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TIPOS INESQUECÍVEIS
1. Para quem gosta ler textos que deixam você se urinando nas calças de tanto rir, nesta época pós impeachment, final de ano que não será tranquilo, apesar do sorriso monalisítico do nosso prefeito, recomendo aos de mente culturalmente desassombrada um livro que foi considerado por Bertolt Brecht como uma das três obras literárias do século XX: As aventuras do soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, RJ. Objetiva, 2014, traduzido do tcheco por Luís Carlos Cabral. Uma leitura que traz uma sedução irresistível, uma vontade de quero-mais quando se termina as quase setecentas páginas do folhudo.
 
O autor nasceu em Praga, Boêmia, hoje República Theca, à época parte do Império Austro-Húngaro, e viveu entre 1883 e 1923. De família humilde, abandonou os estudos aos 15 anos para trabalhar numa farmácia. Em 1902 concluiu os estudos de Comércio, sendo admitido num banco, onde foi logo demitido por um alcoolismo que foi a marca da sua vida. Casou-se, descasou-se, foi bígamo e fundou uma agremiação política denominada Partido do Progresso Moderado Dentro dos Limites da Lei. Alistou-se no Exército Austro-Húngaro em 1915, na Primeira Guerra Mundial, passando para o lado dos russos. Em 1920, de retorno a Praga, militou politicamente como nacionalista, iniciando a publicação de As aventuras do soldado Švejk, uma obra que previa seis volumes.
 
Segundo Luís Carlos Cabral, o tradutor, Jaroslav Hašek foi ainda comerciante de cães, passou uns períodos na prisão por suas atividades anarquistas, perambulou pelo país sem um centavo no bolso, tentou o suicídio pulando no rio Moldava, atuou como ator e produziu cerca de doze mil contos, artigos e reportagens, falecendo na miséria, por alcoolismo, seguindo os passos do pai, um mestre-escola que também morreu por vício similar. Seu livro, considerado sujo e vulgar para os moralistas da época, chamou a atenção de Max Brod, editor da obra de Franz Kafka, que o equiparou entusiasticamente a François Rabelais e Miguel de Cervantes.
 
Em 1938, com autor já falecido, As aventuras do soldado Švejk foi levado à fogueira pelos exércitos nazistas, juntamente com outros autores consagrados como Thomas Mann e Stefan Zweig, sendo reabilitado pelos soviéticos, que consideraram o texto popular e anti-imperialista. E o tradutor Luís Carlos Cabral declara  que os leitores se divirtam, sem deixar de pensar, vendo como as coisas mudaram no último século para que muitas coisas continuassem parecidas.
 
O autor proclama: “Gosto muito do soldado Švejk. E estou convencido de que, quando narrar as aventuras que viveu ao longo da Guerra Mundial, todos os leitores sentirão a mesma simpatia por este herói humilde e desconhecido”. Assino embaixo sem titubear. Uma leitura para mentes que buscam assimilar um sadio humor universal, pacifista por derradeiro.
 
2. Há releituras, e algumas polileituras, que agigantam em nossos interiores uma vontade de continuar mais brasileiro que nunca a cada amanhecer, apesar das impunes esculhambações civis, militares e eclesiásticas que maculam, desde os anos 1500 e danou-se, a imagem de um país que sempre teve perspectivas futuras, segundo Stefan Zweig.
 
Para ficar somente nos autores nordestinos não-pernambucanos, evitando bajulações estaduais tão em voga de uns tempos para cá, a favorecer dinastias nos campos e nas cidades das regiões interioranas, aproveitei o período olímpico para reler Viva o Povo Brasileiro (RJ, Objetiva, 2014, 672 p., edição especial de 30 anos), do baiano João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), nascido João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro na Ilha de Itaparica, num 23 de janeiro, de infância vivenciada em Aracaju, Sergipe, onde seu pai era chefe de policia.   
 
O livro do João Ubaldo é tido e havido como um dos mais importantes romances surgidos na literatura brasileira do século passado. Um trabalho que já nasceu monumentaloriundas de compras de votos, caciquismos e carros pipas, brabezas demagógicas e populismos desvairados, baixa cidadania e golpes contra a democracia e novos modos corruptos de agir e pensar.
 
Quando se perguntava ao João Ubaldo como teria surgido o Viva o povo brasileiro, ele respondia sem aquela afetação dos que se imaginam gigantes pela própria natureza, recheados de blá-blá-blás intelectualoides: “Eu queria escrever um livro grande”. E o calhamaço findo, devidamente pesado numa venda de Itaparica, perto da antiga casa do seu avô, atingiu a marca de seis quilos e seiscentas gramas, resultando em um “folhudo” de 673 páginas, que venceria os prêmios Jabuti e Golfinho de Ouro de Melhor Romance, sendo vertido para o inglês (EEUU) em 1989, para a Alemanha (1988), Espanha e França (1989) e Itália (1997).
 
Segundo Rodrigo Lacerda, um dos prefaciadores da edição especial de 30 anos de Viva o povo brasileiro, “são heróis e anti-heróis, que nascem tanto nas classes dominantes quanto no meio popular, e um ponto alto do romance é o encontro desses dois mundos, a história de amor entre Patrício Macário, um homem de posição convertido à causa do povo, e à rebelde Maria da Fé, líder da misteriosa Irmandade Brasileira.” Um romance de estilo “abarrocado”, segundo o próprio autor, com pitadas de humor deliciosas, para muxoxos dos bostíferos que imaginam o humor sintoma de desseriedade patológica.
 
Acabei de reler o romance do Ubaldo minutos antes da final da Paralimpíadas Rio 2016, emocionado pelas medalhas conquistadas pelo notável Daniel Dias, um atleta arretado de ótimo.
 
(Divulgado em 26.09.2016, nos sites www.luizberto.com e www.fernandogoncalves.pro.br)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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