NPD 049. UMA PARÁBOLA RECONTADA


Como poderia ser ajustada aos tempos mundialmente pandêmicos de agora a parábola de Lucas 18, 9-14?, destinada a um mundo que necessita ser mais solidariamente responsável?
Peço licença para apresentar uma nova redação do texto do evangelista:
Dois seres humanos ingressaram num ambiente religioso para cumprimento das suas visitas semanais. Um deles, pós-graduado numa área importante, possuía ar de sabidão, todo enfatiotado. a pasta contendo um curriculum-vitae Lates atualizado, além de cartões de visita em papel-linho, talões de cheques especiais, celular 5G e um palmtop último tipo, desses que o comando é dado pelo olhar. Boçalmente vaidoso, parecia sobrepairar sobre os demais, como se todos lhe devessem imenso respeito, incontidos aplausos e explícita admiração, além das fotos sociais enviadas aos jornais da região, acompanhadas de pequenos agrados. O outro, semi-alfabetizado, trabalhava como biscateiro de bairro suburbano, sem muita demanda nos últimos tempos por causa do isolamento social geral. De alpercatas gastas, calças remendadas, camisa encardida, refletia um ar bastante sofrido, embora de extrema confiança nos amanhãs da Providência.
O pós-graduado, na primeira fila, falou alto e bom som, olhos revirados e suspiros múltiplos:
– Deus Eterno, agradeço-Te por eu ser diferente dos que não estudaram, nem possuem discernimentos estratégicos, tampouco entendendo de computação e mercado financeiro. E agradeço ainda por ser diferente dos ladrões, corrutos e adúlteros, dos que jogam conversa fora, desconhecendo o que seja taxa de retorno, especulação imobiliária e terceirização para lucratividades crescentes. Não esqueço de dar esmolas e de patrocinar apoios que me proporcionam elogios inúmeros nas mídias e noticiários televisivos sobre solidariedade empresarial.
O outro, bem contrito no final do ambiente, orou bem baixinho, todo envergonhado, olhos umedecidos de noites indormidas:
– Pai Amado, perdoa minhas faltas e omissões, minha insensibilidade diante dos sem-nada. Atenua minha incapacidade de, sozinho, soerguer-me para níveis convivenciais menos angustiantes. Tem misericórdia da minha insensatez social, estendendo-me os braços para que neles eu possa me abrigar todas as manhãs, ao sair para buscar novos biscates.
O segundo foi para a casa plenamente abençoado por Deus.
A parábola acima nos ensina que devemos ser cada vez mais pidões da misericórdia divina, reconhecendo-nos insignificantes diante da onipotência de Deus. E sempre repetindo, a cada final de noite, a oração da Dona Lulu, favelada negra octogenária de bairro de periferia nordestina: Senhor, “crareia” a minha cabeça para que eu possa entender os Teus sinais. Uma prece cristãmente correta, a encarecer as Graças do Eterno para enxergar melhor a missão por Ele confiada. Uma missão que pode estar muito próxima de nós, ainda ofuscados por um pernóstico individualismo, distanciado de animador de ações comunitárias, de facilitador de escola dominical, de visitante de doentes terminais ou incentivador do caminhar cidadão dos seus próprios derredores.
Saibamos nos perceber na direção da luz d’Ele, sempre carentes da incomensurável misericórdia divina, sempre pidão como o salmista: “Abre os meus olhos, para que eu veja as maravilhas da tua Lei” (Sl 119,18). Quase tal e qual o pedido da Dona Lulu, hoje em merecido descanso na Mansão do nosso Pai.