra trás. Adepto de bugigangas televisivas e falas idióticas pela redes sociais, é individualista por excelência, sempre buscando subverter Fernando Pessoa, ao alardear, pelo comportamento aparentemente civilizado, que “tudo vale quando a alma é muito pequena”. E também nunca assimilando, porque inculto, impulsivos e imediatista, o alto significado da advertência de Karl Mannheim: “Toda nossa tradição educacional e nosso sistema de valores ainda estão adaptados às necessidades de um mundo paroquial e no entanto espantamo-nos porque as pessoas se saem mal quando têm de agir num plano mais amplo”.
Uma aversão às ideologias abstratas e uma pouca sutil detração aos intelectuais, aos que pensam mas são financeiramente frágeis, faz parte do ideário do farofeiro metido a arretado. Todo farofeiro chama de “sonhador” aquele que não sabe levar vantagem em tudo. E menospreza, quase xingando, os que pensam como Georg Groddeck: “Acredito que os homens que, nas fantasias tornam possível o impossível realizam mais e melhor, não mais sendo atormentados pela ambição há muito satisfeita”.
O farofeiro compra obra de arte por metro quadrado, não tem o hábito saudável da boa leitura, menospreza o humor inteligente, é puritano de carteirinha e não percebe que a ignorância é a maior multinacional do mundo. E certamente repreenderia Graciliano Ramos, então revisor do Correio da Manhã, por ele ter instruído um repórter que usara a palavra “outrossim” da seguinte maneira: “Outrossim é a puta que pariu!”.
E o riso “hiênico” de um farofeiro? Alguém já reparou o quanto ele se esforça para rir quando não entende bulhufas de um crítica inteligente? Qualquer pessoa pode fazer tal experiência. Pra comprovar na prática, o NI – Nível Idiótico de um farofeiro.
Recordo sempre que posso, para os farofeiros, uma reflexão inesquecível do Eduardo Galeano, consagrado autor de As Veias Abertas da América Latina: “Nos últimos anos, duplicou-se a brecha que separa o Norte do Sul. Será preciso inventar um novo dicionário para o século que vem. A chamada democracia universal pouco ou nada tem de democrática, como o chamado socialismo real pouco ou nada tinha de socialista. Nunca foi tão antidemocrática a distribuição de pães e peixes”.
Numa pandemia histórica e histérica, “simples gripezinha” para muitos desligadões da Ciência, gostaria muito de dizer a cada farofeiro: como filho dileto da Criação, saiba diferenciar-se pela capacidade de integrar-se solidariamente consigo mesmo, em primeiro lugar; somente aquele que tem a mão de alguém para segurar sobrepujará idiotias e modismos embriagadores; desafie-se e encontre alguma coisa verdadeiramente humana para fazer todos os dias; acerque-se de gente empreendedora de QI ajustado aos desafios de um futuro que já se encontra entre nós. Sem jamais esquecer o ensinamento do rabino Harold Kushner: “Não há jeito de evitar a morte. Mas a cura para o medo da morte é o sentimento de ter vivido”.
PS. Para todos aqueles que continuam sinceramente teimando por um Mundo Novo, sem sectarismo algum, também sem medo nem ódio, nordestinados cada vez mais.