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PERNAMBUCANAS ARRETADAS

Na Universidade de Pernambuco, no Curso de Administração que me entusiasma, uma aluna encarece minha opinião sobre as mulheres líderes da terra, as que souberam fazer história, seus nomes honrando o passado do Estado. Como as heroínas de Tejucupapo, fato ocorrido em 1646, quando pernambucanas, ao lado dos seus maridos, filhos e irmãos, repeliram com armas  600 holandeses, pondo-os em debandada.
 
Declarei de imediato que as minhas eleitas estariam eternizadas, para não sensibilizar as que continuam batalhando por um Pernambuco cada vez mais gigante no cenário nacional. E logo uma delas me veio à memória, talvez emergida por primorosa reportagem publicada no último número da revista ALGOMAIS: a pioneira Edwiges de Sá Pereira, a primeira brasileira a se tornar imortal de uma academia, a Pernambucana de Letras.
 
Segundo informações colhidas junto à muito competente bibliotecária Lúcia Gaspar, da Fundação Joaquim Nabuco, a jornalista, educadora, poetisa e pioneira do feminismo Edwiges de Sá Pereira nasceu em Barreiros, em 1884, num 25 de outubro, filha do advogado José Bonifácio de Sá Pereira e de Maria Amélia Gonçalves da Rocha de Sá Pereira, revelando seus dotes artísticos desde infância. Foi catedrática da Escola Normal, também exercendo atividades magisteriais no Colégio Eucarístico e no Instituto Nossa Senhora do Carmo. Apesar de não possuir curso universitário, uma das suas alunas, a jornalista Dulce Chacon, outra mulher notável, afirmava que “lhe sobravam saber, cultura geral e especializada, inteireza de caráter, prudência e noção do dever”.
 
Mas a Edwiges foi muito mais além do magistério. Tornou-se uma incansável batalhadora na luta pela emancipação feminina, tanto através de palestras e conferências, quanto pelas iniciativas práticas idealizadas, orientando aquelas que não mais suportavam a opressão masculina. Graças à sua iniciativa pioneira, foi fundada a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, que batalhou incansavelmente pela instituição do voto feminino no Brasil.
 
Em 1920, Edwiges de Sá Pereira tornou-se membro efetivo da Academia Pernambucana de Letras, ocupando a cadeira n° 7, substituindo João Batista Regueira Costa. Antecipando em quase cinco décadas a vitória alcançada pela cearense Rachel de Queiroz na Academia Brasileira de Letras.
Participante do Segundo Congresso Internacional Feminista, no Rio de Janeiro, lá apresentou a tese Pela Mulher, Para a Mulher, onde classificava a condição da mulher em três grandes categorias: a que não precisa trabalhar, a que precisa e sabe trabalhar e a que precisa e não sabe trabalhar.
 
Discreta, Edwiges era uma revolucionária que não usava guarda-roupa moderno, não fumava e saía pouco de casa, onde costumava patrocinar reuniões para tratar dos assuntos marcantes no Recife e no país, até sua eternização, acontecida em 14 de agosto de 1958.
 
A segunda pernambucana guerreira por mim lembrada, eu tive a honra de conhecê-la pessoalmente nas lutas pela redemocratização brasileira. Seu nome, Naíde Teodósio, jamais será esquecido por todas aquelas mulheres que buscam uma cidadania consequente, erradicadas as classificações que apenas enodoam o caminhar das bravas e destemidas.
 
Chamada Dra. Naíde com profunda admiração e respeito, nasceu em Sirinhaém. De família muito pobre, estudou internada no Colégio da Sagrada Família, conseguindo vir para o Recife aos 16 anos, acompanhada de duas irmãs e contra a vontade paterna, para trabalhar e estudar na concretização de um sonho, o de ser médica. E ela também foi professora, tornando-se Professor Adjunto IV e Livre Docente em Fisiologia da Faculdade de Medicina da UFPE.
 
Discípula dos profesores Euler e Houssay, posteriormente agraciados com o Prêmio Nobel de Medicina, a Dra. Naíde Teodósio foi amiga de Nelson Chaves, através do qual tornou-se pesquisadora no campo da nutrição. Foi ela a responsável pelo desenvolvimento do Prothemol, um composto utilizado na complementação alimentar de crianças desnutridas, sendo merecedora da primeira Medalha do Mérito Sanitário Josué de Castro, concedida pela Assembléia Legislativa de Pernambuco.
Presa pela polícia de Getúlio Vargas durante o Estado Novo (1937-1945), por seus ideais marxistas, também foi encarcerada por mais de um ano na Casa de Detenção do Recife, durante a Ditadura Militar de 1964, por sua atuação no Partido Comunista, sua amizade com Paulo Cavalcanti e admiração pelo governador Miguel Arraes de Alencar. Torturada em várias ocasiões, jamais renegou suas convicções, sempre conservando seu espírito guerreiro. Não se aquietando diante da aposentadoria compulsória, permaneceu trabalhando e orientando pesquisas nuricionais sem receber qualquer tipo de remuneração.
 
Com Dom Hélder Câmara, em 1993, assumiu tarefas importantes na Campanha Contra a Fome e a Miséria, prosseguindo sua militância contra as desigualdades sociais até 2005, quando eternizou-se. 
  Tenho um imenso orgulho de ter, um dia, conhecido de perto a Dra. Naíde Teodósio, uma guerreira pernambucana de muita garra, competência e compromisso social.
 
(Portal da Globo Nordeste, 22.04.2010, Blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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