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TRABALHOS DE PÓS-GRADUAÇÃO
No final do mês passado, um pós-graduando em Ciências Humanas de uma universidade situada numa das principais capitais brasileiras me envia uma correspondência encarecendo uma referência bibliográfica para ele melhor se orientar na elaboração do seu trabalho de conclusão de mestrado. Confessando-se meio atordoado, pois na sua graduação não dera a devida importância às aulas ministradas sobre a matéria, imaginando-as sem muito significado para sua carreira de “cientista social” (sic). Sem traços vitimosos, a carta confessava ainda uma ausência mais densa de conteúdo do curso frequentado, a grande maioria do corpo docente composta de professores “decorebólogos, verborrágicos e viciados em estudo de grupo em sala de aula, eles postados coçando os bagos, elas afagando os próprios cabelos, os grupos sem mínimas finalizações, todos se danando para as áreas de lazer ao tocar da sirene”. Uma confissão que me sensibilizou bastante, posto que retrato fiel de um aluno vitimado por um sistema universitário de fingimento, sem eira nem beira, alçapão para ganhos financeiros de uma meia dúzia de sabidórios, devidamente “abençoados” por autorizações espúrias emitidas por entidades federais eivadas de estupendos vícios estruturais tronchamente representativos.
 
Eis a resposta que enviei ao pós-graduando em desesperança:
“Prezado UTR: Recebi sua correspondência e me solidarizo com seus aperreios. Mas como águas passadas não movem moinho, envio-lhe algumas linhas, buscando contribuir para o seu ‘desatolamento técnico-científico’. Me basearei num livro que preencherá muito bem suas necessidades primeiras, minimizando suas dificuldades: A Arte da Tese, Michel Beaudi, Rio de Janeiro, BestBolso, 2014, 192 p.  
 
Segundo a professora Érica Resende, Bibliotecária CFCH/UFRJ e prefaciadora do livro, “Michel Beaud, como educador, conseguiu neste livro não só sistematizar conhecimentos, mas também ‘confortar’ alunos. Trata o assunto de forma muito séria e deixa claro que nem todos chegarão ao fim. Por outro lado, proporciona uma espécie de carinho em relação ao aluno pesquisador e alerta para a importância do descanso, do lazer e da vida social durante o processo de construção da tese”.
 
Quando o livro foi editado pela vez primeira na França, o Le Monde, periódico que prima pela seriedade analítica, fez o seguinte comentário: “O trabalho intelectual não é fruto de uma inspiração súbita. É um trabalho árduo de pesquisa que precisamos dominar para evitar decepções e perda de tempo”. Por isso, peço-lhe a devida vênia para elaborar, abaixo, alguns pontos essenciais para um caminhar que resulte em final promissor para sua caminhada:
 
1. Não admita confeccionar uma tese tida como “teórica” com a finalidade de apenas adular textos e autores de renome, a partir de releituras e releituras de releituras. De modo idêntico, não aceite fazer um trabalho “empírico” com base em reproduções de informações factuais de terceiros sobre determinados assuntos. Uma boa tese é consequência de uma boa pesquisa, implicando um bom equilíbrio entre teoria e empirismo.
 
2. Após a escolha criteriosa do assunto e do orientador, atentar para três problemáticas: a Provisória, que acompanha os primeiros passos do trabalho, a  Problemática I, que guia o trabalho de pesquisa investigatória, e a Problemática II, que possibilita a estruturação do trabalho de redação, a exposição final do assunto.
 
3. Na fase de pesquisa, uma constatação sempre paramétrica: Não há pesquisa sem método. Tanto para a reflexão teórica quanto para a formulação da pesquisa de campo (entrevista, no caso de pesquisa social). É preciso método dominado na área em que se trabalha: literatura, filosofia, história, direito, geografia, economia, ciências políticas, sociologia, antropologia). Erro grasso se dedicar a uma tese sem estar possuído de lastro consistente mínimo.
 
4. Infelizmente, inúmeras vezes teses medíocres resultam de alicerces pouco consistentes, sem tesão como se diz nos setores acadêmicos.
 
5. Faça as seguintes perguntas antes de decidir fazer uma tese, respondendo “sim” ou “não”: Imagina seu futuro profissional inserido no ensino superior ou na pesquisa?; Poderá se dedicar com afinco, nos próximos três ou quatro anos,ao seu trabalho de tese?; É capaz de fazer um recorte de determinado assunto em um dado momento?; É capaz de, com mínimo esforço, escrever três páginas “coerentes” sobre um assunto dado?; É capaz de pôr ordem em suas ideias?; É capaz de organizar sua documentação e de se localizar?; Consegue adequar-se a uma disciplina de trabalho por vários meses?; Dispõe de vontade e tenacidade suficientes para ultrapassar uma sucessão de dificuldades e contrariedades?; Já redigiu alguma trabalho satisfatório com várias dezenas de páginas?; Está muito motivado para fazer uma tese? Se respondeu “sim” 8 ou 10 vezes, pode seguir adiante!
 
6. Tenha sempre à mão endereços internéticos importantes durante sua elaboração de tese. Eis alguns: Capes (www.capes.gov.br), Currículo Lattes (lattes.cnpq.br), www.periodicos.capes.gov.br, Biblioteca Nacional (catálogos.bn.br) , Scielo (www.scielo.org) , www.minerva.ufrj.br, www.teses.usp.br, www.lume.ufrgs.br.
 
7. Não é razoável se comprometer na efetivação de uma tese por razões negativas: falta de perspectiva de emprego, ociosidade, frustração.
 
8. Somente se envolver para valer numa tese de doutorado se  for possuidor de uma vontade férrea, além de possuidor de capacidade cognitiva.
 
9. Na escolha de um assunto, todo cuidado é pouco para não se resvalar para o imediatismo. Se um orientador o desaconselhar a escrever sobre determinado tema, aceite repensar o assunto.
 
10. Lembre-se sempre que a não conclusão de uma tese de pós-graduação pode ser um excelente sinal para que você abrace uma atividade profissional, a partir da qual poderá ingressar num processo de aperfeiçoamento, passo primeiro para galgar patamares superiores.
 
E siga sempre uma recomendação do ex-arcebispo metropolitano de Olinda e Recife Dom Hélder Câmara: “Não faça de uma lagartixa um jacaré, pois ficará sem ação diante de um jacaré de verdade”.
 
Abração bem nordestino, brasileiro acima de tudo.
PS. Para Anita Cantarelli, desejando-lhe um sucesso arretado de ótimo na sua dissertação de mestrado!!!         
 
(Divulgado em 29.08.2016, nos sites www.luizberto.com e www.fernandogoncalves.pro.br)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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