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SITUAÇÃO VEXATÓRIA

 Parabenizo efusivamente o jornalista João Valadares e o fotógrafo Chico Porto pela estupenda reportagem-bofetada Nossos Haitis, publicada, ontem, no Caderno Cidades do Jornal do Commercio, 31 de janeiro. Onde na mesma edição também se noticia que trigêmeos pernambucanos continuam carecendo de apoio, posto que até o momento presente seus pais ainda não tinham recebido a casinha prometida pelo prefeito municipal, provavelmente um político mais de fala que de ação concreta.

 Certa feita, em Paris, um famoso Bazar de Caridade, para onde iam doações das mais variadas, pelo fogo foi totalmente destruído. Foi quando o escritor Leon Bloy, um dos responsáveis pela conversão ao cristianismo do casal Jacques Maritain, escreveu artigo num dos principais diários da capital francesa. Que assim principiava: “Graças a Deus, o bazar pegou fogo .....”. Na visão de Bloy, o bazar servia apenas para demonstrações de hipócritas pieguices, de manifestação dos sepulcros caiados , ajuntamento de fofoqueiras e outros bichos.

 Lembrei-me de Bloy quando li e reli a reportagem do Jornal do Commercio, onde se relata um pedido de matar a fome feito numa barraca, em plena avenida Boa Viagem,  que arrecadava donativos para o Haiti. E o pedido de matar a fome foi negado, sob a alegação de que o arrecadado não era para os famintos daqui. Pura cretinice de quem nunca assimilou a advertência contida em Isaías 29: “Esse povo se aproxima de mim com a boca e me honra com os lábios, mas o seu coração está longe mim. A adoração que me prestam é feita só de regras ensinadas por homens”. Nem tampouco leu, por débil conteúdo ético, as denúncias de Jeremias sobre “a insensatez da impiedade e a loucura da insensatez” ... “Mesmo quando anda pelo caminho, o tolo age sem o mínimo bom senso e mostra a todos que não passa de tolo”.   

 A reportagem do Jornal do Commercio também noticia a humilhante situação através de fotografias de alto teor impactante, estampadas sem qualquer retoque. E sem que tenha acontecido terremoto algum por aqui, uma cidade que já foi tida e havida como a Veneza Brasileira, com seus atuais encantos de superfície, seus agredidos rios, suas pontes e sua bravura histórica, onde as denúncias de Josué de Castro, Frei Caneca, Francisco Julião, Joaquim Nabuco, Hélder Câmara, Gregório Bezerra e tantos outros jazem no fundo do baú do esquecimento, consequência inevitável dos ananicamentos causados por uma solidariedade de faz-de-conta, para estar simplesmente na onda midiática, sem buscar entender as razões estruturais das vicissitudes sofridas.

 Não adianta reviver presépios natalinos, quando se lê sobre o cotidiano que está levando a Dona Eleni Costa Souza, carregando um quarenta anos que aparenta bem mais de sessenta. O jornalista João Valadares o descreve com a precisão de um bisturi nas mãos de cirurgião competente: “Mora na areia. Não levanta porque a força sumiu. Arrasta-se quando precisa de alguma coisa. Difícil mesmo é perceber sua existência. Pode chover ou fazer sol. Ela está lá, embrulhada, no mesmo lugar. Descascada de tudo, carrega um filho na barriga. Não sabe se é menino ou menina. Nunca foi ao hospital. Acha que está grávida de nove meses e há oito dias não consegue comer. Não tem força para mastigar o que nem existe. Toma só água ou o caldo de osso de sempre, catado pelo marido nos restos de Brasília Teimosa”.

Às vésperas do retorno às minhas atividades profissionais, confesso que a reportagem-bofetada do jornalista João Valadares no Jornal do Commercio ampliou meu nível de identificação dos pangarés da capital. Para denunciar suas farolagens que apenas ampliam inquietações e desconfortos. Depois da reportagem Nossos Haitis, estou bem mais afiado na visualização dos panacas que se auto-intitulam com esse ou aquele título, apenas para engabelar pachecos, como se todos fossem remelosos lambaios dos seus conjunturais postos de mando.

Certa feita, o meu irmão querido João Silvino da Conceição proclamou com muita propriedade: “Desenvolver uma cultura da cidadania urge depressa. Para erradicar os mentalmente ananzados e os fanfas cretinos, os que apenas fingem ser, sem lastro cívico nem o mínimo senso crítico, megalossauros historicamente ultrapassados, somente aplaudidos em platéias de abobados”.
 

(ALGOMAIS, 01/02/2010, Recife - Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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