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TEMPOS DE ÓDIOS
1. Algumas perguntas pairam nos mais diversos meios comunitários da sociedade brasileira: ainda existem registros desconhecidos sobre o período da ditadura militar no Brasil (1964-85)? Por que os militares brasileiros insistem em ocultar seus arquivos, passados trinta anos do fim do regime ditatorial? Por que nenhum presidente civil pós-ditadura, de Sarney a Dilma, determinou às três armas a abertura dos seus arquivos secretos?
 
A Companhia Das Letras lançou, em setembro passado, um livro que revela que os integrantes do regime militar sempre souberam mais que revelaram, nunca deixando de possuir registros precisos sobre o destino de presos políticos tidos como “desaparecidos”, mortos na realidade pela repressão. De autoria do jornalista e escritor mineiro Lucas Figueiredo, três Prêmios Esso, dois Vladimir Herzog e um Jabuti, Lugar nenhum; militares e civis na ocultação dos documentos da ditadura, Coleção Arquivos da Repressão no Brasil, coordenada pela professora Heloísa M. Starling.
 
 
O livro-reportagem do Lucas Figueiredo é farto em informações inéditas, desenvolvido através de uma escrita ágil e precisa. Um livro pioneiro de valor histórico inestimável para a sociedade brasileira, que poderá contemplar os registros que retratam apenas “a face visível de uma questão mais grave e profundamente arraigada na história recente do Brasil: até quando o país vai aceitar o silêncio dos militares sobre os crimes da ditadura?”.
 
 
Para concretizar seu trabalho jornalístico, Figueiredo teve acesso a um conjunto de microfilmes do Cenimar – Centro de Informações da Marinha, o material sendo cuidadosamente analisado por peritos renomados da Biblioteca Nacional, também atestados por renomados historiadores, que testemunharam a importância do material coletado.
 
 
Segundo Heloísa M. Starling, também autora do texto Sobre os silêncios da ditadura militar, “entre os meses de novembro de 2012 e julho de 2013, uma pequena equipe que combinava jornalistas e historiadores foi montada pela Comissão Nacional da Verdade com a tarefa de desenvolver pesquisas numa área delicada de investigação: a estrutura de informação e repressão política construída pela ditadura militar brasileira, entre os anos de 1964 e 1988”. O objetivo da comissão era localizar acervos documentais produzido pelos seguintes serviços secretos militares: Centro de Informações da Marinha, Centros de Informações do Exército (CIE e CIEX) e Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica.
 
2. Impressionante: em pleno século XX, os regimes nazista e soviético assassinaram mais de 14 milhões de pessoas. E os 14 milhões foram mortos em um período de apenas 12 anos, de 1933 a 1945, quando Hitler e Stalin estavam no poder. E um dado estonteia: dos 14 milhões de assassinados, não havia um soldado sequer da ativa. A maioria era composta de mulheres, crianças e idosos, ninguém carregava armas, muitos sendo despojados dos seus bens, inclusive roupas.
 
A Segunda Guerra foi o conflito mais letal da história, onde Auschwitz tornou-se o campo de extermínio representativo do Holocausto, muito embora outros campos de morte não podem ser esquecidos: Treblinka, Chelmno, Sobibor e Belzec. Em todos esses campos, milhares de judeus, poloneses, soviéticos e bálticos foram jogados em covas e valas.
 
Para quem busca adquirir mais conhecimentos sobre os assassinatos cometidos por Hitler e Stalin, a partir de documentos e registros em diversas línguas e em testemunhos deixados pelas vítimas, um livro traz abordagem direta, carregado de emoção através das próprias vítimas: Terras de Sangue, de Timothy Snyder, RJ, Record, 2012. O autor, historiador da Universidade de Yale, compõe um relato detalhado e profundamente humano, tornando o livro uma leitura obrigatória para todos aqueles que devem entender a principal tragédia da história moderna. Terras banhadas de sangue foram a Polônia, Bielorrússia, Ucrânia, os Países Bálticos e as margens ocidentais da Rússia.
 
Além dos detalhados onze capítulos – Fome na União Soviética, Terror de Classe, Terror Nacional, A Europa Molotov-Ribbentrop, A Economia do Apocalipse, A Solução Final, Holocausto e Vingança, As Fábricas de Morte Nazistas, Resistência e Incineração, Limpezas Étnicas, Antissemitismo Stalinista -, Snyder apresenta dois apêndices: Humanidade, relatos descritivos que ampliam a ojeriza pelos totalitarismos ainda vigentes no mundo atual; e Números e Terminologia, onde se analisa algumas das situações dramáticas vivenciadas pelos dois povos, o alemão e o russo.
 
Está comprovado que os líderes alemães, cumprindo ordens de Hitler e Goring, adotaram um Plano de Fome, segundo o qual se estabeleceu a suspensão do abastecimento de comida das áreas conquistadas, com o objetivo de ampliar a alimentação das tropas e soldados alemães. Paralelamente, Stalin aprovou o plano de coletivização da agricultura, sacrificando cinco milhões de pessoas, expurgando, posteriormente, mais 750 mil cidadãos soviéticos.
 
Com o apoio de alguns criminosos – Goring, Himmler, e Heydrich – Hitler tinha quatro utopias: uma vitória relâmpago sobre a União Soviética, um Plano de Fome para ela, uma Solução Final e um Generalplan, que faria da parte ocidental da URSS uma colônia alemã.
 
Um texto que cidadaniza, reunindo os regimes nazista e soviética e a história judaica e europeia, ensejando ampliar ojerizas pelos totalitarismos, inclusive religiosos.
 
3. Com muita frequência assisto posturas políticas imbecilizantes, vindas de gente de classe acima da média, a maioria graduada e com razoável desempenho profissional. Muitos sendo esquerdeiros de embromação, que primam por uma me(r)diocrizante cultura geral, dotados que são de individualismos recheados de hipocrisias moralistas, alguns até travestidos de uma religiosidade que menospreza o conselho de amar a Deus com a mente e o coração (Mc 12,30). Imaginando sempre atualizados, quase todos eles são possuidores de um ínfimo conteúdo humanístico, de Brasil e de História Geral.
 
Para os inúmeros situados fora das características acima, sempre solidários com os amanhãs planetários, recomendo a leitura de livro extraordinário: A Espécie Humana, de Robert Antelme, RJ, Record, 2013. Um contundente testemunho sobre os sofrimentos e humilhações ministrados num campo de concentração nazista, proporcionando uma reflexão sobre como, no Holocausto, os indivíduos vitimados batalhavam para permanecer humanos. O autor (1917-1990), poeta e jornalista, tinha 26 anos quando, em 1943, ingressou numa unidade da Resistência Francesa em Paris, liderada por François Mitterrand, sendo preso pela Gestapo e deportado para a Alemanha, resgatado de Dachau quase no fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1939, casou-se com Marguerite Duras, com ela fundando, após a libertação francesa, a Éditions de La Cité Universelle, também tendo sido militante do Partido Comunista até 1956, quando se desfiliou.
 
A orelha do livro identifica os objetivos do autor: “transmitir, pela escrita, a experiência mais extrema, tão cruel que nega a humanidade de suas vítimas. Com uma linguagem que busca sempre a melhor maneira de representar o irrepresentável, oscilando entre o relato objetivo, meticuloso, explicando o funcionamento dos campos de concentração, onde os indivíduos eram friamente hierarquizados por sua nacionalidade e por força do seu trabalho”.
 
No livro, Robert Antelme retrata como sobreviveu, arruinado pela fome, pela doença e pelo frio, convivendo diariamente com a morte e a degradação. Seu relato é dedicado à sua irmã Marie-Louise, que foi deportada e morta na Alemanha. Segundo ele, em Gandersheim não havia câmara de gás nem crematório, “o horror era a escuridão, a absoluta falta de referências, a solidão, a opressão incessante, o lento aniquilamento”.
 
Livros que ampliam as ojerizas por sectarismos ideológicos e posturas desumanizantes, aquelas que aniquilam a dignidade de todo ser humano.
 
(Publicado em 16.05.2016, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com/sempreamatutar)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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