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SOBRE MITOLOGIA
Outro dia, num sábado muito calorento, uma professora de Assis, SP, muito estimada por alunos e admiradores, inclusive namorado sincero, indagava, numa roda de parentes e amigos que saboreavam um sururu ao coco em Olinda, se alguém já tinha tomado conhecimento de um livro recentemente editado pela Editora Difel sobre mitologia. Um dos presentes, docente do mestrado em Antropologia da Universidade Federal da Pernambuco, logo identificou a publicação: Tudo que precisamos saber, mas nunca aprendemos, sobre mitologia, RJ, 2015, 730 p. E rasgou elogios sobre o autor, Kenneth C. Davis, um campeão de vendas do The New York Times, que ganhou do site Amazon.com a alcunha de “Rei do Saber”, por sua expertise em assuntos múltiplos.
 
Sempre curioso por novidades editoriais nas áreas das Ciências Humanas, adquiri um exemplar na Livraria Cultura, iniciando uma leitura fascinante, seduzido pelas trilhas oferecidas pelo autor, um talento em recontar nosso passado com humor refinado, inteligência aguçada e uma habilidade toda especial para explicar os grandes mitos mundiais, numa narrativa que entusiasma os mais versados e os nunca iniciados que nem eu. Tudo se explicitando, em páginas lúdicas, as histórias contadas nos nossos ontens.
 
O autor confessa que sua paixão pela mitologia se iniciou aos 11 anos de idade, quando sua professora, deixando de lado os cálculos matemáticos e as redações, lia em voz alta trechos da Odisseia. Que deslumbravam o garoto, deixando-o maravilhado, imaginando-se a bordo de um navio que singrava por oceanos míticos, na companhia de Ulisses, o herói da epopeia de Homero. Rapidamente, aquele garoto de 11 anos descobriu que o mundo dos deuses, heróis, monstros e lendas era bem mais interessante que a própria escola.
 
Mais tarde, Davis teve outra experiência notável. Comparecendo a um lotado cinema com seus dois filhos, para assistir O Senhor dos Anéis, antes da sessão imaginou-se num pesadelo, com crianças estridentes, tagarelando durante todo o filme. Para sua surpresa, iniciada a sessão, um silêncio absoluto aconteceu. E quando o filme de quase três horas de duração anunciou o The End, a plateia explodiu em um prolongado aplauso, deixando-o impressionado com a reverência da assistência, que tinha vivido um encontro espiritual coletivo, dada a proximidade com as aventuras acontecidas há mais de três mil anos. E ele recordou uma reflexão feita por Carl Sagan e Ann Druyan, no livro Sombras de antepassados esquecidos, reproduzida nas páginas iniciais do seu livro acima citado: “Ainda não nos deparamos com nossos ancestrais esquecidos, mas começamos a sentir sua presença no escuro. Reconhecemos suas sombras aqui e ali. Eles já foram tão reais quanto somos hoje. Não estaríamos aqui se não fossem eles. Nossa natureza e a deles possuem uma ligação indissolúvel, não obstante os dons que nos separam. A chave para sabermos quem somos nos aguarda nessas sombras”.
 
Numa Introdução por demais oportuna, Davies comprova como os mitos permanecem marcantes nas   vidas contemporâneas, ainda que sem qualquer percepção nossa. No seu famoso Ascensão e queda do III Reich, William L. Shirer escreveu: “Em geral, os mitos de um povo são a maior e mais verdadeira expressão de seu espírito e de sua cultura, e em nenhum outro lugar isso é tão verdadeiro como na Alemanha.” E Adolf Hitler, o genial criminoso nazista, sabia deliberadamente mesclar elementos cristãos e pagãos, parecendo interpretar o papel de um sumo sacerdote.
 
Explica Davis: “Uma das principais razões para o surgimento dos mitos foi que as pessoas não eram capazes de fornecer explicações científicas para o mundo que os cercava. ... Os gregos, por exemplo, como a maioria das civilizações ancestrais, tinham uma história para explicar a existência de cada coisa ruim que acontecia no mundo – das doenças e epidemia até a ideia do mal em si.” Os males do mundo se espalhando quando Pandora, a primeira mulher, abriu a jarra onde eles estavam capturados.
 
Uma curiosidade apenas, para ampliar o apetite de leitura de um livro fascinante: Lado A: “A Bíblia Sagrada do judaísmo e do cristianismo é um livro que contém a história da criação do mundo, uma lista de regras e rituais ordenados divinamente e a história da criação do povo hebreu, com uma lista de muitos reis, reais ou lendários, da Antiguidade de Israel. O mais importante, talvez, seja o fato de a Bíblia ser tida como a palavra de Deus”. Lado B: “O Popol Vuh, dos maias, é um livro que contém a história da criação do mundo, uma lista de regras e rituais ordenados divinamente e uma história da fundação do povo maia, que dá aos reis uma espécie de autorização divina e os associa a uma lista de governantes lendários. O mais importante, talvez, seja o fato de que o Popol Vuh era tido como a palavra dos deuses.” 
 
O estudioso Kenneth C. Davies, segundo ele próprio afirma, “pretende destacar, de forma acessível e divertida, os aspectos mais importantes desses mitos e culturas e apresentar a ‘primeira palavra’ sobre esses assuntos, e não ‘a última’”.  Com um objetivo primordial: “reaprender sobre assuntos que eram, na escola, maçantes, entediantes e chatos, sem contar que não eram bem ensinados e nos chegavam repletos de informações confusas”. E faz uma confissão: “um dos fatos mais tristes que constatei, quando visitei algumas escolas, foi que a curiosidade inata e insaciável que as crianças têm a respeito do mundo é totalmente massacrada pelo tédio da escola.”
 
Talvez, a conclusão é do livro, Shakespeare estivesse coberto de razão: “Há mais coisas no céu e na Terra, Horácio, do que sonha tua vã filosofia”.
 
(Publicado em 27.04.2015, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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