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PARA LARA, NETA GUERREIRA
Na véspera da nossa muito amada vovó Melba receber, na Câmara Municipal de Olinda, a Medalha Dom Hélder Câmara de Direitos Humanos, envio-lhe um abraço cada vez mais consciente da sua oportuníssima chegada, facho maior de luz dos seus orgulhosos pais, entusiasmo diário da  guerreira maior do meu caminhar, também ela de uma existência repleta de alegrias, decepções algumas e muita vontade de ver todo povão brasileiro “levantar-se, sacudir a poeira e dar a volta por cima”.

Com entusiasmo, vejo-a muito bem cuidada, posto que sei da máxima de Voltaire que seus genitores trazem nos seus porta-estandartes caminhantes: “quem não vive o espírito do seu tempo, do seu tempo aproveita apenas os males”.

Nos umbrais de uma era que se prenuncia fortemente reestruturadora, com todo amor de avô ofereço-lhe alguns balizamentos, retirados de um cotidiano cada vez mais dinâmico. O primeiro deles, Larinha, creio que o mais importante de todos, é o que nos revela que “nada é tão perfeito que não possa ser melhorado”. E essa melhoria contínua requer muita dedicação aos estudos, gigantesca motivação cotidiana e crescente perseverança, tudo a favorecer a ampliação dos nossos pontos fortes, reduzindo-se os fracos à menor das significâncias.

Os tempos que virão, querida Lara, não serão fáceis para os medíocres, tampouco para os desatentos que ainda não perceberam que o conhecimento universalizou-se, tornando-se cada vez mais acessado por milhões, devendo ser eficazmente organizado e holisticamente interpretado.

Além disso, Larinha, num contexto cada vez mais “mundializado”, urge ampliar a consciência do ético, cultivando o senso crítico através de um pensar cada vez mais autônomo e multifacetário, capaz de melhor compreender as incógnitas e os paradoxos de uma contemporaneidade gerada por múltiplos ontens.

A segunda lição, neta querida, é uma decorrência natural da primeira: “a Qualidade de Vida é um processo que contagia positivamente”. Uma qualidade que somente será danificada se profissionalidades ultrapassadas, sequelas de  obsolescências mentais predadoras, não forem devidamente erradicadas.

Saiba muito bem administrar seus sonhos, Larinha, através de uma visão de futuro mobilizadora, percebendo sempre que errar nunca foi crime, muito embora seja abominável permanecer no mesmo engano anos a fio. E esteja sempre convicta, neta amada, que algumas regras estabelecidas pelo Miyamoto Mushashi, em 1584,  continuarão válidas para todos os futuros: “Conheça o caminho de todas as profissões; Desenvolva o julgamento intuitivo e a compreensão de tudo; Não faça nada que de nada sirva; Preste atenção até ao que não tem importância; O caminho está no treinamento”.           

Seja generosa com seus tropeços, corajosa nas suas convicções e fiel a seus princípios. Desconfie sempre das imperiais certezas e jamais embarque na canoa dos que afirmam que se deve fazer apenas o que o coração mandar. E nunca se esqueça do que disse o Marquês de Maricá: “A mediocridade em tudo é uma garantia e penhor de segurança e tranquilidade, sendo a passividade sua filha predileta”. 

Na construção das suas utopias, Larinha, evite cometer três falhas gritantes: a de desejar possuir uma visão que forneça um quadro perfeito dos amanhãs; a pressuposição de que o hoje lhe presenteará com um mapa abrangente do futuro; e a de que é dispensável garra incomum e férrea vontade para compreender as incógnitas e os paradoxos dos tempos vindouros.

Quando você estiver na fase do maternalzinho, estaremos, sua vovó e eu, testemunhando um nível melhor da Educação Fundamental, onde oito pontos merecerão atenção redobrada das políticas públicas: 1. Quantidade suficiente de professores competentes, atualizados e motivados; 2. Escolas em condições concretas de funcionamento; 3. Didática eficaz e de qualidade; 4. Material instrucional compatível com as exigências de uma cognitividade cidadã; 5. Currículo ajustado com os desafios dos novos tempos que advirão; 6. Adequada conexão entre Escola e Vida; 7. Exercício continuado de um pensar crítico-criador; 8. Uma política pública que assegure 100% das crianças efetivamente matriculadas em escolas de qualidade.    

Nunca a esqueço em minhas orações, Larinha. Nem tampouco do seu papai e da sua mamãe, olhares sempre atentos para seu desabrochar caminheiro. E encareço ao nosso Deus que a conserve sempre livre, leve e solta, bússola de todos nós, sem as inseguridades que tanto atormentaram nossos antepassados.
PS. Brevemente, a vovó Melba e eu iremos visitá-la novamente em Aracaju. Pra ver você mais crescidinha e comprovar se os seus papais estão utilizando o saleiro novo na mesa das refeições.

(Publicada em 12/12/2011, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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