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SEMPRE MÃE
Na revista Piauí 91, de abril último, a reportagem A Verdade da Comissão, da jornalista Júlia Dualibi, onde “vaidades, resistência militar e vastidão dos arquivos dificultam investigação de crimes da ditadura”, tem o seu trecho final emocionante, que amplia pernambucanidade e faz exemplar justiça às mulheres de Pernambuco, as de agora e as dos ontens que sempre nos orgulharam.
 
A jornalista Dualibi ressalta a luta incessante de Dona Elzita Santa Cruz Oliveira na busca do corpo do seu filho Fernando desde 1974, desaparecido aos 26 anos, quando, em Copacabana, depois de sair com um amigo, avisou que, se não voltasse, é porque teria sido preso. Os dois amigos nunca mais foram vistos.
 
Na sua caminhada de heroína, Dona Elzita, que comemorou 100 anos recentemente e que viveu anos na mesma casa, em Olinda, Pernambuco, conservando o mesmo telefone, na expectativa de um alô do filho amado, não titubeou em enfrentar múltiplos cretinos, a começar dos funcionários do famigerado major Ustra, que receberam de suas mãos roupas e pertences para Fernando, depois se acovardando, afirmando ter sido um lamentável engano, posto que ele não havia sequer passado pelo já repugnante DOI-CODI.
 
Dona Elzita procurou seu filho Fernando em São Paulo, no Rio e na Argentina, recebendo inclusive, da parte de um general fascista a informação de que seu filho teria se evadido para o exterior. E de um outro militar, que pouco honrava a farda, que o filho se encontrava num manicômio. Na perda da esperança de encontrar o filho com vida, Dona Elzita principiou a procurar o seu corpo, recebendo até informações de que ele havia sido esquartejado e jogado em alto mar.
 
Para se ter noção da bravura desta mãe pernambucana, basta contar um fato. Em 2012, o ex-delegado Cláudio Guerra, do Dops, em depoimento em livro, revelou que Fernando se encontrava entre os dez militantes, mortos sob tortura, que foram incinerados nos fornos da usina de açúcar Cambahyba, no Rio de Janeiro, de propriedade do empresário Heli Ribeiro Gomes, ex-vice governador de São Paulo.
 
Relutando em contar para Dona Elzita, dada sua idade avançada, resolveram cientificá-la com a presença de médica especialista. Num jantar, os parentes contaram a história. E a reação foi de mulher bravia: “Isso já está provado? Se não, vamos jantar. Já passamos por muitas dessas”.
 
Dona Elzita costuma recitar uma poesia que, diz ela, aprendeu quando criança. Familiares confirmam ser de sua autoria: “Passam-se os anos, e o véu do esquecimento / Baixando sobre as coisas, tudo se apaga / Menos da mãe, no triste isolamento, a saudade que o coração lhe esmaga.”
 
A sua bênção lhe peço, Dona Elzita, pela bravura de ser mãe pernambucana!!
 
 (Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 16.05.2014
 

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