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SILVINO E A WIKILEAKS
De repente, não mais que de repente, o João Silvino da Conceição aparece lá em casa para uma das suas visitas sem qualquer anunciação. Todo lampeiro, cabelo pra lá de Alberto Roberto, foi logo mostrando seu passaporte recém carimbado na Suécia, para onde fora apanhar alguns dados na WikiLeaks, essa organização transnacional sem fins lucrativos que está desovando centenas de milhares de escabrosidades, desnudando muita gente, inclusive algumas personalidades brasileiras.

Perguntei ao Silvino se ele trazia algumas novidades quentes e ele me assegurou que tinha anotado algumas informações ainda não divulgadas pelo noticiário internacional, inclusive uma investigação conclusiva sobre o assassinato do Saulo, aquele empresário da novela global das oito. Uma conclusão sobre a qual me foi encarecido segredo de irmão, posto que ele, João Silvino, não desejava abalar uma amizade nutrida pelo Abreu, parceiro dele de muitos outros mistérios.

Dentre os acontecimentos significativos do mundo atual, o João Silvino se referiu à WikiLeaks como o website contemporâneo que seguramente modificará o formato atual das notícias. E enumerou alguns fatos e feitos ainda não revelados pela organização que muito interessam ao nosso contexto pátrio:

1. Que em matéria de Educação Brasileira, segundo as estatísticas apuradas, as coisas se ampliaram para menos, posto que “a educação básica, a educação superior e a educação profissional definem-se no embate hegemônico e contra-hegemônico que se dá em todas as esferas da sociedade e, por isso, não podem ser tomadas como fatores isolados, mas como partes de uma totalidade histórica complexa e contraditória”. E que os estudos desenvolvidos pelo educador Gaudêncio Frigotto se revestem de uma densidade analítica respeitada internacionalmente.
2. Que se expande a consciência sobre o que explicita o artigo XVIII da Declaração dos Direitos Humanos, estabelecida em 1948 pela ONU: “Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular”. Lamentavelmente, as três religiões monoteístas – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo – “parecem revestir-se de uma especial agressividade e de uma forma de pensar que segue um padrão do gênero amigo/inimigo”.
3. Uma cidadania mais determinada na quase totalidade dos países em desenvolvimento, está sendo impulsionada por fatores de longo e curto prazos. A longo prazo, a expansão da educação efetivada com objetiva seriedade, a democracia de ficha limpa e noções amplamente divulgadas dos direitos da pessoa humana promoverá um cada vez mais acentuado vigor na cidadania individual e comunitária. Entretanto, “é importante lembrar que alguns grupos de cidadãos reforçam a discriminação, o medo e a desconfiança; chamados de ‘sociedade incivilizada’ por alguns, suas atividades podem às vezes gerar violência, como no caso dos pogroms religiosos ou racistas ou das organizações paramilitares”.
4. Alguns telegramas secretos não divulgados em 28 de novembro de 2010, quando milhares deles foram espalhados pela Internet: a. O presidente Lula já tirou o seu cavalo da chuva, imaginando que poderia efetivar sobre a Dilma aquelas manobras que alguns prefeitos tentaram fazer com os seus sucessores; b. Sem menor sombra de dúvidas, o Marcos Vinicios Vilaça é o melhor candidato à presidência da Academia Brasileira de Letras, por ser possuidor de imensa capacidade de fazer admiradores, além de excelente dinamismo empreendedor; c. A corrupção é o virus mais predador da sociedade brasileira. Não é assunto novo. Tudo por aqui termina em pizza, esta transformada num  representativo símbolo da impunidade. Houve até presidente que declarou que no Congresso Nacional havia 300 picaretas. Um quantitativo já bastante ampliado nos últimos tempos; d. Parcela significativa do antissemitismo mundial foi gerada pela hipocrisia cristã ao denunciar os judeus como os assassinos de Cristo; e. Razão plena tem o pernambucano Cristovam Buarque: “O maior dos assaltos invisíveis foi à mente. A mente do brasileiro foi assaltada por uma lógica que não permite ver todos os assaltos, mostra uma realidade aparente, que engana os observadores e participantes do processo social. ... Sequestraram a alma do Brasil”; f. Confissão do filósofo alemão Peter Sloterdikj ao pensador brasileiro Luiz Felipe Pondé: “numa época em que a covardia impera como lei da alma, em busca frenética de felicidade, o pensamento tende a se refugiar na forma de migalhas que têm a mesma missão da guerrilha, combater em flashes e se esconder”; g. O livro Da Pobreza ao Poder – Como Cidadãos Ativos e Estados Efetivos Podem Mudar o Mundo, de Duncan Green, edição conjunta Oxfam International e Cortez Editora, vai gerar muitos debates. Ele realça esclarecimentos contundentes entre as interrelações existentes entre as crises econômicas e os valores morais e humanos, ratificando o que George Bernard Shaw afirmou há mais de um século, em sua peça Major Barbara: “a pobreza é o maior dos males e o pior dos crimes”. Sentimento repetido por Nesainda, em 2005: “A pobreza maciça e a desigualdade obscena são flagelos tão terríveis dos nossos tempos – nos quais o mundo se gaba de avanços sem precedentes nos campos da ciência, da tecnologia, da indústria e da acumulação de riquezas – que elas devem ser vistas como males sociais tão graves quanto a escravidão e o apartheid”. No livro, a expressão working poors é definida como pessoas que, mesmo empregadas e trabalhando mais de oito horas diárias, não conseguem manter a família num padrão de dignidade e decência.    

Para finalizar, Silvino e eu deixamos um questionamento para uma próxima discussão fraterna: “Que futuro está reservado à sociedade brasileira, sem uma drástica redução das desigualdades sociais e quando uma elite injusta e opressora a cada dia que passa se encontra menos comprometida com os avanços sociais e políticos e cada vez mais envolvida num autofágico projeto narcísico?”. 

Fernando Antônio Gonçalves é professor universitário e pesquisador social
(Publicada em 16.12.2010, no Portal da Globo Nordeste, blog BATE & REBATE)

 

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