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PARA UM PERMANENTE COMBATE
 Estatística comprovada: pelo menos 120 mil publicações já foram editadas sobre o personagem mais nefasto da história contemporânea, responsável direto pelo holocausto que vitimou mais de seis milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial. E a trajetória política de Adolf Hitler continua sendo investigada exaustivamente, permanecendo ainda o enigma pavoroso: como um homem pôde levar uma nação inteira à tamanha barbárie?

 Por mais que se tenha escrito sobre Hitler, muito pouco ainda se sabe sobre a pessoa dele, suas estruturas emocionais, suas motivações pessoais, seus furores predatórios, sua sexualidade, suas posturas messiânicas, suas frustrações e seus histerismos ridículos. Qual teria sido o segredo da popularidade vertiginosa de Hitler e por que o seu comando sobreviveu por terríveis longos doze anos? Quais as razões pelas quais o culto povo alemão se manteve leal ao Reich, mesmo quando os horizontes principiaram a ser assustadoramente negros? Teria sido o nazismo uma “religião secular”, cuja liderança maior parecia deter um descomunal poder sobre mentes e corpos de uma população inteira? Como explicitar as razões da evolução da psicose destrutiva do trinômio nacional-socialismo,  carisma e poder? 

 Depois de algumas pesquisas históricas – O Dossiê Hitler, Henrik Eberle & Matthias Uhl, Record, 2008; Doze Anos com Hitler, Christa Schroeder, Objetiva, 2007; No Bunker de Hitler, Joachim Fest, Objetiva, 2005; O Pianista de Hitler, Peter Conradi, José Olympio, 2009; LTI – A Linguagem do Terceiro Reich, Victor Klemperer, Contraponto, 2009; Berlim 1945 - A Queda, Antony Beevor, Record, 2009; Para Entender Hitler, Ron Rosebaun, Record, 2005; e O Terceiro Reich, Carisma e Comunidade, Martin Kitchen, Madras, 2009, entre outras – tive a atenção despertada para O Segredo de Hitler, a Vida Dupla de um Ditador, de Lothar Machtan, Objetiva, 2007.

 O texto de Machtan, um historiador alemão nascido em 1949 e PhD em História, professor titular no Departamento de História da Universidade de Kassel, retrata o contexto social e emocional em que Hitler se desenvolveu, explicitando, de um modo surpreendentemente envolvente, a natureza homoerótica dos primeiros tempos do movimento nazista, numa sociedade conservadora, onde a homossexualidade era crime previsto no código penal.

 No livro, o autor busca comprovar como Hitler se tornou refém de sua própria opção sexual, que o deixava bastante vulnerável às chantagens dos seus mais íntimos, durante seu caminhar político de ascensão fulminante. Um “segredo” que o ditador tentou a todo custo preservar, destruindo arquivos e documentos, subornando e assassinando ex-amantes, além de tentar eliminar admirações masculinas, com exemplo bem narrado no livro do Peter Conradi, já acima citado. Que relata as relações mais que formais entre Ernst Hanfstaengel e o ditador, ele um talento musical que posteriormente denunciou o Führer ao serviço secreto norte-americano como sendo “um narciso egocêntrico e masturbardor”, “que se refugiou em uma vida pública artificialmente dramatizada por sua grande frustração sexual”. O mesmo Hanfstaengel que, em anos anteriores, recebia com muita frequência Hitler em sua casa, achando-o portador de uma voz “de efeitos sonoros únicos”.

 O historiador Machtan descreve em pormenores quão inumana era a mente do ditador alemão, sua busca frustrada de ser artista, os episódios privados de sua vida pública, os esforços desenvolvidos para ter uma vida amorosa bem sucedida, as interrelações mantidas com parceiros e as diversas manifestações de histeria quando das proximidades de uma derrota acachapante.

 A leitura de O Segredo de Hitler esclarece inúmeras questões até bem pouco tempo ignoradas pela maioria dos estudiosos. Trata-se de pesquisa que enfoca a história acontecida por trás da história, desocultando facetas que o ditador alemão encobriu até 30 de abril de 1945, quando meteu uma bala na cabeça, no interior do bunker onde tinha se entrincheirado. 

 Uma leitura para todos aqueles que deveriam estar atentos aos “salvadores da pátria”. Como o paranóico Adolf Hitler, que se achava um enviado da Providência.       

(Portal da Globo Nordeste, 22.01.2010, Blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves
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 (Portal da Revista ALGOMAIS, 11/01/2010, Reflexões de Caminhante
 

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