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PARA DEBULHAR AMANHÃS
 Recentemente, o deão Colin Slee, da diocese anglicana de Southwark, Londres, sintetizou na figura de um triângulo as correntes atuais do século XXI: num vértice os fundamentalistas laicos, no outro os fundamentalistas religiosos, no terceiro os pensadores liberais inteligentes do anglicanismo, do catolicismo romano, batistas, metodistas e de outros credos e até mesmo pensadores ateus. E o escritor Russell Shorto, autor de Os Ossos de Descartes – a história do esqueleto por trás do conflito entre razão e fé, Objetiva, 2013, onde se encontra a declaração acima, adverte sem titubeios: “A sociedade moderna, como normalmente a definimos – uma cultura laica construída em torno da tolerância, da razão e dos valores democráticos – ocupa uma porção bem reduzida do mundo, e há sinais de que essa porção se torna cada vez menor”.  Para quem ainda não leu, o livro do Shorto é a história da criação da mente moderna. E é o próprio Shorto quem assegura: “O vínculo entre Descartes e as sucessivas décadas de invenção não é tão aparente; menos ainda a ligação entre Descartes e a nossa própria era de invenções e descobertas.... Descartes deu ao dualismo sua forma moderna e insistiu nisso, e a filosofia ocidental, assim como a tradição ocidental deste então – a modernidade, em outras palavras – carrega o problema mente/corpo em seu DNA, como se apresentou desde o princípio. A questão é tão essencial e ainda tão fugidia, que as tentativas atuais de resolvê-la perpassam diversas disciplinas, desde a ciência da computação até a neurociência e a psicologia”.

O francês Edgar Morin, no seu livro A Via para o futuro da humanidade, Bertrand Brasil, 2013, também faz um desabafo: “Estou consciente de que a possibilidade de mudar de via tornar-se cada vez mais improvável ... Sinto que uma primavera aspira nascer. Mas sinto também que se anuncia uma nevasca para aniquilá-la antes que isso aconteça.” Fatores principais: o imediatismo, o messianismo, o consumismo, o individualismo, o hedonismo, o ocidentalocentrismo, o apoliticismo alienado, o excesso de conhecimento focado em áreas cada vez mais concêntricas, a autofágica globalização capitalista, a rapidez das mudanças e, por consequência, uma brutal incapacidade analítica de melhor aquilatar as circunstâncias causais históricas. Fatores que estão preocupantemente cada vez mais distanciando os acontecimentos da consciência das suas significações, tornando o conhecimento bem mais vagoroso do que os fatos emergidos.

Ainda segundo Morin, a globalização gesta três processos culturais simultâneos, concorrentes e antagônicos: um processo de homogeneização e de padronização segundo modelos norte-americanos, um contraprocesso de resistências e reflorescimento de culturas autóctones e um processo de mestiçagens culturais. E ele cita que o ex-diretor do Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos, Alan Greenspan, reconhece que o atual mercado financeiro mundial está à deriva, desconectado das realidades produtivas. Além disso, multiplicam-se novas crises sociais e políticas, favorecendo desagregações psíquicas e morais nos quatro cantos do planeta. 

Outras causas também favoreceram a ampliação da atual crise mundial: as intoxicações consumistas das classes médias, o agravamento das distâncias entre os mais ricos e os menos favorecidos, bolsa-disso e bolsa-daquilo servindo de paliativos conjunturais que favorecem a mobilidade urbana de megalópoles asfixiadas e asfixiantes, possibilitando o estrangulamento da fraternidade universal por uma mais-valia já analisada no século XIX por um cientista social que jamais foi esquecido.

E o Edgar Morin ainda menciona um relatório das Nações Unidas, sobre desenvolvimento, publicado em 2003, onde mencionava 54 países que se tornaram mais pobres do que em 1990, onde se pode deduzir que “o desenvolvimento é uma viagem que conta com mais náufragos do que passageiros”. E vai um pouco mais além, quase que profeticamente: “A educação hiperespecializada substitui as antigas ignorâncias por uma nova cegueira; essa cegueira é alimentada pela ilusão de que a racionalidade determina o desenvolvimento, enquanto o desenvolvimento confunde racionalização tecnoeconômica e racionalidade humana”. 

   Quais são os cinco problemas principais que impedem um metamorfoseamento do sistema mundial? Ei-los: riscos nucleares que se agravam com a disseminação e, talvez, a privatização de artefatos atômicos; degradação da biosfera; economia mundial desprovida de um sistema de controle/regulação; retorno das fomes endêmicas; conflitos etnico-político-religiosos que podem  gerar em guerras de civilização. 

A disseminação de uma Postura Cidadã Responsável se faz cada vez mais urgente no canteiro global. E a reflexão da antropóloga cultural norte-americana Margaret Mead (1901-1978) nos reconforta a cada amanhecer: “Não duvidemos jamais que um pequeno grupo de indivíduos conscientes e engajados possa mudar o mundo. Foi exatamente dessa forma que isso sempre aconteceu”. Um pensar ratificado pelo escritor Ernesto Sábato: “Existe uma maneira de contribuir para a mudança. Não se resignar.”

(Publicada em 20.05.2013, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 
 

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