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PERFIS COMBATIVOS
Em 1989, num suplemento cultural, José Saramago (1922-2010) assim se posicionou: “Não sei qual papel os intelectuais de hoje devem ter no mundo. A questão é saber se eles de fato querem ter algum papel, e a minha impressão, a partir dos fatos, é que eles não querem ter papel algum. Abriram mão de sua tarefa de consciência moral que tiveram em alguns momentos. Hoje, o escritor, diante da televisão, diante dos grandes meios de comunicação social, praticamente não tem mais voz e, mais do que isso, muitas vezes condiciona sua própria voz aos interesses e às necessidades desses meios. Cada vez mais, somos meros atores de livros, e contribuímos cada vez menos para a formação de uma consciência”. E na Folha de São Paulo, em 1994, complementou: “O que eu digo é que eu tenho, como cidadão, um compromisso com o meu tempo, com o meu país, com as circunstância, digamos, do mundo. Eu não posso virar as costas a tudo isso e ficar a contemplar minha obra. O futuro irá julgar a obra do autor, mas o presente tem o direito de fazer um juízo sobre o autor, o que ele é”. Duas tapas dadas com luva de pelica naqueles contempladores dos próprios umbigos, sem qualquer compromisso social com a navegabilidade planetária, escrevinhadores de textos incolores, desapercebidos de um crescente iletrismo – incapacidade de utilização da língua escrita indispensável para ter a possibilidade de agir na vida social -, caminho próprio para agigantamentos de fundamentalismos religiosos e barbarismos ideológicos.

Se me pedissem para apontar um outro luso que soube ser muito além de escritor, não titubearia em apontar o padre Antônio Vieira (1608-1697), como outro talento que unia o falar com o agir articulado, denunciando que “muitos pregadores há que vivem do que não colheram, e semeiam o que não trabalharam”. Um tabefe bem aplicado, na Capela Real em 1655, por ocasião do Sermão da Sexagésima, onde disse que “para um se ver a si mesmo são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se  tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo há mister luz, há mister espelho, e há mister olhos”. Olhos, espelhos e luz que significam, nos tempos de hoje, o salutar enxergar para descrever desabiloladamente, um bom espelho para refletir bem o analisado e com muita luz conscientizar os iludidos que se imaginam beneficiados com pequenas migalhas dos poderosos que se banqueteiam desavergonhadamente.

Da coleção Perfis Brasileiros, da Companhia Das Letras, em outubro último foi lançado  Antônio Vieira, de Ronaldo Vainfas, PhD DA USP, que sintetiza, desfazendo mitos e inverdades, a vida e obra de um jesuíta que muito interferiu nas histórias de Portugal e Brasil. Que foi chamado de “bestianista”  por Gregório de Mattos, mistura de besta com sebastianista, talvez por ser o padre muito apegado aos judeus, diferentemente do poeta, um antissemita debochado e chulo. Mas, por consagração, Vieira foi definido por Fernando Pessoa como “o imperador da língua portuguesa”.

Um grande orador e homem de ação foi o padre Antônio Vieira. Que usufruiu, por breve período, das belezas de Olinda, cidade heróica e monumento secular eternizada por Lourenço da Fonseca Barbosa, o notável Capiba.  

(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 28.12.2011 
Fernando Antônio Gonçalves
 

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