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PREOCUPAÇÕES FRANCISCANAS
Um texto do frei Betto, cristão de credibilidade social, me deixou antenado. Segundo ele, a degradação ambiental está ameaçando o rio São Francisco, que fez 510 anos com comemoraçõe pífias, ele que ostenta o galardão de “a maior via fluvial de integração nacional” e que gera energia elétrica, favorece a irrigação agrícola e detém um grande potencial de riquezas. Mas que, nos últimos 56 anos, perdeu 35% da sua vazão, os maiores prejudicados sendo as populações mais carentes.

O frei Betto denuncia com toda sua autoridade de cidadão comprometido com os desfavorecidos: “quatro anos depois de iniciado projeto de transposição do São Francisco para o Nordeste Setentrional, se constata que o custo da obra será mais caro que o previsto: de R$ 5 bilhões iniciais já foi reajustado para R$ 6,8 bilhões”. E disse que a transposição não está aumentando o volume de água para os pequenos agricultores. E que grandes porções da caatinga foram desmatadas, criando empregos precários, comércio destrambelhado casas abandonadas, gente desempregada, adolescentes grávidas, angústias e aflições.

O frei não alisa no seu texto, clamando por uma conscientização maior da sociedade civil nordestina: “tudo indica que a água da transposição se destinará ao agro-negócio e polos industriais do Pecém (CE) e Suape (PE)”. Segundo seus apontamentos, já foram gastos R$ 3,5 bilhões, que poderiam construir 2.187.500 cisternas de captação de água da chuva, beneficiando mais de 10 milhões de pessoas. E ainda explicita que a ANA – Agência Nacional de Águas revela que com o dinheiro já gasto se custearia mais de um terço das adutoras previstas para evitar o colapso hídrico do Nordeste até 2025. E foi mais além: a transposição não será suficiente para matar a sede de 12 milhões de pessoas.

Por que se cala a sociedade civil nordestina? E por que se aquietam as lideranças religiosas regionais, quando, segundo dados da ANA, com apenas pouco menos de R$ 10 bilhões haveria abastecimento urbano para 39 milhões de pessoas, beneficiando 1794 cidades dos nove estados  da região? Por que as lideranças políticas mais responsáveis, também não-fisiológicas nem eleitoreiras, não divulgam o site da Articulação Popular São Fancisco Vivo – www.saofranciscovivo.com.br? 

Após o refluxo dos movimentos sociais, 2008-2009, quando o Governo Federal incisivamente cooptou a favor das forças hegemônicas do capital, tenta-se retomar as discussões sobre a questão da revitalização do São Francisco, uma assunto que merece debates exaustivos e omissão  zero.    

Com a leitura do texto do frei Betto, fiquei com indagação atrás da orelha: Por que a Comissão de Cidadania e Direits Humanos da Assembleia Legislativa de Pernambuco, tão política e corretamente presidida pelo deputado Betinho Gomes, não promove uma Audiência Pública, com a finalidade de debater distribuição de terras, programas de irrigação no Nordeste e os atentados à vida na bacia sanfranciscana? Acatando as denúncias e ameaças, assassinatos e perseguições que se encontram distanciadas dos meios de comunicação nacionais?

É chegada a hora de relembrar a proposta feita, um dia, por Celso Furtado sobre uma indispensável reforma agrária para o Nordeste Brasileiro.

(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 25.01.2012) 
Fernando Antônio Gonçalves
 

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