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SILÊNCIO QUE ABALA A CREDIBILIDADE

SILÊNCIO QUE ABALA A CREDIBILIDADE
                                                                                       Juan Arias
 
A Igreja Católica sofre uma das maiores crises morais e de credibilidade da história moderna. Ainda assim, a responsabilidade por essa situação não recai sobre os milhões de fiéis espalhados por todo o mundo, que sofrem na própria carne o impacto da atitude de hipocrisia revelada pelas autoridades do Vaticano. O peso da responsabilidade sobre a omertà - o acobertamento de milhares de delitos cometidos por sacerdotes e bispos em todo o mundo contra meninos e adolescentes - recai fundamentalmente sobre a figura do papa atual, Bento XVI, o teólogo alemão Joseph Ratzinger. Antes de chegar ao papado, ele foi responsável, como prefeito da Congregação da Fé, pelo acobertamento dos crimes de pedofilia.
Essa responsabilidade, no entanto, não recai somente sobre ele, mas também sobre alguns de seus antecessores e sobre toda a instituição do poder central da Igreja. Basta recordar que existe na Igreja - só agora sabemos disso - um sigilo papal que impede sacerdotes e bispos de denunciar às autoridades civis os casos de pedofilia. Assim, estava garantida a impunidade penal dos religiosos pedófilos. Mais ainda: aqueles que tomem conhecimento de casos de pedofilia dentro da Igreja estão impedidos de denunciá-los.
Um documento pontifical determina que aqueles que ficarem sabendo do sigilo papal devem prestar um juramento que segue a seguinte fórmula: "Eu, tocando com as próprias mãos os sacrossantos evangelhos de Deus, prometo guardar fielmente o sigilo papal, de maneira que sob nenhuma forma, nenhum pretexto, seja por um bem maior, seja por motivo urgentíssimo e gravíssimo, me seja lícito violar o sigilo já mencionado. Que Deus me ajude e me ajudem estes santos evangelhos que toco com as próprias mãos".
O filósofo italiano Flores D’Arcais, editor da revista Micromega, qualifica esse juramento como fórmula solene e terrível que nos exime de qualquer comentário.
Para defender-se da terrível onda de acusações de crimes contra os inocentes cometidos pelo clero católico, o Vaticano tem sido muito torpe. Primeiro, afirmou que o crime de pedofilia não é exclusividade dos religiosos. É verdade. Também há pedófilos entre os casados. A Igreja, ainda assim, esquece que a instituição do celibato obrigatório - que não tem nenhum fundamento bíblico, já que os apóstolos eram casados, e certamente o próprio Jesus era casado, assim como todos os primeiros bispos do cristianismo e os primeiros papas - é um dos multiplicadores dos desvios sexuais do clero. O que o papa ainda espera para eliminá-la?
O Vaticano quis se defender afirmando que há relação entre homossexualismo e pedofilia, uma autêntica aberração que ofende todo um segmento da população e não tem o menor fundamento científico.
Quis distinguir no crime de pedofilia a diferença entre pecado - que a Igreja perdoa com a penitência de um Pai Nosso rezado - e crime perante a Justiça. Para a Igreja, o caso seria apenas pecado. Por que então a Igreja considera o aborto e a eutanásia crimes que devem ser punidos pelas autoridades civis, por exemplo?
No terrível juramento do sigilo papal, aquele que o recita é lembrado de que o faz com as mãos sobre os evangelhos de Jesus. É curioso que a Igreja, que diz inspirar-se nas chamadas sagradas escrituras, se esqueça do único momento em que o pacífico Profeta de Nazaré, que pede a seus apóstolos que embainhem a espada e se deixem matar sem se defender, expressa sua ira: é para pedir a pena de morte para quem fizer mal a um menino. E há mal maior que violentar sexualmente um menor? El Roto, ilustrador do jornal El País, publicou um desenho chocante: entregamos nossos filhos à Igreja para que cuide de suas almas sem saber que ela quer na verdade apoderar-se de seus corpos.
O texto no qual Jesus pede a pena de morte para quem violentar um menor está nos três evangelhos chamados sinóticos (Mateus, 18:5; Marcos, 9:42; e Lucas, 9:46). No evangelho de Mateus, depois de identificar a si mesmo com os meninos inocentes, Jesus pronuncia a terrível sentença de morte: "Quem quer que faça mal a um desses pequeninos merece que lhe pendurem no pescoço uma pedra de moinho e o afundem nas profundezas do mar".
Por que não distribuir em todo o mundo católico cartazes com essas tremendas palavras de condenação de Jesus contra os pedófilos? Por que os padres e bispos não as leem nas igrejas?
A Igreja quer continuar minimizando os abusos contra menores cometidos por seu clero. De nada adiantará. Queiram ou não, essa pedra de moinho atada ao pescoço de cada pedófilo da Igreja será a condenação implacável da sociedade pelo grande escândalo de terem abusado de menores dos quais eles próprios deveriam ser os melhores guardiães e defensores.
A última defesa indefensável do Vaticano contra os abusos que estão vindo à tona é afirmar que o mais importante é manter a própria instituição em segurança. Trata-se do princípio de lavar a roupa suja em casa. Nada mais distante da doutrina de Jesus. Os responsáveis pela igreja judaica de seu tempo, que se arrogavam o direito de decidir sobre a consciência do povo, são descritos por ele, no evangelho de Mateus, como "sepulcros caiados que por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão". Jesus, com palavras que não poderiam ser mais atuais, lhes diz: "Por fora, pareceis justos diante dos outros, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e podridão". Jesus insiste: "Limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de cobiça e maldade". E sentencia: "Como escapareis da condenação do inferno?"
Esse castigo está aí, visível, ameaçador, atual. Significa, entre outras coisas, o abandono da Igreja por parte daqueles que, se as hierarquias não tomarem medidas críveis, poderão confiar cada vez menos em sua inocência.
Fonte: Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, 18-04-2010 IN: Notícias UNISINOS,
 

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