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PARECER DE MACHO
Ouutro dia, a Melba me entregou cópia de documento que nos emocionou bastante. Um parecer do Promotor de Justiça Adalberto Mendes Pinto Vieira, que foi companheiro na Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife pastoreada pelo nunca igualado Dom Hélder Câmara. Um parecer dado no processo de dupla patenidade requerido por M.A.A. e W.A.A., homoafetivos casados civilmente, reconhecendo M.T., nascida a 29 de janeiro passado, na declaração de filiação dela em relação ao segundo requerente.

No seu parecer, o Adalberto demonstra uma ímpar contemporaneidade humanística, quando lembra que “a situação apresentada faz-nos refletir sobre a necessidade de que a realidade fática seja acolhida, contemplada e disciplinada pelo universo do direito.” E ainda se dirige, pedindo a devida vênia, à recém-nascida, principal interessada na questão.

Vale a pena registrar trechos da carta, para ampliar uma desidiotização comunitária que já tarda neste Brasilzão que se preocupa mais com Copa do Mundo que com o fim da fome e da miséria no país: “Talvez daqui a vinte anos, quando você for adulta, espero que o casamento homoafetivo seja uma questão corriqueira, porém nos dias de hoje eles (os pais) foram muito machos e pioneiros para enfrentar a questão na nossa região e ser notícia em manchete de jornal. Tiveram uma coragem da ‘gota serena’, em bom ‘nordestinês’”. E mais: “M.T., você existe e é fruto de duas pessoas, e ninguém tem o direito de reduzir o entendimento sobre a aplicabilidade de qualquer regra para ignorar aquilo que a vida já reconheceu. Não é hora para receios infundados ou para suposições de um futuro de dúvidas e de dificuldades para você. O seu nascimento trouxe a esperança de uma sociedade mais justa, feliz e menos preconceituosa. A minha experiência de vida ensinou que o amor sempre vence. No meu entendimento, os seus direitos estão resguardados e assegurados”.

E ainda recomenda com muita sabedoria: “Pela vida, procure sempre o que nos une, não o que nos separa. Construa pontes. Não se deixe levar por sentimentos ou crenças mesquinhas que apequenam o homem e impõe a rejeição, a exclusão e a ‘demonização’ de grupos ou pessoas. M.T., graças a Deus a nossa República é laica, o que equivale a dizer que o seu direito termina onde o do outro começa. Um lugar onde todos têm o direito de viver em plenitude. Até os que pensam diferente e não concordam com isto. Onde pessoas de vários credos, até mesmo aqueles que não têm credo algum, e de maneiras distintas de entender o mundo e suas relações, podem conviver em harmonia, tendo seus direitos respeitados”.

Aplausos devem ser enviados para o casal homoafetivo que concretizou, através de fecundação “in vitro” a chegada da Maria Teresa, para a jovem que gestou a M.T., e para o promotor Adalberto Mendes Pinto Vieira. Que as hipocrisias e os farisaísmos dos cavilosos de plantão, religiosos ou não, sejam postos sob compaixão  pelos que, cidadanizados século 21, entendem o que seja ser família de modo mais abrangente, pós-modernamente.
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Fernando Antônio Gonçalves é professor universitário e pesquisador social.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 04.04.2012)

(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 14.03.2012) 
Fernando Antônio Gonçalves
 

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