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PAUTAS PARA EDUCAÇÃO
Diante de uma aparentemente irreversível onda de imoralizações planetárias, ensejando manchetes exaltadas nos jornais de grande circulação, cremos ser necessária uma distribuição mais equilibrada das pautas midiáticas em torno dos assuntos educacionais. Sem perda das atenções para as deficiências e estrupícios, urge um favorecer maior dos pontos positivos, emulando buscas por melhores propostas alternativas, incentivando análises mais objetivas das causas provocadoras dos problemas, numa interação mais efetiva com uma rede mundial que propaga ser possível um outro mundo. Sem medo, sem violência e sem sectarismos fundamentalistas, com mais dignidade existencial para todos, a espiritualidade sobrepairando sobre as denominações religiosas, a favorecer a emersão de uma ética da convivência.

Para citar o setor com o qual mais me familiarizo, o educacional, deparo-me frequentemente com matérias pra lá de demolidoras, a quase totalidade delas de forte densidade negativista. Que quase sempre relegam a reflexão ainda contemporânea do presidente John F. Kennedy: “O maior inimigo da verdade muito frequentemente não é a mentira – deliberada, inventada e desonesta – mas o mito –persistente, persuasivo e pragmático. Muito frequentemente nos apegamnos aos clichês de nossos antepassados”.

 Assinante da revista mensal IMPRENSA, na edição de abril último li um escrito que alertou sobre a necessidade de os veículos de comunicação ampliarem suas pautas sobre  assuntos educacionais. Um bem elaborado texto de Luiz Gustavo Pacete destacava, sem ufanismos cavilosos nem triunfalistas, a premência dos veículos de comunicação aprimorarem suas pautas sobre assuntos pedagógicos. E a urgência de tal ampliação claramente se respalda no Relatório de Competitividade Global 2009, elaborado pelo Forum Econômico Mundial: entre os 133 países pesquisados, o ensino fundamental do Brasil se encontra na 119ª. posição. Com um agravante: em Matemática e Ciências, nossa colocação salta para a 123ª. posição.

A revista, através de ampla consulta, coletou depoimentos de professores, pesquisadores, especialistas em assuntos educacionais, diretores de escolas, consumidores de notícias e jornalistas sobre as principais falhas das atuais exposições midiáticas. E os resultados apontam para duas realidades: a superficialidade das pautas e coberturas jornalísticas sobre assuntos educacionais e os estereótipos criados para os profissionais da área, como se eles fossem os únicos responsáveis pelos baixos níveis praticados de ensino. Segundo Gabriel Grossi, “a grande mídia poucas vezes vai além do factual”, ressaltando mais as debilidades e raramente noticiando sobre feitos relevantes, criatividades educacionais emergentes, entrosamento gestão escolar e comunidade. E o testemunho de Priscila Cruz, diretora-executiva do movimento Todos pela Educação é pertinente: “É importante que os veículos (de comunicação) não se atenham somente a rankings e pesquisas, mas analisem e justifiquem o resultado dessas estatísticas”. Segundo ela, o movimento remete suas análises para 5 mil rádios cadastradas, muito embora professores e outros profissionais de ensino reclamem de um maior entrosamento entre eles e os jornalistas. Ela explica, denunciando: “uma provável herança da lei do funcionalismo público, presente em 18 estados brasileiros, que proíbe professores de falarem diretamente com a imprensa”. Uma lei promulgada durante a ditadura militar, cujo texto nunca foi revogado. Recentemente, em março passado, um documento emitido pelo governador José Serra, “instruía os diretores a não falarem com a imprensa, alegando que as informações não deveriam contradizer os boletins emitidos pelo Palácio dos Bandeirantes”.

Outro problema aventado na pesquisa feita é o da diminuição, pela imprensa, dos professores e do seu papel social, gerando desconfianças múltiplas na opinião pública. Segundo Rubem Barros, editor da revista Educação, “a mídia costuma contemplar a classe por meio de sindicatos ou associações, mas professores consultados afirmaram que a maioria dos colegas não é ligada a sindicatos, enquanto outros órgãos geralmente têm receio de se expor por medo de represálias”. E denuncia: “Não podemos ter professores mal-instruídos com falta de repertório cultural e sem domínio do que ensina”.

Há uma urgência na valorização da função docente, iludindo-se aqueles que imaginam que apenas uma remuneração maior mudará a realidade pedagógica. É indispensável pautas midiáticas que divulguem iniciativas docentes sementeiras, favorecendo um melhor posicionamento da docência na lista de preferência das profissões, atualmente em 36º lugar nas escolas particulares e 24º no ensino público. Um nível de preferência desconfortável diante do atual déficit de 710 mil profissionais no ensino fundamental brasileiro.

Que as pautas educacionais da mídia brasileira busquem analisar sem eleitoralismos os problemas de gestão, de infraestrutura, de tecnologia, de acompanhentos familiares, dos métodos pedagógicos e dos incentivos à cultura para os ambientes domésticos. Favorecendo a “enxergância” daqueles alunos que não veem sentido algum estarem sentados assistindo aula na escola. Tanto pública quanto particular.

Que o Documento Final da Conferência Nacional de Educação 2010, com seus seis eixos temáticos aprovados nos dois dias últimos de março passado, após mobilização de 3,5 milhões de brasileiros, contribua para um Plano Nacional de Educação 2011-2020 que robusteça o binômio profissionalidade x cidadania, alavancando a posição educacional brasileira para patamares mundiais menos vexatórias.

(Portal da Revista ALGOMAIS, 14/06/2010, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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