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PARODIANDO
Uma das minha leituras preferidas nos últimos tempos é do moçambicano Mia Couto, autor de mais de 30 livros e vencedor do Prêmio Camões, o mais prestigioso da língua portuguesaEle recentemente lançou, outubro do ano passado, o livro de contos Vozes Anoitecidas, editora Companhia das Letras. E foi a partir de expressões usadas por Mia Couto nesse seu livro, que resolvi, homenageando-o, escrever o conto abaixo, utilizando suas próprias e deliciosas expressões. Pedindo vênia, lá vou me arriscando:

VIDA DE PROFESSORA PRIMÁRIA
Mulata de volumosa bondade, nunca abrandou de ser mulher. Chorava sem soltar barulho. E foi vendo que o barulho vinha do peito, era o coração a mastigando. A febre castigava-lhe a teimosia, as tonturas dançando com os lados do mundo.

O medo escorregou dos olhos. Tinha memória escura, por causa das tantas noites que bebia desiludida. Dentro dela não havia resto de infância. Em sala de aula, enfeitava os ditos com advérbios sem propósitos nem cabimento. Era tão magra que nem se sentia chegar. Viúva, jamais desforrara os destemperos da ausência. Relembrava sempre Dom Hélder: o poder de um pequeno é fazer os outros mais pequenos, pisar os outros como ele próprio é pisado pelos maiores.

Percebia que a verdadeira bondade não se mede em tempo de fartura mas quando a fome dança no corpo dos homens. Num lugar onde ensinava, sem chegada nem viagem, é preciso ensinar espertezas. A água aceita a forma de qualquer coisa. Fome iguala homens e animais. A seca esgotara a terra, as sementeiras não cumpriram promessa. Só havia um charco sem respeito. E o único bicho pastava mais vagaroso que a preguiça. Nada enxotava o seu pensamento triste. As nuvens estalavam, parecia até que o céu tossia, severo e doente. E a dor dela era poeira que ia vazando a luz. Os coqueiros vão barulhando brisas. Tristeza mais triste é aquela que não se ouve. Quando caiu não arrancou barulho da terra. Separado por uma parede, o outro lado era muito longe. 

Candidatos em ano eleitoral discursariam heroísmos sonhados. Afastando cinicamente pedaços de escuro
Dentro dela, não era sozinha. Era muitos.

E a vida enquanto tem vontade vai construindo a pessoa. Pois ela era filha do seu mundo.

PS. Um Ano Feliz para todos aqueles que depositam irrestrita confiança nas promessas do Menino Muito Arretado. E para os demais, independentemente de credo religioso, também filhos amados da Criação. E para Fernando Pessoa, post-mortem, “que não era sozinho, era muitos e que também era filho do mundo”. Uma nova era se aproxima sem vagareza, com perseverança.
   
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 07.02.2014 
Fernando Antônio Gonçalves
 
 

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