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REAVALIANDO UM MULHERENGO
Confesso que o meu último 7 de setembro foi diferente de todos os anteriormente vivenciados. O feriado nacional, desfiles militares e outras comemorações e vivas tornaram-se imensamente mais significativos para mim, sem qualquer patriotada, pela leitura de O Coração do Rei, da pesquisadora  Iza Salles, formada em jornalismo pela então Universidade do Brasil, 1965, encarcerada pela ditadura em 1970, certamente por ser dotada de inteligência acima dos inquisidores de então. Um livro editado pela editora Planeta, 2008, narrando de maneira fascinante a trajetória existencial de Dom Pedro I, Proclamador da nossa Independência, em 1822, para muitos brasileiros até hoje conhecido como um mulherengo contumaz, reprodutor dos mais notáveis, sempre à procura de “fêmea de boas carnes e costumes fáceis”, além de apaixonado pela liberdade e pelos cavalos. Uma narrativa que bem embasa 1822, do escritor Laurentino Gomes, lançado em agosto passado pela editora Nova Fronteira e que traz como subtítulo aparentemente desconcertante “como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram Dom Pedro a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado”.

Atraído por uma citação feita pelo próprio Laurentino Gomes em seu livro – “Tenho particular dívida de gratidão com a jornalista Iza Salles. Autora de O coração do rei, excelente biografia romanceada de D. Pedro I, Iza forneceu-me parte importante da bibliografia sobre o período, incluindo as obras de Octávio Tarquínio de Sousa, Alberto Pimentel, Hélio Viana, Luís Henrique Dias Tavares, Hugh Owen e Carl Seidler” –, a leitura do texto da jornalista me convenceu da imensa ignorância histórica que lastreia nosso ensino em seus diferenciados níveis, impossibilitando a ampliação das admirações pelos vultos brasileiros de todos os naipes.

Seria por demais oportuno que as muito minguadas bibliotecas escolares do Brasil fossem contempladas com exemplares do texto da Iza Salles, sedutoramente bem elaborado, desabestalhador por excelência, sem exaltações babaovísticas e condenações histéricas e pueris. Com uma consistente pesquisa documental sendo o vetor maior utilizado por ela no desenrolar dos ontens nacionais. Sem sisudezas desnecessárias, tampouco eruditismos cavilosos, a exemplo de notáveis brasileiros que souberam e sabem esplendidamente narrar, interpretar e anunciar fatos e feitos dos nossos pretéritos.

O livro da jornalista Iza Salles retrata os bastidores da corte “narrados” por um religioso, o Frei Antônio de Arrábida, que sempre esteve nos calcanhares de Pedro I, desde 12 de outubro de 1798, dia do seu nascimento, até 24 de setembro de 1834, quando eternizou-se no palácio de Queluz, vítima de tuberculose, no mesmo quarto do seu nascimento, com apenas 35 anos de idade. E que foi portador do seu coração, transportado numa bacia de prata até a cidade do Porto, cumprindo-se decisão testamentária do príncipe, em agradecimento à cidade que o ajudara a vencer o irmão que lhe usurpara o trono, nele efetivando sua filha Maria da Glória, coroada D. Maria II.

Fruto de uma mãe destemperada – “chamava atenção para sua pele áspera, os olhos inexpressivos, o nariz inchado e vermelho, a boca travada pelo desdém, os dentes ruins, o corpo magro de braços finos e cabeludos exibidos sem pudor” – e de um pai desleixado no vestir e nada asseado, Pedro I não possuía a fraqueza do pai e o caráter desleal da mãe. Muito pelo contrário, ele nutria um imenso amor pelo Brasil, além de uma coragem recheada de um “modo extrovertido e conversador de lidar com a gente, com seu modo de cultivar as coisas boas da vida, de cantarolar ou assobiar suas músicas preferidas, de imitar o canto dos pássaros brasileiros”, mesmo nos instantes de maior angústia. 

Afirma Iza Salles que “D. Pedro tinha nascido guerreiro, possuía as grandes qualidades de um bravo soldado sem ser fanfarrão, de grande sangue-frio, muita atividade e disposto a todos os trabalhos e privações”.

No mundo brasileiro de hoje, Dom Pedro se sentiria desconfortável, posto que era “muito verdadeiro e franco, não gosta de mentirosos, ladrões e fracos. É corajoso, disto ninguém duvida”.  E o testemunho de Abreu e Lima, o general brasileiro das lutas com Simon Bolívar, é peremptório: “O imperador se conduz como um herói e é adorado por todo mundo”. 

Acredito que a Nação Brasileira deve muito ao destemor de Pedro I. Seu amor pelo nosso país e pelos brasileiros e sua capacidade de articular a libertação do Brasil e de Portugal podem ser espelhados no seu pedido para o seu sepultamento: “que não houvesse separação de classes nas homenagens que lhe seriam prestadas, que pobres e ricos seguissem seu féretro lado a lado”.

Um imperador-barrão, sem qualquer dúvida. Mas uma personalidade que muito deveria ser seguida nos tempos de hoje, no que tange ao respeito para com as finanças públicas.

PS. Aplausos para Laurentino Gomes (1808 e 1822) ao dizer que o mercado editorial brasileiro está muito amador. Diz ele que “é preciso fazer livros com linguagem mais acessível!” Eu digo que há autores que devem ter sido gerados em pé numa rede, tamanho o “complication” dos seus escritos.

(Publicada em 23.09.2010, no Portal da Globo Nordeste, blog BATE & REBATE)
 

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