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PRIVATARIA
 Fazia um bocado de tempo que não se via uma manchete tão feliz  quanto a que foi estampada pela revista Época, numa das suas últimas edições. Sob título Privataria, um neologismo que cai muito bem numa conjuntura de adoidada bandidagem na área pública nacional, o semanário revela fatos de envergonhar Ali Babá e seus quarenta comparsas, todos eles uns pebas diante dos salafrários travestidos de salvadores da pátria.
 Aliás, um outro neologismo está difundido na Capital Federal:  propinoduto. Trata-se de uma tubulação bem implantada sob as alcatifas laboratoriais dos manda-chuvas da patifaria, funcionando através de impulsos nunca cívicos, tampouco patrióticos, tal e qual as funções desempenhadas pelos vasos comunicantes. Os propinodutos  beneficiam os da panelinha, a pobreza que continue se lixando, sempre embromada pelos espetáculos pão-e-circo, hoje ressuscitados sob o nome pomposo de reality-show.
 Alguns perguntam: por que grandão não vai parar atrás das grades, sem direito a regalia de espécie alguma? Uma indagação que deveria ser melhor refletida através de outra interrogativa: o que está acontecendo, hoje, não é a mesma coisa do que acontecia no passado, apenas com uma diferença gritante, a de estar sendo tudo estampado através de uma imprensa responsavelmente cidadã? Se assim não fosse, como seria descoberto o jantar acontecido entre o presidente FHC e o banqueiro Daniel Dantas, proprietário do Banco Opportunity, onde foi selado um acordo de não-agressão mútua, significando abafamentos e varridas para debaixo dos tapetes de lixos ainda não tornados públicos? Ou será que o jantar foi para analisar melhor a fala do presidente da Petrobrás, Francisco Gross, que disse a uma revista da Baker Oil Tools que “a Petrobrás está continuando sua metamorfose de uma estatal para uma companhia completamente privatizada e internacionalmente competitiva”, como se aquele patrimônio público não fosse resultado do esforço de milhões de brasileiros, alguns deles de comportamento muito bravo diante das intimidações colonizadoras? Ou será que o encontro reservado, acontecido noite alta, foi para analisar a perda de duas posições da economia brasileira, agora em 11º lugar, ultrapassada, a partir de 1998, por Canadá. México e Espanha? Ou será que o mote para o jantar foram as declarações do ex-ministro Delfim Neto, que disse na Carta Capital, sem pestanejar, que “não há como esconder que o Brasil quebrou em 1998. Sem o auxílio do FMI, talvez não teria havido a reeleição”? Ou será que o jantar teria como objetivo maior uma estratégia de reconciliação entre o Serra e o Flávio Bierrenbach, hoje engalfinhados “numa trama que envolve honra e denúncias de corrupção”?
 Ainda bem que o eleitorado escolherá, em outubro, um presidente da República, novos Governadores, uma Câmara de Deputados, um pedaço novo do Senado Federal e as Assembléias. As urnas eletrônicas minimizarão as safadezas, os santinhos e as camisetas valerão menos, remédios e abraços não mais produzirão anestésicos efeitos. O eleitor deverá separar o joio do trigo, percebendo que existe gente boa e candidato bundão em todas as agremiações partidárias. E que a reconquista da nossa soberania, sem perda da nossa inserção na dinâmica mercadológica do mundo século XXI, é imprescindível, sob pena de se ver um Brasil cada vez mais pobre, de renda mais concentrada e desemprego atingindo níveis insuportáveis.
 O eleitor brasileiro sabe que somente através do fortalecimento da Democracia alcançaremos patamares de Primeiro Mundo, onde o social não será mais visto como uma distribuição caritativa de vale-isso ou vale-aquilo, desprezado o voto-dignidade, um voto arretado de sério nos candidatos descomprometidos com Ali Babá, os babões e os demais larápios, todos eles ansiosos por um desbrasileiramento generalizado.  
 

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