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PESSOA, MORIN E OS AMANHÃS
 Diante do marketing político do Governo Federal, adquirindo passagem no foguete espacial russo, muito temi pelo fracasso dos experimentos pré-primeiro-grau com as sementes de feijão. Apenas com direito a assento, o Marcos Pontes, um militar de sorriso e explicações ainda quase infanto-juvenis e que será em breve garoto-propaganda de instituições financeiras até, poderia não ser devidamente entendido pelos seus demais companheiros de viagem, os astronautas de mesmo que pilotavam o foquete. Afinal de contas, experimentos com sementes de feijão efetivados sob as cores da bandeira nacional e sob o chapéu de Santos Dumont poderiam ser interpretados como nacionalismo abobado ou locupletação mediocrizante de fama adquirida com méritos incontestáveis por terceiros já eternizados e consagrados, ainda que não fardados.
 Se à encenação acima, fossem acrescentadas a dancinha molequemente  frenética da rumbeira metida a parlamentar e as manifestações de moralidade impoluta de vestais, ontem salafrários dezoito quilates, e ainda os  cinismos múltiplos dos que, reunidos para tramóias indecentes contra um simples caseiro, hoje declaram que apenas passaram pela residência oficial de autoridade então considerada top-de-linha para dar uma espiadinha, como recomendava o Pedro Bial, aquele jornalista hoje travestido de BBB, poderíamos concluir que o país está de marcha ré. E se se falar das absolvições indecentes de uma Câmara de Deputados cheia de picaretas, segundo testemunho próprio do presidente Lula, chega-se a uma encruzilhada: ou este país, através de uma amplíssima campanha cidadanizadora, reestrutura suas Ciências Humanas, ou estaremos ratificando, daqui a mais um tempo, o pensar de Levi-Strauss: “A finalidade das Ciências Humanas não é revelar o Ser Humano, mas dissolvê-lo”. E atentos à reflexão proporcionada por Alfredo Pena-Vega e Elimar Nascimento, especialistas em Edgar Morin: “É indispensável recusar imediatamente a ingênua tentação de cair na situação caricatural do discurso puramente sedutor ou do efeito da moda, ou mesmo do pseudo-discurso científico de querer todo o conhecimento social à abordagem do pensamento complexo ... As Ciências Humanas não podem continuar consagrando tanta energia e/ou conhecimentos na esperança de reduzir a complexidade do mundo, mesmo que seja pesada e oprimente para todos nós”.
 Tenho aversão a reaças, falsos modernos, sectários, integristas, dogmáticos, fundamentalistas e fanáticos. Conforme Jacques Séguéla – O Futuro tem Futuro, Europa-América – “a multiplicação dos pães transformou-se em multiplicação de seitas” ... “O papa antipresservativo acredita ser mais forte que a AIDS, Maomé cresce no terrorismo, Buda no ativismo; os espíritos interrogam-se, o misticismo espreita; os antigos fiéis, em busca de um novo senhor, procuram, sem a encontrar, uma crença credível”.
 Nas minhas buscas diárias por uma existência cada vez mais compatível com a dignidade e os direitos de todos os povos e nações, me refugio em Fernando Pessoa, um gênio lusitano muitas milhas além do seu cotidiano e que se auto-proclamava um “escriturantemente ninguém”. E o admiro pelo seu amor pelo dito espirituoso, a máxima graciosa e o paradoxo, sinais de inteligência refinada e cavalheiresca, hoje tão rarefeita nos cenários brasileiros, onde uma calhorda pedanteria se avoluma, a exemplo daquele não-mais-nordestino que proclamou, num pronunciamento radiofônico, não ter dúvida alguma de ser ele o único que salvaria o Brasil. Um Nazareno de Caetés, rodeado de discípulos alibabasticamente traquinas.
 Pessoa já dizia três coisas: “o pessimismo é bom quando é fonte de energia”, “para quem é guiado pelo sentimento, a solução de qualquer questão é fácil” e “nada é, tudo se outra”.
Quem apreender Pessoa e Morin, saberá fazer a hora neste país de contradições. 

 

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