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PELO FIM DO FINGIMENTO EDUCACIONAL
Fico a imaginar o desenvolvimento humanista, científico e tecnológico do Brasil, se tivéssemos uma educação de qualidade em todos os graus de ensino, abominando uma “cultura de fingimento” repleta de textos sensaborões, onde uns se postam como fingidos progressistas transmissores do saber e outros imaginam-se interpretadores de imbecilidades escritas, faladas e televisadas.
 
Para felicidade geral da sociedade brasileira, educar não se restringe apenas às instituições de ensino. Amplia-se a cidadania brasileira pelos meios mais diferenciados, desde as rádios comunitárias, até o bate-papo botiquinesco, nos campos de futebol, nas praias de mil e uma peladas, até tomando uma geladíssima sob as bênçãos de uma muito gostosa Verão, mulher sedutora sob os mais afáveis atendimentos e cantadas.
 
Evidente que o despudor da política nacional de educação pública passa pelos humilhantes salários docentes, por deficiências múltiplas nos setores da Educação Básica, pelos descalabros assacados contra o Ensino Médio e por uma burocracia carimbológica insuportável. Mas pode-se ainda testemunhar, para ampliar incômodos, os míseros níveis de atendimento nas bibliotecas públicas estaduais e municipais, com as exceções parcas que merecem múltiplos aplausos. A grande maioria delas não favorece leituras que ampliem o nível                   cultural dos leitores, num país onde as pesquisas estão revelando percentagens altíssimas de analfabetismo funcional nos níveis de ensino superior!!! Cursos de “falcudades” rastaqueras que sequer contam com bibliotecas atualizadas. No Recife, por exemplo, uma capital nordestina que apregoa ser a primeira da região, os méritos devem ser atribuídos à Universidade Católica de Pernambuco, cuja dinâmica expansionista e de prestação de serviços da sua Biblioteca Central se amplia a cada semestre.
 
Na área de História, então, o descalabro é pra lá de angustiante. E o exemplo que ofereço foi por mim próprio construído nas últimas semanas. Da seguinte maneira: listei uma série de telefones de IES que possuíam curso de História em suas ofertas; depois, liguei para toda a lista indagando se alguns livros existiam no acervo documental. Os livros indagados foram seis: O Fim do III Reich – A destruição da Alemanha de Hitler, 1944-1945, de Ian Kershaw, Companhia das Letras, 2015; Brasil: Uma Biografia, Lilian M. Schwarcz & Heloísa M. Starling, Companhia das Letras, 2015; Nossa Cultura ou o que restou dela, Theodore Dalrymple, É Realizações Ed., 2015; e A Quarta Revolução – A Corrida Global para Reinventar o Estado, John Micklethwait & Adrian Wooldridge, Portfolio-Penguin, 2015; 50 Pensadores que Formaram o Mundo Moderno, Stephen Trombley, Leya, 2014; e Maonomics: por que os comunistas chineses se saem melhores capitalistas  do que nós, Loretta Napoleoni, Ed. Bertrand Brasil, 2014.  
 
O resultado do meu levantamento intencional foi aterrador: nenhuma das instituições que possuíam Curso de História continha qualquer um dos livros citados! Quase todas as bibliotecas possuíam “bibliotecários”, a área destinadas aos livros sendo considerada bastante insuficiente, sem arejamento nem dedetização. Um caos, na quase totalidade delas.
 
Os resultados de tamanho descalabro estão escancaradamente à mostra: greves de professores, agressões policiais a professores que estão apenas exigindo seus direitos, arrotos secretariais mandando cortar ponto e efetivando cortes de benefícios conquistados, para não falar nos cortes monstruosos verificados nas verbas do Ministério da Educação, num ano intitulado demagogicamente de Pátria Educadora, onde uma mandatária rala a bunda numa bicicleta importada, com a maior cara de pau, entendida que é em praticar pedaladas!
 
Permito-me reproduzir aqui, um texto do padre José Ivan Pimenta Teófilo, solidarizando-me com meus companheiros de caminhada docente, encarecendo um minuto de reflexão dos leitores deste JBF sempre arretado de ótimo. Ei-lo: 
 
Felizes os educadores que tomam consciência do conflito social em que estão metidos e nele tomam partido pelo projeto social dos empobrecidos, porque assim contribuirão para a transformação da sociedade; infelizes os educadores que imaginam que a ação educativa é politicamente neutra porque acabam transformando a educação num instrumento de ocultação das contradições da realidade social e de reprodução da ideologia e das relações sociais vigentes; felizes os educadores que sabem articular o saber sistemático com o saber popular, porque ajudarão as classes populares a afirmar sua identidade cultural; infelizes os educadores que transmitem mecanicamente um saber elitista, porque contribuem para reforçar a marginalização e a dominação cultural do povo; felizes os educadores que aprendem a dialogar com os educandos, porque resgatam a comunicação pedagógica criadora no processo educativo; infelizes os educadores que impedem os educandos de dizer a sua palavra, porque estão reproduzindo a educação do colonizador; felizes os educadores que se tornam competentes em suas ‘disciplinas’ ensinando a ‘desopacizar’ ideologicamente seus conteúdos, porque ajudarão os educandos a se apropriarem do saber como ferramenta de luta na defesa e afirmação de sua dignidade; infelizes os educadores que não se esforçam para ser criticamente competentes, porque enfraquecerão mais ainda o poder cultural das massas oprimidas reforçando o autoritarismo cultural das classes dominantes; felizes os educadores que procuram se organizar para conquistar melhores salários e melhores condições de ensino, porque estão ajudando a conquistar a educação a que o povo tem direito; infelizes os educadores que atuam isoladamente, buscando apenas seus próprios interesses, porque deixarão de contribuir para a conquista de uma escola digna; felizes os educadores que iluminam sua prática com o sonho de um futuro novo em que as pessoas aprendam, através de novas relações sociais, as lições da justiça e da solidariedade; infelizes os educadores que não sonham, porque não terão a coragem de se comprometer na luta criadora de uma nova sociedade a partir de sua prática educativa; felizes os educadores que aprendem a fazer da ação de cada dia a semente da nova sociedade; infelizes os educadores que pensam que as coisas só aparecerão no futuro, porque não perceberão nem farão perceber que o ‘novo’ já está no meio de nós, brotando de nossas práticas transformadoras, solidárias com as lutas dos espoliados da terra”.
 
Recomendaria aos meus companheiros de magistério de todos os níveis a leitura não-aligeirada do livro do Theodore Dalrymple acima citado. Para entender as razões da atual crise brasileira, onde um populismo desregrado, com lances de alta corrupção, pode nos levar à bancarrota, favorecendo uma maior permissividade educacional, praticada por pais e mães que desejam se ver longe dos filhotes, favorecendo a emersão de  regimes sectários de várias cores. De consequências vexaminosas para gregos e troianos.   
 
(Publicado em 15.06.2015, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com)
Fernando Antônio Gonçalves 
 
 

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