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TEXTOS PARA UM BOM PENSAR
Se me solicitassem numa pós-graduação (Especialização, Mestrado ou Doutorado) sobre uma leitura estruturante, eu não titubearia em apontar um lançamento recente das editoras Contraponto e PUC-Rio: Textos Escolhidos Popper, organizado por David Miller, também autor de uma esclarecedora Introdução, onde ele explicita uma cristalina realidade histórica: “Há uma fraqueza tipicamente humana: o sentimento de que devemos nos envergonhar de nossos erros e lamentar havê-los cometido, já que eles nascem da nossa incompetência ou da falta de um discernimento maduro”. Ressaltando com propriedade: “Tais escrúpulos são descabidos e devem ser afastados, pois não conhecemos nenhuma maneira de evitar sistematicamente o erro nem, em particular, de evitá-lo quando exploramos o desconhecido. Por isso, a relutância em cometer erros geralmente degenera em uma desconfiança em relação às ideias novas, em uma antipatia a qualquer tipo de iniciativa ousada”.

Os trinta textos organizados pelo Miller, ele que foi, nos primeiros anos da década noventa passada, professor visitante no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, posteriormente trabalhando em outras universidades do mundo inteiro, estão classificados em teoria do conhecimento (8), filosofia da ciência (7), metafísica (7) e filosofia social (8), onde estão expostos os argumentos de Karl Popper (1902-1994) sobre como diferenciar ciência e pseudociência, bem como como melhor relacionar o papel da razão e da liberdade com as reformas sociais. Análises de Popper que ainda revisitam os pré-socráticos, Platão, Aristóteles, Newton, Francis Bacon, Immanuel Kant, Hume e Marx.

Num dos textos selecionados, Método Científico, Karl Popper ressalta as quatro maneiras de se testar uma teoria: pela comparação lógica das conclusões; pela investigação da forma lógica da teoria, verificando-se se ela é empírica ou não; na comparação com outras teorias, para detecção de similitudes ou avanços; ou no lançamento de aplicações extraídas das conclusões estabelecidas.

A leitura do livro Textos Escolhidos Popper, do David Miller, seguramente dotaria investigadores dos diferenciados naipes de um balizador para análise das coletas desprovidas de abordagens utópicas e românticas.  Na parte IV, Popper é bastante incisivo no campo da Economia. Diz ele: “Quero acrescentar que a intervenção no âmbito da economia, mesmo pelos métodos gradativos aqui defendidos, tende a aumentar o poder estatal. Por conseguinte, o intervencionismo é muito perigoso. Isto não constitui um argumento decisivo contra ele: o poder está fadado a se manter sempre como um mal perigoso, mas necessário. Entretanto, esse elemento deve constituir um aviso de que, se relaxarmos a vigilância e não fortalecermos nossas instituições democráticas enquanto conferimos mais poder ao Estado, por meio do ‘planejamento’ intervencionista, é possível que percamos nossa liberdade. Perdida a liberdade, tudo se perde, inclusive o planajamento. Afinal, por que se haveriam de executar planos para o bem-estar do povo, se o povo não tivesse nenhum poder para fazê-los cumprir? Só a liberdade é capaz de garantir a segurança”.

Estamos numa fase encruzilhadamente desafiadora. Tempo de alavancagem ou de perpetuação como nação subalterna. Transferimos para o Segundo Grau parte do ministrado nos anos primários. E para a pós-graduação o indispensável que deveria ser ensinado na graduação. Com as tais “transferências”, também foram deslocadas para o ensino superior umas tantas metodologias idealizadas para crianças e adolescentes, tornando “ginasializado” o ensino do terceiro grau, gerando uma enorme acriticidade,  desejada apenas pelos menos conscientes, futura sucata de um mundo cada vez mais evolucionário.    

Oportuna a leitura de Karl Popper. Que soube escrever para quem deseja adquirir  maior capacidade pensante.

Jornal do Commercio, 22.11.2010
Fernando Antônio Gonçalves

 

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