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PADRE HENRIQUE, 70 ANOS
Se não tivesse sido cruelmente trucidado por alguns facínoras que serviam ao regime militar ditatorial de então, em 28 de outubro último Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, o padre Henrique, estaria completando 70 anos de idade. Uma atrocidade apenas narrada com detalhes seis anos após o assassinato, ocorrido em maio de 1969, na Cidade Universitária, Recife. E o publicado pelo Jornal da Cidade muitos ainda guardam em arquivos pessoais que clamam pelo total esclarecimento das torturas e crimes praticados naquela quadratura. O texto jornalístico era o seguinte: “A corda aperta-lhe o pescoço  o homem dobra as pernas, semi-asfixiado e cai de joelhos. Uma pancada de faca ou canivete no rosto e o sangue escorre, grosso, molhando o dorso nu e as calças. Os vultos, ao seu redor, começam a tornar-se ainda mais difusos e ele sente um impacto na face e, certamente, não sente o segundo, à queima-roupa, pouco acima da orelha. Dois tiros de mestre, convergindo para um só ponto do cérebro. O homem estende-se em meio à pequena clareira aberta no matagal e, nos últimos estertores da morte, agarra, com a mão direita, crispada, um tufo de capim. Passava da primeira hora da madrugada de 27 de maio de 1969 e não era, ainda, a terceira hora. Os olhos do homem estavam abertos, como abertos e cheio de espanto estavam os olhos do vigia Sérgio Miranda da Silva, quando o encontrou, estirado no chão, às seis e meia da manhã. Antes das dez, o corpo estava identificado: era do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, 28 anos de idade, visto com vida, pela última vez, por uma testemunha, quando era obrigado a entrar numa rural verde e branca. No final da tarde, a igreja do Espinheiro, no Recife, estava abarrotada de gente para assistir à missa de corpo presente, celebrada por 40 sacerdotes. Durante toda a noite houve vigília e, no dia seguinte, a pé, por mais de 15 quilômetros, uma multidão de 20 mil pessoas acompanhava o enterro até um cemitério próximo à Cidade Universitária, a mesma região aonde aconteceu o crime”.

Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, o padre Henrique, era responsável pela Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Olinda e Recife, à época sob a gestão diocesana do muito amado / odiado Dom Hélder Câmara. E a Rural Willys verde e branca, plenamente identificada, integrava o aparato repressivo de então, efetivado pela Secretaria de Segurança Pública, tendo sido abastecida na noite/madrugada do crime com autorização expressa da polícia de então.

Dias após o crime, o governador do Estado de Pernambuco Nilo Coelho instala Comissão Judiciária de Inquérito, que trabalhou durante um mês, nada conseguindo apurar. Algumas semanas após o trucidamente do padre Henrique, a polícia efetivou a prisão de um estudante de Economia da Universidade Católica de Pernambuco, de nome Rogério Matos do Nascimento, libertado em 1973 pelo desembargador Augusto Duque, por falta de provas.

Os dados acima podem ser relidos nas análises feitas por Diogo Cunha, Mestre em História pela UFPE e Doutorando em História pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Constituem parte integrante de uma ampla pesquisa, que resultou na dissertação de mestrado defendida por Cunha em maio de 2007, na universidade pernambucana. Onde, num dos principais trechos, o autor o subdivide em três setores: no primeiro, efetiva uma reflexão entre política e religião na história. O segundo detalha a trajetória do padre Herique, desde seu nascimento até o seu trucidamento, acontecido numa conjuntura marcada por turbulências políticas e mudanças, inclusive na própria Igreja Católica. No terceiro setor, o autor analisa os conflitos que se seguiram depois do assassinato, envolvendo a família do trucidado, o aparato repressivo, a Igreja Católica e os suspeitos.

Entretanto, aqueles que desejarem ler o livro Diálogos Cruzados: religião, história e construção social, editora Argumentum, 2010, organizado por Mauro Passos, PhD em Educação pela Universidade Salesiana de Roma e Pesquisador do CNPq, poderão ficar ainda mais conhecedores sobre o trucidamento do padre. Henrique, lendo o ensaio Violência sob a máscara de cuidado: o caso do Padre Henrique em Recife (1969), do Diogo Cunha, onde são devidamente interpretados fatos do terceiro grande ciclo de repressão do regime militar, quando o Congresso Nacional permaneceu fechado por quase dez meses, também sendo criadas medidas de controle nas universidades brasileiras, na imprensa. E ainda nos próprios grupos que analisavam o trucidamento do padre Henrique, que buscavam explicações para favorecer alguns espúrios interesses. Inclusive da parte de uma imprensa acabrestada que apontava, num dedurismos muito similar ao visto nas últimas eleições presidenciais, o crime como sendo passional, em face do assassinado ser “frequentemente visto na companhia de mulheres casadas”.

O ensaio do Diogo Cunha é concluído com uma reflexão de muita valia para o período pós-eleitoral recentemente findo: “Atualmente, quase ninguém quer se identificar com a ditadura militar. O historiador Daniel Aarão Reis usou a expressão “arquitetura simplificada” para definir a forma como a memória da sociedade define hoje os anos que vão de 1964 a 1985: de um lado, as trevas da ditadura, e de outro, as luzes da democracia. A sociedade repudia a ditadura como se ela a tivesse vivido como um pesadelo. Essa atitude, segundo Reis, tende a estabelecer uma ruptura entre o passado e o presente, quando não induz ao esquecimento do processo, mesmo sendo ele tão recente e tão importante”.

Vale a pena uma leitura reflexiva do livro, para nunca deixar de exigir a abertura dos arquivos da ditadura militar 1964-1985, esclarecendo os que ainda se encontram “esquecidos” por ingenuidade, envolvimento ou covardia.    

 (Publicada em 11.11.2010, no Portal da Globo Nordeste, blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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