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TRÊS ASSUNTOS DE GUERRA
PRIMEIRO ASSUNTO
Para quem gosta de História de Guerras, um livro me deixou fascinado, tornado público pela Casa da Palavra, RJ. Escrito por um historiador contemporâneo, Martin Gilbert, intitula-se A Segunda Guerra Mundial: os 2.174 dias que mudaram o mundo. Um diário meticuloso do maior conflito do século XX, um texto que retrata os dramas vivenciados e as estratégias militares aplicadas. Segundo o The Times, “a obra traz à tona a totalidade do confronto mundial... Retrata a magnitude do sacrifício humano ... Segunda Guerra Mundial, de Gilbert, conta tanto sobre a história militar do conflito quanto sobre o ser humano”. Opinião complementada pelo The Guardian: “As fontes utilizadas são ricas e variadas, o detalhe, muitas vezes surpreendente ... Este é o primeiro estudo sobre a Segunda Guerra Mundial que integra deliberadamente o genocídio à narrativa”.
 
Foram 2.174 dias onde quarenta milhões de pessoas morreram, desde o ataque da Alemanha contra a Polônia, em 1° de setembro de 1939, até a rendição japonesa em 2 de setembro de 1945, quando o general japonês Yoshijiro Umezu assina o termo de rendição a bordo do couraçado americano Missouri, numa solenidade conduzida pelo general MacArthur.
 
O livro-diário da Segunda Guerra Mundial se inicia com uma encenação torpe dos liderados de Hitler, quando vestiram um pobre coitado com um uniforme polonês, levaram-no para a cidade alemã de Gleiwitz, a Gestapo assassinando-o na noite de 31 de agosto de 1939, para na manhã seguinte, despudoradamente, Adolfo Hitler apresentar “o ataque ao retransmissor de Gleiwitz por tropas polonesas” como justificativa para a invasão, premeditada de longo tempo, à Polônia, denominada Operação Himler para homenagear o chefe da SS nazista que planejou a pantomima criminosa.
 
Hitler e seus assassinos, usaram na ofensiva alemã um método não utilizado na Primeira Guerra Mundial: a Blitzkrieg, a guerra relâmpago, com seus três momentos: uma série de ataques aéreos, sem qualquer aviso, destruindo no solo a força aérea do país agredido; o bombardeio das comunicações rodoviárias e ferroviárias, os quartéis, os depósitos de munições e os centros urbanos; bombardeios de tropas localizadas em marcha, metralhando simultaneamente a população civil que buscava fugir dos soldados invasores.
 
No livro, relatos impressionantes das atrocidades praticadas. Em 3 de setembro, só para relatar um fato, em Wieruszow, vinte judeus foram reunidos na praça do mercado, entre os quais Israel Lewi, um homem de 64 anos. Quando sua filha, Liebe Lewi, correu para junto, um animal nazista mandou-a abrir a boca, disparando uma bala com a arma nela enfiada. Logo depois, foram assassinados os vinte judeus.
 
Um livro-diário que deve ser vagarosamente lido, para aquilatar com asco as animalidades cometidas contra seres humanos. E ampliar a repulsa por todas as discriminações que humilham povos e nações.
                         
SEGUNDO ASSUNTO
Quando observo grupelhos idiotizados desfilando clamando pela volta do militarismo no Brasil, fico a imaginar o desconhecimento deles, descidadanizados por uma elite brasileira que ainda ignora as atrocidades cometidas na Segunda Guerra. Onde nazistas e comunistas foram responsáveis pelo assassinato de milhões de pessoas, inúmeras delas crianças indefesas, maiores de 60 anos, deficientes, homossexuais e judeus. Se pudesse, encareceria mais leituras sobre o assunto, uma delas do historiador David Stafford, graduado por Cambridge e PhD pela London School, atual diretor do Centro de Estudos sobre a Segunda Guerra Mundial da Universidade de Edimburgo, Escócia.
 
Seu livro Fim de Jogo, 1945: o capítulo que faltava da Segunda Guerra Mundial, Objetiva 2012, reúne, segundo o Daily Mail, “uma galeria extraordinária de história humanas – heroicas, trágicas, infames e comoventes”. No livro, Stafford revela como o Dia da Vitória foi apenas uma breve parada nos horrores e dificuldades que aconteceram após a rendição da Alemanha, tudo explicitado por testemunhos pessoais, cartas, diários e memórias, numa malha recheada de múltiplas tristezas, decepções, resistências e heroísmos, retaliações e vinganças, estupidezes e barbáries.
 
O primeiro parágrafo da Introdução retrata bem as análises contidas ao longo de 700 páginas: “Guerras não terminam quando cessam as batalhas, e a vitória militar por si só não garante a paz. Os feridos continuam a morrer. Os desalojados ainda buscam um lugar para morar. Pais procuram por filhos perdidos entre os escombros, e famílias e amigos tentam desesperadamente se reencontrar. Soldados das forças derrotadas passam semanas, meses, e até mesmo anos, confinados em campos de prisioneiros de guerra, quase sempre muito distante de casa. Os vitoriosos não convertem suas espadas em arados imediatamente. Eles perseguem os líderes inimigos, enfrentam aqueles que desejam continuar a luta e trabalham arduamente para estabelecer a lei e a ordem”.
 
A narrativa do autor se inicia numa sexta-feira, 20 de abril de 1945, quando o ditador nazista, comemorando seu aniversário no bunker, declarava que lutaria até o fim, mesmo morrendo se necessário. E termina no dia 16 de julho de 1945, quando Churchill e Truman chegam às ruínas de Berlim para a Conferência de Potsdam. Naquela mesma data, nos desertos do Novo México, a primeira bomba atômica do mundo era testada. A sorte do Japão estava traçada.
 
O livro está repleto de personagens inesquecíveis, desde a mãe alemã prisioneira da SS e cruelmente separada de seus dois filhos, até o veterano correspondente de guerra que se arrisca descendo numa mina de sal para ver com os próprios olhos as reservas de ouro do III Reich e as obras de arte confiscadas pelos nazistas.
 
Uma narrativa que trata de uma vitória militar que não resultou em paz, muito embora tenham impedido que Hitler e seus comparsas assassinos transformassem um mundo imperfeito num mundo ainda pior.
 
TERCEIRO ASSUNTO
Num texto muito bem detalhado, típico de um documentarista talentoso, o jornalista de rádio e televisão Jeremy Scahill apresenta pela Companhia das Letras, em março de 2014, seu livro Guerras sujas: o mundo é um campo de batalha, onde revela, num relato pouco convencional, as novas mudanças paradigmáticas da política externa norte-americana: “a luta longe dos campos de batalha declarados, por unidades que oficialmente não existem, em operações para as quais não há dados oficiais”.
 
Entrevistando agentes secretos, mercenários, líderes terroristas, parentes de vítimas, além de testemunhos que exigem continuar no anonimato, Scahill apresenta homens que comandam as operações mais secretas das Forças Armadas americanas e da CIA, num volume de mais de oitocentas páginas, em 57 capítulos e um epílogo – A guerra perpétua –, “revelando missões, até agora desconhecidas, que nunca serão discutidas por políticos norte-americanos nem imortalizadas em filmes de Holywood”.Muito embora o mundo já saiba as equipes que mataram Osama Bin Laden.  
 
Numa nota ao leitor, Scahill esclarece: “Esta é a história de como os Estados Unidos adotaram o assassinato como parte essencial de sua política de segurança nacional. É também a história das consequências dessa decisão para dezenas de países do mundo inteiro e para o futuro da democracia americana. ... Aos olhos de muitos conservadores, o presidente Obama tem sido fraco no combate ao terrorismo. Aos olhos de muitos liberais, ele travou uma guerra mais ‘inteligente’. A realidade, porém, é bem mais complicada”.
 
O livro demonstra que, para republicanos e democratas, “o mundo é um campo de batalha”. E se inicia com um breve histórico sobre o trato dispensado pelos Estados Unidos às práticas terroristas antes do trágico Onze de Setembro, era Bush, sequenciando-se fatos até o segundo mandato de Obama. E revelará missões até agora desconhecidas, inclusive investigando a vida de Anwar al-Awlaki, “o primeiro cidadão americano conhecido marcado para morrer por seu próprio governo, apesar de nunca ter sido acusado de crime algum”. 
 
O autor demonstra como atualmente o paradigma utilizado é “a melhor tecnologia, as melhores armas, o melhor material humano e um monte de dinheiro para torrar”, um dos exemplo mais noticiados tendo ocorrido em 2011, quando Raymond Davis, a serviço da CIA, matou dois paquistaneses a tiros em Lahore, sendo posteriormente libertado depois das famílias das vítimas terem sido forçadas a aceitar o pagamento de uma indenização intitulada “dinheiro de sangue”.
 
Uma das análises mais intrigantes do Scahill é a que mostra como Obama herdou de Bush um programa ampliado de uso de drones. Me fazendo lembrar os drones citados por ocasião da queda do avião do ex-governador Eduardo Campos. Recordando Marcos Freire e Celso Daniel.
 
(Publicado em 04.05.2015, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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