NPD 042. LEITURAS DE LIBERTAÇÃO


Na minha condição de cristão espírita sempre muito inquieto, alegremente tenho observado, nos últimos tempos, uma crescente pesquisa em torno do Homão da Galileia, sua chegada, sua missão, seus propósitos e estratégias para que as boas novas fossem bem assimiladas. Os trabalhos de Juan Arias (Jesus, esse grande desconhecido), Philip Yancey (A Bíblia que Jesus lia), Jacques Duquesne (Jesus, a verdadeira história), Marie Vidal (Um judeu chamado Jesus), Martin Forward (Jesus, uma pequena biografia), Israel Knohl (O Messias antes de Jesus), John Dominic Crossan (Uma biografia revolucionária sobre Jesus) e A.N. Wilson (Jesus, um retrato do homem) bem comprovam o empenho de especialistas consagrados, de denominações várias, agnósticos inclusive, em elucidar lacunas deixadas pelos Evangelhos canônicos, inclusive lançando mão de documentos autênticos, de antiguidade comprovada, embora não aceitos oficialmente nos primordiais tempos da era cristã. Num deles, os Manuscritos do Mar Morto, se pode entender melhor o contexto judaico da carreira de Jesus, inclusive o conceito emergente de messianismo catastrófico.
No meu último mini-recesso, li com sofreguidão o trabalho de Antonio Piñero, catedrático de Filologia Neotestamentária da Universidade Complutense de Madri, intitulado O Outro Jesus Segundo Evangelhos Apócrifos, editado conjuntamente pela Mercuryo e Paulus. Com base nas fontes não aceitas como canônicas ou inspiradas, algumas delas datadas dos dois primeiros séculos da era cristã, Piñero consegue de forma esplendorosa elucidar algumas obscuridades contidas no Novo Testamento: a concepção, o nascimento e as primeiras peraltices do Prometido, a situação conjugal Maria-José e os fuxicos da época diante da gravidez de uma jovem de apenas 16 anos, os irmãos do Menino, os ensinamentos secretos de Jesus e a assunção de Maria, um fato não registrado nos evangelhos oficiais, embora relatado num dos classificados como apócrifos.
Para se ter uma ideia, Antônio Piñero estudou minuciosamente cada um dos 36 documentos considerados inautênticos, dividindo-os em quatro grandes grupos. E expõe suas conclusões através de um estilo descomplicado. Um dos capítulos mais significativos do livro analisa os questionamentos feitos pelos Doze e alguns seguidores (Mc 4,11ss). E mostra como Jesus ensinava aos seus mais próximos de um modo pedagogicamente formativo, preparando sua equipe para as pregações futuras, a serem efetivadas sem mais a Sua presença.
As lições do Mestre podem ser explicitadas através de quatro princípios fundamentais, já bastante propagados antes mesmo do Seu nascimento:
1. A melhor parte do ser humano e a mais autêntica é o espírito. É como uma centelha divina, consubstancial com a divindade, da qual se origina por emanação;
2. Por um processo complicado, necessário e adverso – a ser em breve esclarecido -, essa centelha divina está presa na matéria, isto é, no corpo do homem e nesse mundo material. Mas o Eu verdadeiro do ser humano, a centelha divina, tem sua pátria no céu;
3. A centelha divina deve tomar consciência de seu ser e voltar ao lugar de onde procede;
4. Um ser divino desce do âmbito superior em missão de resgate, com sua revelação lembrando ao homem que ele possui essa centelha, o ilumina e o instrui sobre o modo de fazê-la retornar ao lugar de origem.
Na literatura considerada apócrifa, informações sobre Jesus contribuem para melhor compreender a caminhada do Homem de Nazaré, ratificando João, no último versículo do seu evangelho: “Jesus fez muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos”.
Como ficaria alegre o amoroso evangelista se pudesse contar, naquela época, com os recursos da computação eletrônica. Certamente, muito mais coisas estariam armazenadas.