NPD 074. PANGARÉS E FAROLAGENS


De quando em vez, nestes tempos de isolamento social causado pela COVID-19, a gente se depara com atoleimados tecendo comentários pelas redes sociais ou sendo entrevistados incompetentemente sem a menor criatividade. Abilolados, como dizia minha vó Zefinha.
Sem entender bulhufas de uma cruel contemporaneidade virótica, ainda alarmante por muitos tempos, perguntas, respostas, esclarecimentos, lamentações e lamúrias fingidas são cada vez mais explicitadas pelos meios de comunicação, destilando besteiras por todos os poros, irracionalizando os fatos, causas e problemas, às vezes floreando tudo por crenças malucas, refletindo um subdesenvolvimento mental que é o pior de todos. Engabelando os declarantes e ouvintes com invencionices, fingimentos e outras presepadas.
O João Silvino da Conceição, esse arretado PhD meu irmão em coisas da vida, costuma dizer que todo pangaré que fica sempre olhando para os seus problemas, será por eles derrubado. E cita não sei quem, alguém que ele leu e muito gostou: “Os fatos costumam ser neutros; são as crenças que afetam nossas formas de pensar, sentir e agir”.
O Conceição ficou impressionado com uma entrevista dada, certa feita, pelo Stephen Hawkings, esse físico britânico portador de uma crescentemente gravíssima doença neurológica, quando ele declarou estar se sentindo muito feliz por ter contribuído para um melhor conhecimento das origens do Universo! E o Stephen estava, à época, recém-casado!!
Numa das últimas visitas que fiz à casa-quase-casebre do Silvino da Conceição, antes da pandemia, conversa vai, conversa vem, cerveja sempre gelada e uns pedacinhos de queijo de coalho para alegrar o estômago, ele me disse que bem vive quem sabe entender as três regras de um jogo de damas. Atendendo a minha curiosidade, declinou-as: 1. Não se pode fazer duas jogadas por vez; 2. Somente se pode mover para frente; 3. quando se chega na última fila, se está livre para se ir onde quiser.
E o Silvino arrematou, riso franco, peito aberto, sem medo algum de ser feliz: “Se todo pangaré soubesse aplicar as regras de um jogo de dama, logo logo deixaria de ser um pangaré cheio de estrepolias”. E concluiu, cheio de convicção mental: “Todo ser humano que sofre antes do necessário sofre mais do que o necessário”.
Gosto muitíssimo de papear com o Silvino da Conceição, principalmente quando, vez por outra, insatisfações múltiplas parecem querer catapultar meu otimismo realista para bem longe.
Quando de minha visita última, já portão aberto e abraços de até-outro-dia dados, ele me presenteou com uma das suas, uma “saideira” de primeiríssima: “Quando alguém se considera um ser humano puro e simples, e com um terceiro acontece o mesmo, então é natural se encontrarem para um bate-papo sempre aberto, as diferenças administradas com sabedoria e paciência recíprocas. Quando, entretanto, um deles se considera uma altíssima montanha, o outro pensando o mesmo, as convergências jamais acontecerão. Montanhas podem ser altas, mas jamais podem se tocar…” Lembrei-me imediatamente de algunas “otoridades” do nosso atual Governo Federal.
De retorno às tarefas profissionais, no meu gabinete doméstico, agradeci ao Pai Eterno minha fraternal independência analítica, sem rebaixamento nem bajulações, sentindo-me mais apto na identificação dos pangarés da província, rejeitando as farolagens, que apenas ampliam inquietações e desconfortos. R fiquei bem mais afiado na identificação das “montanhas” do Silvino da Conceição, charladores que se auto-intitulam para engabelar panacas, como se todos fossem lambaios dos seus conjunturais postos de mando.
No mais, é não esquecer Mário Quintana: “A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Quintana e Silvino da Conceição, doutores de Vida, sem brasões nem lamentações cavilosas e peçonhentas.