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UM DOM JOSÉ DE MUITA SAUDADE
 Apesar dos posicionamentos religiosos advindos, nos últimos tempos, de múltiplas denominações cristãs, espanta-me o crescente acocoramento de todas elas diante das gritantes crueldades sociais que se multiplicam em nome de uma globalização que apenas amplia as desigualdades regionais. Parecendo estar valendo novamente aquela máxima que proclamava ter que sofrer bem muito por aqui caso se desejasse ingressar em definitivo nas mansões celestiais.
 Entretanto, um livro editado pela Paulus, em meados da década passada, amplia esperanças e reduz angústias em todos aqueles que buscam seguir princípios religiosos para “remover montanhas”, percebendo que Deus nada pode fazer por um povo que sofre sem pão, segurança e sem trabalho, se não contar com as “minorias abraâmicas” -  expressão muito feliz de Dom Hélder Câmara, o autêntico Dom -, aqueles abnegados que discordam de  “uma igreja preocupada consigo mesma, ensinando uma salvação que por vezes se torna utópica, persistindo em um evangelho voltado para si mesmo e, o que é pior, para um sistema de religiosidade que impõe barreiras à prática do verdadeiro evangelho da justiça, praticado e ensinado por Jesus”, reproduzindo as palavras do pastor Aguinaldo Castanheira, da Igreja Batista Getsâmane, Belo Horizonte-MG.
 O livro acima mencionado é Dom José Maria Pires – Uma Voz Fiel à Mudança Social, coleção dos pronunciamentos feitos, de março de 1966 a dezembro de 1995, por Dom Pelé, como era carinhosamente chamado, dada sua negritude, quando da sua gestão episcopal à frente da Arquidiocese da Paraíba. Uma coleção meticulosamente organizada por Sampaio Geraldo Lopes Ribeiro, um paraibano que se tornou escudeiro de Dom José, que sempre o acompanhou, mesmo ele como ex-arcebispo, nas suas andanças evangelizadoras pelos interiores das Minas Gerais, encantando públicos sempre numerosos.       
 Os testemunhos contidos no livro sobre Dom José Maria Pires redobram os ânimos dos que combatem sem denodo “uma miséria generalizada, que assume proporções alarmantes, produto de um processo historicamente desencadeado a partir de fatores econômicos, políticos, sociais, culturais e, por que não dizer, religiosos”, a exigir um novo entendimento planetário, uma nova concepção de desenvolvimento, “para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Vale transcrever alguns: “O Brasil inteiro deve um preito de gratidão a esse homem, ao mesmo tempo meigo e enérgico nas mais diversas posições” (Dom Paulo Evaristo Arns); “Dom José Maria Pires é, para mim, o exemplo vivo do autêntico discípulo de Jesus. Negro, nunca negou a raça. Ousado, jamais temeu defender a causa dos pobres e os direitos humanos” (Frei Betto); “É ecumênico e macroecumênico, como por natureza. Está com o Povo, faz-se Povo. Sendo mineiro, se fez nordestino; sendo arcebispo, se fez companheiro” (Dom Pedro Casaldáliga); “O povo o amava porque sabia e sentia que ele estava realmente dedicado, fiel à sua palavra e comprometido com a causa dos excluídos.” (Pe. José Comblin). 
 A sua última Carta Pastoral, sua Mensagem de Despedida, é documento que deveria ser lido e relido por todos aqueles que desejam ser bispos de mesmo, sem faniquituices nem pruridos moralistas. Uma Carta Pastoral que revela fraquezas e vitórias, decepções e alegrias, deficiências e uma vontade férrea de servir ao Senhor com alegria. Com uma franqueza ímpar, Dom José revela: “Minha paraibanidade está cada vez mais comprometida com os pobres. Tenho que ser fiel a eles, para ser fiel a ela. Cidadania só existe quando todos têm casa, comida, trabalho, educação, saúde e lazer”.
 Dom José sabia falar. Falava com elegância, voz máscula a serviço do Senhor, solidária com os excluídos da Vida. Foi ele que, destemidamente, após a resignação de Hélder Câmara, manteve, no Nordeste II, a palavra evangelizadora dele. 
 Pe. Comblin tem toda razão sobre Dom José: “A Paraíba não se esquece dele!”
 

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