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VIVER COM PLENITUDE
 No semestre passado, participei de um papo com o pessoal da ESAFAZ – Escola de Administração Fazendária, que comemorava o vigésimo aniversário de criação da instituição, uma parição do IAF – Instituto de Administração Fazendária, iniciativa pioneira do então governador Gustavo Krause. Uma solenidade recheada de muita energia, presentes quase todos os seus ex-diretores, além de um coral afiado que se agigantou diante de plateia entusiasta. 

E principiei a fala dizendo que se encontra no cotidiano três tipos de pessoas: as que aceitam o mundo como o encontraram, a turma do “se Deus quiser” e do “Deus quis”, e os conscientes, que procuram perceber-se como uma metamorfose ambuante (Raul Seixas), ratificando o pensar do Lulu Santos (Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia) e Fernando Pessoa (Tudo vale a pena quando a alma não é pequena). E que os conscientes são possuidores de saúdes bem desenvolvidas: a emocional, sempre aprimorando a resiliência pessoal; a espiritual, conjugando missão de vida com muita paz interior; a física, manifestada através de repouso adequado, alimentação apropriada e comportamento preventivo; a financeira, gerenciando seu existir de forma sustentável; a intelectual, favorecendo sempre a expansão dos conhecimentos; e a profissional, desempenhada por uma convivialidade explicitada nos relacionamentos pessoais frutificantes.

Diante de uma pergunta inteligente – Como enfrentar com efetividade um caminhar profissional/pessoal consistente? – apontei as três áreas que rodeiam nossa caminhada: a zona do conforto, quando a acomodação e a falta de iniciativa acarretam a inexistência de novos aprendizados e debilidade da curiosidade; a zona de pânico, quando ocorrem mudança, uma porta que só pode ser aberta pelo lado de dentro; e a zona do desconforto voluntário, quando a curiosidade, aprendizagem e as iniciativas mobilizadoras acarretam ampliações da enxergância, emulando novas iniciativas e fazedo emergir novas curiosidades.  

No papo com o pessoal da ESAFAZ, citei uma opinião do Dr. Jair Candido de Melo, ex-reitor do ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica: “Quando quiser avaliar uma organização, não se fixe tanto na imponência de seus prédios ou de suas máquinas, observe  as pessoas, veja se há brilho em seus olhos ou sorriso em seus lábios;converse com elas e sinta se há entusiasmo em suas falas. Encontrando isso, pode ter a certeza de que a organização está bem”. E pelos aplausos de contentamentos, logo percebi que aquela instituição se encontrava muito bem administrada, dada o grau de satisfação reinante. Aproveitei a oportunidade para enumerar os mais perniciosos complicadores do profissional contemporâneo: a ausência de uma fascinação pelo futuro, a ampliação de uma cultura de fingimento, as arrogâncias, arrotâncias e autoritarismos dos dirigentes jovens recém nomeados, e o azedume exalado quando dos diálogos com os funcionários subalternos. E que tais “virus” deveriam ser sempre combatidos através de consistentes princípios éticos, rejeição das imitações acríticas e trato das conflitividades sem medos, receios e traições, para isso sendo indispensáveis uma capacidade estratégica para edificaçãos dos cenários futuror, uma gerencialidade associativa, uma criatividade gestora nunca bur(r)ocratizante e uma continuada tesão existencial, sempre rejeitando as posturas que admitem apenas uma resposta, cultivando-se através dela o medo do erro e do fracasso.

Antes de concluir minha fala, atendendo uma curiosidade de um jovem executivo, revelei minhas atuais ojerizas: os fuxiquismos e babaovismos,  além dos vitimismos, coitadismos, dolorismos e babaquismos que prejudicam as trajetórias pessoais e profissionais. E aproveitei o momento para revelar minhas quatro maiores admirações, três já eternizadas e um ainda entre nós, vivendo com muita bravura.  Duas das eternizadas já eram do conhecimento de muitos dos presentes: Antônio Carolino Gonçalves, meu pai, e Hélder Câmara, o inesquecível arcebispo de Olinda e Recife. A terceira é Helen Keller, norteamericana, que nasceu cega, surda e muda, tornando-se, através da paciência inteligente de uma professora, uma das maiores palestrantes do seu país, defensora incansável dos direitos das mulheres. Sua é uma reflexão muito repetida até hoje: : “A ciência pode ter encontrado a cura para a maioria dos males, no entanto ainda não encontrou o remédio para o pior de todos – a apatia dos seres humanos”.

A quarta admiração, ainda entre nós, chama-se Eliana Zagui, 38 anos de idade, 36 deitada num leito de UTI do Instituto de Ortopedia do HC de São Paulo, vítima de paralisia infantil aos dois anos de idade, perdendo os movimentos do pescoço para baixo. Respira por ajuda de aparelhos. Na cama, terminou o ensino médio, aprendeu inglês e italiano, fez curso de história da arte, tornou-se pintora e aprendeu a escrever com a boca. E que lançou, recentemente, o livro Pulmão de Aço – uma vida no maior hospital Do Brasil, editora Belaletra, 2012. E que declarou, na FSP, em abril passado:  “Espero que o livro ajude aqueles que não querem nada com a vida. É sempre bom poder aprender a tirar o que vale a pena da vida”. 

E a minha parte foi concluída, utilizando versos do padre Daniel Lima, eternizado em abril passado. Um gênio que jamais desejou os palcos, permanecendo sempre convivendo com seus acanhamentos existenciais: “Antes, vivia na certeza, / como uma águia aprisionada na gaiola./ A dúvida me libertou / deixando-me voar no espaço livre, / não mais certo de nada / 
senão da importância do voo.”

PS. Para Eliana Trigueiro, amiga querida da ESAFAZ, inteligência privilegiada.
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Fernando Antônio Gonçalves é professor universitário e pesquisador social.

(Publicada em 17.09.2012 no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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