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PESQUISANDO PESSOA
Quando me enfastio dos emplumados, pouco reflexivos e quase nada sedutores, procuro  refugiar-me num Fernando Antônio de além mar, de sobrenome Pessoa, que frequentemente me perturba, me fazendo ver, com acentuada nitidez, o que antes nunca havia desfilado pelos meus parcos crivos analíticos. Ou releio Fernando Pessoa: o livro das citações, Record, 2013, do meu querido amigo José Paulo Cavalcanti Filho, um pessoano de quatro costados, especializadíssimo no poeta luso, admiração antiga desde os tempos de Universidade Católica de Pernambuco, ele brilhante acadêmico de Direito, eu estudante de Economia e aluno do sempre muito aplaudido professor Germano Coelho, erudição para ninguém botar defeito. No livro do Zepaulinho apreendi algumas reflexões do luso notável. Cito algumas: “Não sejamos sínteses, sejamos somas: a síntese é com Deus”; “Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho”; “Atitude instintiva da maioria dos homens perante o progresso é a resistência a ele”; “Nada pequeno é justo e bom”; “Sou o intervalo entre o que desejo ser e o que os outros fizeram”; “Eu tenho Deus em mim”; “Todo império é uma decadência”. 
 
Considero o poeta Fernando Pessoa um antecipador dos tempos de agora, embora nunca devidamente reconhecido pelos da sua época, mais preocupados que estavam com linearidades nunca ousadas e  existencialidades insossas.
 
Para os que se sentem desconfortados com a atual crise brasileira, também planetária, uma lição primeira do Pessoa: “Se um homem criar o hábito de se julgar inteligente, não obterá com isso, é certo, um grau de inteligência que não tem; mas fará mais da inteligência que tem do que se se julgar estúpido”. Muitos ainda imaginam que o “coitadismo” é o caminho mais curto para se sair dos atuais atoleiros brabos, menosprezando o balizamento magistral do autor de Tabacaria (“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”). 
 
O poeta, em 1917, num Ultimatum lucidamente colérico, nos dá as vergastadas necessárias para uma inadiável RPI - Reengenharia Profissional Individualizada, indispensável nesta segunda década de século: “Passai frouxos que tendes a necessidade de serdes os “istas” de todos os “ ismos”; passai, radicais do Pouco, incultos do Avanço, que tendes a ignorância por coluna da audácia; passai, gigantes de formigueiro, ébrios da vossa personalidade de filhos de burguês, com a mania da grande-vida roubada na despensa paterna e a hereditariedade indesentranhada dos nervos; passai, bolor do Novo, mercadorias em mau estado desde o cérebro de origem; passai, decigramas da Ambição; passai, cerebrais de arrabalde; passai, senhores feudais do Castelo de Papelão; passai, cabeças ocas que fazem barulho porque vão bater com elas nas paredes; passai, absolutamente passai, porque o que aí está não pode durar, porque não é nada!!”.
 
Percebia Fernando Pessoa, com seu estupendo faro premonitório, que algo bem mais “solto” que a razão abriria as portas da criatividade, inventando futuros, construindo efeitos diferenciados dos até então moldados, ampliando utopias e assegurando um “gerenciamento” mais eficaz dos riscos assumidos: “Só uma grande intuição pode ser bússola nos descampados da alma”. E mais: “Frutos, dão-os as árvores que vivem, não a iludida mente que só se orna das flores lívidas do íntimo abismo”.
 
O cada vez mais lembrado companheiro de Caeiros, Campos e Reis, viveu muito além do seu próprio derredor. Percebia ele que a indecisão é um insulto do progresso e que uma pessoa é jovem na razão diretíssima e perfeita da sua ideia mais nova. E que o sucesso só acontece para as pessoas que dão mais do que recebem, somente os tolos e desinformados caindo no conto da varinha mágica. Mesmo de selfie.
 
Para os que ainda não assimilaram as advertências do poeta luso e dos profissionais que não desejam  descobrir o “debaixo do pano” das patifarias assacadas contra o serviço público brasileiro, uso as mesmas palavras do poeta, quando ansiava por novos ares civilizacionais: “Deixem-me respirar! Abram todas as janelas! Abram mais janelas do que as janelas que há no mundo!”
 
Como o poeta, guardadas as devidas proporções, sigo no dever maior de somente abandonar o meu querido Nordeste no último pau-de-arara, posto que, aqui, pressinto algo de grandioso e fecundo em futuro não de todo longínquo, cabendo a todos nós a sabedoria de bem se orientar diante das encruzilhadas da História.
 
Visitando pela Internet a Universidade Fernando Pessoa, para conhecê-lo melhor, recolhi algumas informações preciosas: ele nasceu em 13 de junho de 1888, aos seis anos perdendo o pai, aos sete um irmão. Em 1895, com o casamento da mãe, Dona Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa, com o comandante João Miguel Rosa, parte para a África do Sul, onde Pessoa viveu até regressar a Portugal em 1905, perdendo o privilégio da atenção exclusiva da mãe. Seus primeiros estudos são feitos em inglês, cujos conhecimentos constituirão fonte de sobrevivência profissional, tornando-se correspondente comercial. A realidade oculta terá sido para o poeta uma forte presença ao longo de toda a sua vida. As vias do espiritual e do divino foram, simultaneamente, percorridas e acrescentadas à complexidade psíquica e poética de Fernando Pessoa. O seu empenhamento patriótico esteve sempre manifesto na sua obra e nos seus projetos de intervir, via literatura, sobre a humanidade e sobre Portugal. O único namoro conhecido de Fernando Pessoa decorreu em duas fases: a primeira, de 1 de Maio a 29 de Novembro de 1920, a segunda de 11 de Setembro de 1929 a 11 de janeiro de 1930. Abandonado a si mesmo, à sua vida intelectual e mística, ao seu isolamento, que, aliás, marcou toda a sua existência, é sozinho que Fernando Pessoa, já profundamente desgastado pela angústia que o mina e pela constante busca de si próprio, morre no dia 30 de novembro de 1935, com 47 anos de idade. Uma morte que chega cedo, mas uma morte para a qual o poeta parece ter caminhado conscientemente e sobre a qual refletiu em muitos dos seus textos.
 
E Pessoa ainda nos brinda com uma reflexão oportuna para os atuais tempos educacionais pernambucanos: “Tudo é ousado para quem nada se atreve”.
 
(Publicado em 02.03.2015, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com)
Fernando Antônio Gonçalves
 
 
 
 

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