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UMA PERGUNTA OPORTUNA
Numa mesa junina repleta de comidas caseira e cervejas 0% álcool, o papo se concentrava sobre o Alfredo Henrique, um companheiro de magistério de uma universidade paraibana, sociólogo agora PhD, recém chegado dos EEUU, onde laureou-se com louvor e muitos parabéns.
 
Sendo a especialidade do Alfredo a Sociologia Política, uma pergunta logo emergiu do sobrinho dele, um garotão de quase vinte anos, antenado e um tanto inquieto, de leituras muitas sobre regimes políticos, um hábito adquirido no início do Ensino Médio, quando assistiu o documentário Arquitetura da Destruição, um filme de Peter Cohen premiado na 16ª. Mostra Internacional de Cinema, consagrado como um dos melhores estudos já feitos sobre o nazismo no cinema. A pergunta do Paulinho, sobrinho do Henrique deixou todos com as cucas embaralhadas: - Como foi possível que a densa cultura alemã, de tanta criatividade e realizações, pudesse gerar tanto barbarismo e destruição sobre Adolf Hitler?
 
Sem qualquer pedantismo dos que se definem como “cientistas políticos”, o Alfredinho, assim chamado diante da sua altura “estupenda”, 1,65 m, perfil mais para Quixote que para Sancho Pança, ressaltou a existência de um curso específico ministrado na Gonzaga University, Washington, pelo professor Roderick Stackelberg, há mais de duas décadas, intitulado “Alemanha de Hitler”, de livro editado no Brasil pela editora Imago, denominado A Alemanha de Hitler: origens, interpretações, legados, 2002, 412 p., que proporciona uma visão bastante completa do período do domínio nazista e dos acontecimentos pretéritos que levaram àquele estado de terror. O livro, um relato breve, abarca vários tempos: o período de 1918 a 1945, os antecedentes sementeiros do século XIX e os existentes após 1945.
 
Sobre a tragédia do Holocausto acontecido, uma mancha que até hoje enodoa a História Mundial, o Alfredinho indicou um outro livro, cuja leitura conjunta em muito ampliaria a compreensão do assassinato nazista, que vitimou milhões de judeus, além de homossexuais, ciganos, negros e deficientes físicos e mentais. Trata-se de Hitler e o Holocausto, Robert S. Wistrich, Rio de Janeiro, Objetiva, 2002, 420 p.
 
O autor segundo, Wistrich, é professor titular de História Moderna Europeia e de História Judaica na Universidade Hebraica de Jerusalém, também professor visitante nas universidades de Harvard e Oxford. E também visitante do Instituto de Estudos Avançados dos Países Baixos, sendo considerado uma das mais capacitadas inteligências em judaísmo moderno e antissemitismo. No seu estudo, após inúmeras pesquisas em arquivos históricos em Israel, na Europa, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, o professor reproduz estupidificantes declarações antissemitas por derradeiro. Duas delas: “Depois de Satanás, os cristãos não têm inimigo pior que os judeus (...). Estes rezam, diariamente, pedindo a Deus que nos destrua com a peste, a fome e a guerra, sim, que todos os seres e criaturas a eles se unam contra os cristãos” (Abraão Santa Clara, pregador católico vienense, 1683). A segunda, de 1881, é da lavra do compositor Richard Wagner, idolatrado pelo assassino Adolf Hitler: “Considero a raça judaica inimiga inata da humanidade pura e de tudo o que nela existe de nobre. Decerto, essa raça está destruindo a nós, alemães, e eu talvez seja o último alemão capaz de se impor diante do judaísmo, que já a tudo governa.”
 
Uma quase certeza predomina nos mais diferenciados centros históricos: houve uma complacência do mundo diante do sofrimento dos judeus no III Reich. Dois pronunciamentos são provas irrefutáveis dessa omissão. O primeiro deles é do bispo George Bell, de Chichester, em 18 de maio de 1943: “A culpa é dos nazistas (...) Mas podemos  nos eximir de responsabilidade se, tendo condições de fazer algo para salvar as vítimas, deixamos de tomar as medidas cabíveis e de tomá-las prontamente? (...) Se os governos britânico e norte-americano estivessem determinados a implementar um plano de resgate cuja dimensão, de certo modo, fosse proporcional à grandeza da necessidade, poderiam fazê-lo”. O outro protesto adveio em 10 de julho de 1994, em discurso pronunciado em Jerusalém pelo líder David Ben-Gurion: “O que fizeste conosco, ó povos que amais a liberdade, guardiães da justiça, defensores dos altos princípios da democracia e da fraternidade entre os homens? O que permitistes ser perpetrado contra um povo indefeso, enquanto ficastes  de lado, deixando que sangrássemos até a morte? (...) Se, em vez dos judeus, milhares de mulheres, crianças e idosos ingleses, norte-americanos e russos estivessem sendo torturados diariamente, imolados vivos, asfixiados em câmaras de gás – teríeis agido da mesma maneira?”.
 
A leitura dos dois livros ressalta uma verdade inconteste: muitos, além dos assassinos do III Reich, foram também responsáveis pelo maior genocídio da história da humanidade, parte de uma política planejada  deliberada de Estado, mobilizadora de vultosas verbas para erradicar um povo da face da terra.
 
Um fato é motivo de múltiplas esperanças para o mundo inteiro: “Os debates sobre o passado na Alemanha não são acadêmicos, nem apenas político. Envolvem a identidade nacional e a base moral da política. Em nenhum outro país tem ocorrido uma análise tão intensa do passado quanto na Alemanha”.
 
Para quem se interessar pelo curso do professor Stackelber, a Gonzaga University é uma universidade privada, católica, fundada em 1887 pelo padre jesuíta Joseph Cataldo. Seu campus tem 94 edifícios, 437.000 metros quadrados, abrigando 92 graduações e 21 pós-graduações, recebendo estudantes de todas as partes do mundo. No curso em apreço, compreende-se porque a culpabilidade da tragédia do III Reich deve ser estendida pelos segmentos os mais diferenciados, inclusive religiosos. Onde o Vaticano e Martinho Lutero têm  seus ideários analisados sem quaisquer preconceitos, favorecendo amanhãs planetários mais solidários e prestativos.
 
Uma reflexão do professor Stackelberg, em seu livro, justifica sua leitura, tornando-a muito oportuna para os tempos contemporâneos: “Por mais justificada que a condenação moral possa ser, considerar o nazismo apenas em termos morais ou metafísicos não proporciona uma explicação coerente para seu sucesso extraordinário e popularidade excepcional”.
 
(Divulgado em 04.07.2016, no www.fernandogoncalves.pro.br)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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