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POR UMA MENTALIDADE ENXERGANTE
Tenho observado pessoas com as mais bizarras percepções de mundo. Inclusive na Universidade, onde um emocional mais para infanto-juvenil que para adolescência se espraia nos períodos primeiros da graduação da maioria dos cursos. Seguramente sequela dos medos e apreensões  vivenciados pelos pais e demais parentes durante o período ditatorial. Onde qualquer  análise crítica acarretava consequências não muito agradáveis para os “pensantes” que teimavam em ampliar a “enxergância” dos que não tinham qualquer nível de aprendizagem de Filosofia e de Sociologia, mais acostumados com o “repetir” do que com o “refletir”. Como se a vida ostentasse  apenas um só lado econômico-financeiro, a acumulação de uma minoria cada vez mais privilegiada sendo fato pra lá de natural. 
 Em seu livro Para Pensar e Guardar, o escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962) parecia definir alguns dos alunos encontrados pós-ditadura brasileira: “Existe um tipo de alunos bem-dotados que, apesar de suas aptidões, em todos os tempos são sempre incômodos aos professores e constituem  para eles verdadeiro peso, porque neles o talento não é uma grandeza orgânica vindo de dentro, a marca nobre de uma natureza privilegiada, de um temperamento e de um caráter excepcionais, mas algo artificial, postiço, usurpado ou roubado”. E Hesse ainda comenta: “Quem é pequeno vê no maior apenas o que um pequeno é capaz de perceber.”
             A lição do notável Fernando Pessoa também não pode ser relegada: “O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele, um morto para eles. A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar. A atitude cauta, a irônica, a deslocada – todas elas privam o intérprete da primeira condição para poder interpretar. A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja. A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado. A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter tido, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes. A quinta é menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma dessas coisas, que são a mesma da maneira como as entendam aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.” 
 Recomendaria com entusiasmo redobrado um ensaio que seguramente poderia reformatar mentes submissas às apreensões acumuladas em décadas passadas: A Cabeça Bem-Feita, de Edgar Morin, Bertrand Brasil, 2008, já em 15ª. edição. Um texto que clama por um  Emílio (Jacques Rousseau) para o século XXI, capaz de influenciar uma Educação Básica que fomente uma estratégia integradora entre os saberes diversos. E que favoreça a preponderância do espírito sobre o apenas material, posto que a vida não se constitui apenas de trabalho. Morin chama a atenção para as inadequações cada vez mais amplas entre os saberes, que angustia os que percebem que a realidade requer análises e soluções “polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais e planetárias”.
Uma pequena história é significativa para os profissionais século 21:   
“Uma vez um mestre fez uma experiência com seus alunos. Pegou um vaso e encheu-o com pedras grandes. Depois, ergueu o vaso e perguntou aos alunos: o vaso está cheio? A turma se dividiu, com alguns dizendo que sim e outros que não. O mestre então, pegou algumas pedras pequenas e colocou-as no vaso. As pedras pequenas se encaixaram entre as grandes, e o mestre ergueu o vaso, novamente, perguntando: o vaso está cheio? Desta vez a maioria da turma respondeu que sim. O mestre, então, pegou um saco de areia e despejou dentro do vaso. Depois, repetiu a pergunta. A grande maioria respondeu que sim. O mestre, então, pegou uma jarra de água, derramou no vaso, e perguntou: o vaso está cheio? A turma finalmente chegou a um consenso. Todos responderam que sim. Então o mestre falou: Este vaso é como a nossa vida. Se eu tivesse colocado as pedras pequenas, a areia ou a água em primeiro lugar, não haveria espaço para as pedras grandes. As pedras grandes na nossa vida são: família, amigos, carreira, trabalho, lazer e saúde. É fundamental que não descuidemos delas. Não podemos perder muito tempo com coisas sem importância (as pedras pequenas), pois corremos o risco de não haver espaço para as coisas que realmente são importantes (as pedras grandes).”
 No seu livro, Edgar Morin alerta para a construção, em pleno século XXI, de uma nova Torre de Babel. Que deverá, agora, pugnar por soluções criativas para três grandes desafios: o cultural, o social e o ecológico. Onde o desenvolvimento educacional de desenvolva sob o princípio da dúvida, aquela que fortalece a criatividade e a fé nos destinos futuros do planeta.
 

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