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OS SEM-IGREJA
Nas arrumações feitas num adaptado gabinete de trabalho, onde me refugio das barulheiras do cotidiano, reli com atenção redobrada um texto escrito por Carlos Bregatim, que me foi enviado pelo Tales, admiração de longa data, um sementeiro militante cristão sempre em busca de melhorias assistenciais para os despossuídos do mundo.  

O descrito por Bregatim é direto e sem os mas-mas advindos dos postergadores travestidos de cristãos, de olhinhos sempre revirados e languinhentos uis. Segundo ele, diariamente, nos quatro cantos do planeta, centenas de milhares de cristãos se reúnem fora dos quadrantes institucionais. São designados de os sem-igreja e se agrupam para estudar o evangelho de Jesus, também desenvolvendo projetos sociais e promovendo encontros de orações, afastados por completo das ditas denominações.

Os sem-igreja são voluntários em hospitais, asilos, creches, cadeias e favelas. E outros se envolvem com as angústias e necessidades dos desesperançados, procurando com eles alternativas libertadoras. Todos distanciados das mesuras e pantins das celebrações memoriais, onde grande parte dos participantes são apenas contempladores dos próprios umbigos, comportando-se como se o Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador, fosse uma propriedade exclusiva deles. De bracinhos levantados, a maioria se encontra alienada das causas estruturais que multiplicam a miséria no mundo e a concentração das riquezas nas mãos de uns bem poucos, em instante algum se lixando para a gigantesca deseducação das classes sociais mais sofridas.

A quantidade de cristãos que estão se sentindo mais “livres, leves e soltos, sem igreja,  apenas com Jesus” amplia-se a todo instante, mundo afora. Afinados com a Carta da Terra, com o Forum Mundial, eles se encontram vinculados aos movimentos promotores de um combate sistemático ao aquecimento global, em defesa da ecologia e de horizontes onde outro mundo é mais que  viável, para que “todos tenham vida e vida em abundância”, no dizer de Yochanan (João) 10,10, que também anunciava o Bom Pastor que proclamava a existência de muitas ovelhas fora dos seus recintos e ainda ensinava que o Vento sopra para onde Ele quer, sem dar satisfação a ninguém, por mais metido a benta que a autoridade seja. 

Aplaudo a reflexão do Bregatim: “Hoje, quando ouço os reclamos do interminável contingente de pessoas queixando-se dos males que estão sofrendo em seus sistemas religiosos, em seus guetos evangélicos, em seus modelos de espiritualidade, confesso, não consigo  mais encorajá-los a ficar ali. Encorajo-as a encontrarem outros irmãos e se reunirem em algum lugar e ali celebrarem a fé, a  amizade, o amor, a solidariedade, ler o evangelho e buscar interpretá-lo e traduzi-lo pra vida.  Não consigo e  nem quero mais participar de rodas em que o tema é proveitoso aos que estão explorando a boa fé de muitos. Cansei disto”.

Fico a imaginar como o Homão da Galileia, que não pretendeu em tempo algum fundar uma igreja, se sentiria diante das denominações distanciadas de Sua ideação, que não mais sensibilizam os das áreas desenvolvidas, inúmeros deles voltados para uma espiritualidade que potencializa um concreto agir humano na busca de amanhãs mais fraternais entre povos e nações.  Homens e mulheres que não mais suportam ser prisioneiros de sistemas religiosos sobrecarregados de dogmas, maldições, estigmas, ameaças, chantagens psicológicas e outras hipocrisias tridentinas, onde o fator financeiro pontifica dissimuladamente, consolidando projetos e ambições, que são auxiliados por “fiéis ovelhosos”, ansiosos por um naco de poder para também oprimir.    

Não colaborar mais com as congregações dos semi-deuses que se postam como sócios de Deus, alguns até se imaginando sósias, seria uma estratégia que muito agigantaria uma espiritualidade solidária, irmã siamesa de uma cidadania bem dotada de olhos e ouvidos voltados para os clamores do Povo de Deus.

Acredito que aquele movimento europeu, já com mais de dez milhões de adeptos e intitulado Movimento com Jesus, sem Igreja, continuará evoluindo. Um movimento que proclama o Nazareno como fomentador de novos saberes, sem confundir jamais obediência da fé com ingenuidades cerimoniais e ausência de espírito crítico,  ainda que se reconheça a existência da mínima distância que separa fé e descrença. E sem se descurar dos combates aos fundamentalismos que promovem a intolerância religiosa intergrupal, sem qualquer disposição para o diálogo, como se fora deles não existisse salvação alguma. Também sem desatentar-se dos riscos do racionalismo dotado de cabeça grande e coração pequeno, como se o conhecimento técnico-científico fosse o substituto definitivo dos laços com a Transcendência.

Postulo amanhãs espirituais onde milhões de pequenos grupos proclamem a transignificação, a multidisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade dos estudos e análises sobre o Nazareno e seus seguidores, promovendo uma consciência religiosa evolucionária que restaure, reconstrua e gere esperanças, favorecendo a emersão de um concerto de nações radicalmente fraternal. Quando então, o reinado da letra se findará e a chama de Pentecostes se acenderá nas mentes e corações de múltiplos ambientes, sem amortalhar o pensamento humano, todos se distanciando dos individualismos hedonistas, postando-se na direção de uma Paz Universal situada acima de todas as religiões.

Um pensador cristão escreveu um dia: “A morte das Igrejas, a decadência das religiões formalistas não constituem sintoma de crespúculo, mas, pelo contrário, a aurora inicial de um astro que desponta. E as culminâncias do pensamento continuam sempre imersas no azul e na serenidade”. Uma reflexão para todos aqueles que se postam como filhos amados da Criação.

(Publicada em 17/01/2011, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves

 

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