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PEGADINHA DA CRIAÇÃO
Relendo a vida do padre Antônio Vieira, considerado o maior jesuíta luso-brasileiro do século XVII, deparei-me com uma reflexão dele que me deixou antenado tempos atrás, quando melhor comecei a diferenciar salvação e igreja: “Nada permanece no homem durante o tempo de purificação além de sua conversa interior. Alma e espírito exigem respostas; e o homem carregado de culpa precisa encontrar as palavras para as muitas verdades que existem em cada ato, em cada um dos seus atos”. E deplorei, ainda com mais asco, as perseguições promovidas pela Inquisição de Coimbra para com Vieira, acusado cretinamente de tentar unir todos os cristãos na luta pela repatriação dos judeus para Portugal. Práticas inquisitoriais que ainda persistem nos tempos atuais, em todas as denominações religiosas, onde parece fulgurar o lema “É proibido pensar diferente dos maiorais”, maiorais muitas vezes travestidos de um caráter nulo, mimético, quando não babaovístico, imaginando perenizada a cordeiragem que imperava décadas passadas, quando o mando não era submetido a uma mínima análise crítica.

Aí aconteceu uma pegadinha da Criação, travestida num livreto intitulado Teologia Portátil, escrito por Paul Henri Thiry, o Barão de Holbach, um homem muito rico, que se opunha aos privilégios feudais e aos desmandos da igreja. Anexo ao livro, junto com bilhete fraterno, uma oração manuscrita de um caminheiro cristão, que nem eu avesso a malandragens e incompetências estratégicas dos cínicos que nem se percebem sem caráter. Ei-la:  “Senhor: Dá-me coragem para empreender e arriscar ponderadamente, sem temeridade ingênua. Dá-me coragem para recomeçar, para tomar iniciativas sensatas e no tempo oportuno. Dá-me coragem para aceitar as regras da disciplina, sem ficar prisioneiro dos costumes ou preconceitos. Dá-me coragem para apreciar a tradição, sem cair no perigo da repetição farisaica. Dá-me coragem de ficar só sem cair na solidão, de me encontrar comigo sem me refugiar no isolamento egoísta. Dá-me coragem para recomeçar sempre, independentemente dos aparentes sucessos ou fracassos passados. Dá-me coragem para colaborar lealmente com os que ficaram, sem lamentar os que livremente partiram. Dá-me coragem para encontrar tempo para estudar e orar e, sobretudo, tempo para ouvir os que têm todo o tempo para nos torturarem com banalidades. E dá-me capacidade de compreender sempre que o tempo não é meu”.

Uma oração destinada a homens e mulheres que buscam um viver emocionalmente ajustado, de têmperas fortes e utopias nunca idióticas. Integralmente de conformidade com a ponderação  definida pelo Mahatma Gandhi, de quem sou radical admirador: “A verdadeira humildade é um serviço corajoso, ativo, constante do homem, não devendo ser confundido com inatividade”. 

Sou gandhiano (Gandhi) e paulino (São Paulo) por derradeiro. Do Mahatma, um líder inconteste da não-violência ativa guardo seu testemunho: “Cristo é a maior fonte de força espiritual que o homem tenha conhecido. Ele é o exemplo mais nobre de um que deseja dar tudo sem pedir nada. Cristo não pertence somente ao Cristianismo, mas ao mundo inteiro”.

O cumprimento da missão que Cristo nos legou muito dependerá dos que souberem gandhianamente orar, percebendo-se sempre instrumento de uma vontade superior. Como soube bem entender o autor da oração que me foi presenteada.

(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 15.06.2012 
Fernando Antônio Gonçalves
 

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