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VIA(DA)GENS TEOLÓGICAS
Se o título proporcionar arrepios cutâneos e comichões anais reacionários nos que apenas vivenciam ontens obsoletos, ainda insepultos, ressalto de pronto que é o título acima reflete um excelente e erudito lançamento da Fonte Editorial, de autoria de André Musskopf, mestrado e doutorado pela Escola Superior de Teologia, especialista reconhecido internacionalmente nas áreas de Estudos Feministas, Teorias do Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual.

A tese de doutoramento do Musskopf é pano de fundo dos debates atuais sobre religiosidade e sexualidade no Brasil, desde os tempos coloniais, recorrendo ele aos estudos e reflexões feitas pela pesquisadora argentina Marcela Althauss-Reid, pela escritora francesa Simone de Beauvoir, pelo teólogo naturalizado norte-americano Paul Tillich e pela paulistana nordestinizada e muito querida Ivone Gebara, PhD pela Universidade de Louvain, Bélgica, tendo ela lecionado durante 17 anos no Instituto de Teologia do Recife até 1988, quando a instituição teve decretada sua dissolução pelo Vaticano, para satisfação orgásmica dos fuxicosos paranoicos episcopais da época. Todos os destituídos amplamente cônscios do balizamento paulino tão esquecido por inúmeros líderes religiosos cristãos, inclusive purpurados repletos de purpurinas: “Não vos conformeis com este século, mas transformem-se  pela renovação das suas mentes, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12,2)..

Na sua exaustiva pesquisa, Musskopf ratifica o refletido pelo Leandro Colling:  “A teoria queer começou a ser desenvolvida a partir do final dos anos 80 por uma série de pesquisadores e ativistas bastante diversificados, especialmente nos Estados Unidos. Um dos primeiros problemas é como traduzir o termo queer para a Língua Portuguesa. Assim, um dos maiores esforços reside na crítica ao que se convencionou chamar de heteronormatividade homofóbica, defendida por aqueles que vêem o modelo heterossexual como o único correto e saudável. Apesar de unidos em uma série de aspectos, movimentos gays e teóricos queer nem sempre pensam da mesma maneira. Uma das tensões é a estratégia, adotada por muitos ativistas, de tentar demonstrar que os homossexuais são iguais aos heterossexuais, ou seja, de que todos são “normais”. De alguma forma, esta tensão entre política queer e movimento gay fica visível na forma como os ativistas gays reagem a determinados personagens homossexuais nas telenovelas brasileiras. Em várias ocasiões, por exemplo, o Grupo Gay da Bahia (GGB) ameaçou processar os autores e a própria emissora em função da existência de personagens homossexuais afeminados e/ou caricatos. Um cuidado conceitual a tomar é o de não associar diretamente o gay ao queer. Apesar do rigor conceitual, a teoria queer pretende mais é provocar o estranhamento nas próprias formas de pensar, inclusive as acadêmicas”.

O próprio Musskopf reproduz a diferença entre terminologias: “A palavra gay não deve ser confundida com homossexual, pois por definição elas significam coisas bastante diferentes. Gay subentende uma identidade e consciência sociais ativamente escolhidas, enquanto homossexual se refere a uma forma específica de sexualidade. Uma pessoa pode ser homossexual, mas isto não  implicaque ele ou ela seja gay”.

Mostrando as razões porque o teólogo Paul Tillich prefere falar em “comunidade espiritual” ao invés de falar em “igreja”, quando discute a Presença Espiritual no âmbito da religião, Musskopf enaltece a teologia feminista de Ivone Gebara, quando ela declara: “A liberdade nos leva a pensar de maneira criativa, a divagar, mudar de caminho, a afastar-nos do rebanho, imaginar-nos de um outro jeito, a recriar-nos, a renascer muitas vezes”.

O livro do Musskopf deve ser lido pondo de lado preconceitos e cavilosidades contra aqueles que possuem uma outra sexualidade, como se pode ser destro e canhoto, este chamado de sinistro talvez também por puro preconceito.

(Publicada em 25.06.2012, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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