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SOBRE UMA COLEÇÃO DE DITOS
Em fins de 2009, outubro, partindo da indicação de um quase-irmão querido que tinha constituído um grupo de estudos denominado Ser & Boas Novas, adenominacional por derradeiro, adquiri o livro O Evangelho Gnóstico de Tomé, Hermínio C. Miranda, São Paulo, Lachâtre, 2007, 272 p., um dos documentos encontrados nos Manuscritos do Mar Morto, utilizados por uma comunidade essênia nas imediações do Mar Morto, numa localidade chamada Qumram.    
 
A leitura do livro acima foi antes seguida de uma outra, editada em 2006 pela editora Objetiva, 246 p., cujo título era Os Evangelhos Gnósticos, de Elaine Pagels, sobre quem Harold Bloom assim opinou: “Pagels é sempre fácil de ler, sempre profundamente bem informada, sempre sugerindo caminhos novos aos seus leitores. Como muitos deles, devo-lhe muito pela pesquisa dedicada e sólida, e pela clareza de exposição.”
 
Entretanto, o primeiro livro citado me despertou incrível atenção, principalmente por dois motivos. O primeiro vinha de uma informação contida na primeira orelha: “Ao contrário do que se poderia pensar, o movimento cristão não constitui um bloco monolítico de crenças e ritos administrados por uma única e incontestada instituição. Estima-se em uma centena as seitas dissidentes, suscitadas no decorrer dos três primeiros séculos da era cristã. Nenhuma das heresias desse período representou maior risco para a estabilidade da Igreja primitiva do que a dos agnósticos. Surgido no início do segundo século, o gnosticismo alcançou o mais alto ponto de sua trajetória durante as duas décadas finais desse mesmo século para extinguir-se na segunda metade do século seguinte. Propositalmente esquecidos, os textos gnósticos, dentre os quais este Evangelho de Tomé, só puderam ser conhecidos graças à descoberta casual, em 1945, de uma urna de barro contendo 52 livros de uma biblioteca gnóstica, nas imediações de Nag-Hammadi, no Alto Egito.”
 
Como o Evangelho de Tomé ficou escondido por cerca, de mil e seiscentos anos, sobrevivendo às perseguições e destruições promovidas pela Igreja às ideias discordantes, resolvi ler a análise feita pelo brasileiro Hermínio C. Miranda (1920-2013), tornado espírita em 1957, autor de mais de 40 livros, os direitos autorais de todos eles destinados a instituições de caridade. Na sua vasta produção literária, uma parte prende-se aos primórdios do cristianismo, tema que muito atiçou meus estudos na área da Doutrina Espírita.   
 
A partir da leitura do livro do Hermínio Miranda, um outro livro me foi sugerido tempos depois, quando já havia feito uma primeira leitura de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. E na contracapa, um desafio que me  deixou definitivamente comprometido com os amanhãs enxergantes que cada um de nós deveria erigir por dever de Filhos Amados da Criação. Reproduzo-o: “Este livro foi escrito para quem tem a coragem de mudar. Para mudarmos, temos que ter a intenção de mudar, e isto é decisão do livre-arbítrio. Quem toma esta decisão, busca a verdade, mesmo diante de paradigmas cristalizados há tempo na mente da Humanidade. Jesus de Nazaré, sob a ótica gnóstica do Evangelho de Tomé, é o foco dos estudos do autor, em comparação com os textos canônicos. ... Sabe-se, hoje, pelas descobertas arqueológicas e pesquisas científicas de ponta, por eminentes estudiosos, que sua mensagem foi distorcida, modificada, ampliada para se adequar à ortodoxia cristã.”
 
O segundo livro por mim lido cuidadosamente, rabiscado intensamente, foi O Evangelho de Tomé – O Elo Perdido, José Lázaro Boberg, Santa Luzia (MG), Editora Cristo Consolador, 2011, 288 p.  O autor é advogado, formado em Pedagogia, Mestre em Direito, Professor Emérito e ex-Diretor da Faculdade Estadual de Jacarezinho, Paraná, além de conferencista de nomeada por várias regiões do Brasil.
 
Como Jesus não deixou nada escrito, Boberg ressalta que a Bíblia que temos “não é uma obra natural que flui, normalmente, conforme os fatos se desenrolaram, mas uma forma literária e formal criada pela Igreja de Roma de acordo com as próprias conveniências e as do governo imperial. Vale a pena ser lida a obra  clássica de Ernest Renan de título Vida de Jesus, edição Martin Claret, 2000, São Paulo (SP)”.
 
No livro, Boberg ressalta as pesquisas valiosas de Bart D. Ehrman, considerado a maior autoridade em Bíblia do Mundo. Segundo Ehrman, nos primórdios do Cristianismo, pelo menos quatro grupos divergentes estiveram se confrontando: os ebionistas, que afirmavam que Jesus não era divino, mas um ser humano de carne e osso a quem Deus adotara como seu filho, provavelmente por ocasião do batismo; os marcionistas, que defendiam que Jesus não era de carne e osso, sendo completamente divino. Uma seita liderada pelo filósofo-mestre Marcião, seus seguidores sendo chamados de “docetistas”; os gnósticos, que desprezavam tudo o que é material, considerando a Terra como uma prisão, tendo o discípulo Tomé anotado os principais dizeres (logia) ditos por Jesus, devidamente analisados no livro; e os ortodoxos, que vieram a ser os dominantes, baseados na Igreja de Roma, de onde foram considerados verdadeiros apenas quatro evangelhos, denominados canônicos (Marcos, Mateus, Lucas e João).
 
A leitura dos dois livros sobre Tomé é por demais oportuna. A título de aperitivo, reproduzo aqui o logion (dizer) 102: “Disse Jesus: Ai dos fariseus! Eles se parecem com um cão deitado no cocho dos bois; não come nem deixa os bois comerem.” E para entendermos bem o Sermão do Monte, quando Nazareno recomenda-nos ser perfeitos como Deus o é (Mt 5,48)
 
Um 2018 muito porreta para todos os Filhos da Criação!!! E que as eleições de 2018 ampliem a enxergância do eleitor  brasileiro, proporcionando-nos a edificação de uma nação digna e soberana!
 
(Publicado em 25.12.2017 no site do Jornal da Besta Fubana (www.luizberto.com) e em nosso site www.fernandogoncalves.pro.br.)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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