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PARA PAIS, MÃES E AVÓS
Quando uma era se encontra quase expirando e uma gigantesca onda de mudanças já dando sólidos sinais de efetividade nunca definitiva – biotecnologia, nanotecnologia, robótica, reciclagem, gerenciamento dos resíduos, energia limpa e inteligência artificial -, novos valores emergem, desafiando pais, mães e avós para os relacionamentos com seus  filhos, netos e derredores.

Para desgrudar-me dos acontecimentos trágicos que vitimaram o destemido povo japonês,  mantendo-me sempre atento às vicissitudes que ainda atingem as enchentes provocadas na Mata-Sul de Pernambuco, fome a mais dolorosa delas, li com atenção um livro que deveria ser manual de cabeceira dos homens públicos brasileiros, nestes primeiros passos de gestão executiva, federal e estaduais.

De Adjiedj Bakas, um futurólogo que pesquisa tendências econômicas, tecnológicas, culturais e espirituais da contemporaneidade, Além da Crise – o Futuro do Capitalismo, Qualitymark, 2010, reserva, num dos seus capítulos últimos, algumas recomendações para pais, mães e avós responsáveis por uma geração absolutamente diferenciada da deles. Diretrizes que ampliarão iniciativas empreendedoras, éticas comportamentais e análises mais consistentes sobre amanhãs, sem os imediatismos autofágicos que a nada conduzirão. Eis seus balizamentos, aqui quase integralmente reproduzidos, endereçados a gregos e troianos de todas as classes sociais: 1. Prepare seus filhos para economizarem, não para gastarem tudo, transmitindo-lhes os princípios asiáticos a esse respeito; 2. Ensine-os a não viverem demasiadamente dependentes do crédito; 3. Prepare-os para a eficiência energética, pois a energia se tornará cara quando a economia voltar a decolar daqui a alguns anos; 4. Invista em criatividade direcionada para saberes e fazeres desalienantes; 5. Ensine-os a consumirem com sabedoria; 6. Torne-os tão independentes de instituições financeiras quanto possível; 7. Capacite-os em empreendedorismo, posto que eles devem fazer o melhor com os seus talentos; 8. Prepare-os para uma não-herança; 9. Prepare-os para uma vida de trabalho duro; 9. Oriente-os para os novos pilares do capitalismo mundial: biotecnologia, nanotecnologia, robótica, nova energia, reciclagem de lixo, etc; 10. Oriente-os para uma vida de mudanças climáticas e controle populacional; 11. Conecte-os sempre aos mundos físico, material e financeiro, bem como ao mundo espiritual; 12. Tornem-se e façam com que eles se tornem o melhor possível à prova de crises.

Acrescentaria alguns outros “mandamentos”, favorecendo um melhor relacionamentos pais-mães-filhos-netos-derredores na construção de amanhãs menos perniciosos, com um classe política higienizada, com empresários socialmente mais solidários e com uma educação voltada para a libertação do homem todo e de todos os homens, um mote de seguimento ainda muito precário: a. Nenhuma instituição ensina sucesso, posto que a chave para o sucesso está na sua maneira particular de pensar; b. Com os olhos voltados para os amanhãs, os ontens apenas servindo para não mais repetir certos procedimentos; c. Nunca se esquecer da reflexão de Galileu Galilei, um que quase se lasca nas unhas da Santa Inquisição: “Não se pode ensinar nada a um homem; só é possível ajudá-lo a encontrar a coisa dentro de si”; d. Todo mal é um bem não devidamente compreendido, posto que “topada só bota pra frente”, já encarecendo o sambão famoso que o melhor remédio é “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”; e. As oportunidades se encontram, no mais das vezes, no meio das dificuldades, jamais sendo menosprezada a advertência voltaireana: “quem se vinga, depois da vitória, é indigno de vencer”; f. Sozinho, não se chega a lugar algum; g. Jamais alimente porcos com pérolas, nem crie pequeninas serpentes que amanhã lhe alfinetarão letalmente; h. O que se pode ver não passa de um simples derivado, posto que a verdadeira sabedoria sempre se estrutura solidamente a partir de algo que os olhos não captam; i. Vencer todas as batalhas não é o mérito maior. O maior mérito é quebrar a resistência dos inimigos sem lutar, apenas conhecendo-os e se conhecendo adequadamente; j. Jamais ajudar alguém, fazendo por ele o que ele mesmo pode e deve fazer, pois é assim procedendo que se multiplica decadências e pusilanimidades; k. O que se tira da Vida é o que se coloca na Vida, cada um sempre merecendo os resultados que suas próprias ações criaram; l. Saber sempre que o sucesso é maior quanto se sabe rir, quando se aprecia a beleza, quando se ganha o respeito de pessoas inteligentes.

Por tudo isso, perceber-se sempre inconcluso já é um admirável bom começo. Admitindo que a escada do sucesso jamais tem o último degrau, uma excelente maneira de comprovar a tese de que “quem gosta de passado é museu”.

Para os que se sentem existencialmente desconfortados, uma lição primeira do Fernando Pessoa, aquele poeta lusitano de quem sou fã de carteirina, mesmo não assimilando facilmente muitas coisas escritas por ele: “Se um homem criar o hábito de se julgar inteligente, não obterá com isso, é certo, um grau de inteligência que não tem; mas fará mais da inteligência que tem do que se se julgar estúpido”. Outra: “Só uma grande intuição pode ser bússola nos descampados da alma”. E mais: “Frutos, dão-os as árvores que vivem, não a iludida mente que só se orna das flores lívidas do íntimo abismo”.

No meu canto, sigo no dever maior de somente abandonar o meu querido Pernambuco no último pau-de-arara, posto que, aqui, pressinto algo de muito grandioso e fecundo nesta segunda década de século, cabendo a todos nós a sabedoria de bem se orientar diante das encruzilhadas da História.

(Publicada em 17.03.2011, no Portal da Globo Nordeste, blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves

 

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