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OITENTÃO REFORMISTA
Gosto que me enrosco quando vejo pessoas mais que setentonas em plena atividade, dedicando-se aos mais diferenciados afazeres. Outro dia, a mídia mostrou uma reportagem com a caminhoneira mais velha do mundo, a Dona Nahyra, de oitenta e cinco anos, ainda no volante todos os dias.
 
Comentava a vitalidade daquela gaúcha numa roda de evangelizadores de uma comunidade de periferia recifense, quando um deles mencionou a existência de um jesuíta aposentado, nascido em 1925, que escreveu o livro Outro cristianismo é possível: a fé em linguagem moderna, SP, Paulus, 2010, já na terceira edição em 2011. Segundo o chileno Manuel Ossa, do Centro Ecumênico Diego de Medellin, Santiago do Chile, que apresenta o livro, o pe. Roger Lenaers “crê no Deus de Jesus, mas sente que a linguagem que a Igreja continua utilizando já não diz mais nada aos homens e mulheres de hoje, pois seus termos e sua mentalidade provêm de visões do mundo e da sociedade vigentes até a Idade Média, mas incompatíveis com o senso comum contemporâneo”. 
 
A leitura dos primeiros capítulos do livro do jesuíta Roger Lenaers ampliou a minha admiração pela Companhia de Jesus e me fez compreender melhor a “revolução” que o papa Francisco tenta efetivar no Vaticano, buscando adaptá-lo ao mundo atual, desburocratizando-o, retirando dele as camadas bolorentas e o imenso mofo que o afasta das gerações que ainda acreditam piamente na mensagem do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador. Ratificando a leitura de Daniel, 2,24-35, uma visão que continua válida em pleno século XXI, só não a entendendo os possuidores de interesses nada tanscendentais.
 
Segundo as últimas resenhas, o pe. Roger Lenaers é jesuíta, teólogo, pároco de dois vilarejos nas montanhas do Tirol, na Áustria. Segundo ele próprio, por preocupação pastoral escreve coisas “tão óbvias” que fica espantado sobre como é que nem todos veem o que ele vê.
 
De uma entrevista concedida ao IHU – Instituto Humanitas Unisinos On-line extraí algumas reflexões desse notável reformista. Ei-las:
IHU On-Line – Em que medida a consciência do fiel pós-moderno sobre a antropomorfização da divindade impacta em sua concepção de transcendência?
Roger Lenaers – O caráter antropomórfico da noção de Deus é uma característica da fé pré-moderna. Naturalmente todo e qualquer discurso sobre Deus não tem como evitar certo antropomorfismo. Quando se fala, como eu, de protoamor, protomilagre, protorrealidade, trata-se de uma tentativa de mais ou menos conceber o inconcebível por meio de conceitos humanos. Esse também é o caso quando chamo o cosmos em evolução de autoexpressão crescente desse protomilagre. Ao que me parece, somente se fala de caráter genuinamente antropomórfico quando se atribuem qualidades e funções humanas a essa protorrealidade, como falar, ver, ouvir, atender, julgar, punir, recompensar etc. O fim do antropomorfismo forçosamente leva à conclusão de que a pessoa de fé moderna precisa considerar que não têm valor algum todas as atribuições que faz sobre o além (toda a conversa de recompensa e punição, felicidade, luz etc.): sabemos somente aquilo que está sendo agora; parte disso é, ao menos na minha imagem moderna de Deus, que somos centelhas desse fogo eterno que é o protoamor; e que o continuaremos sendo também no além.
IHU On-Line – Como é possível “viver em Deus sem Deus”? Essa é uma prerrogativa dos cristãos do futuro? Por quê?
Roger Lenaers – Essa expressão é de Dietrich Bonhoeffer . Talvez eu a entenda de uma forma um pouco diferente que ele. Para mim a expressão “viver em Deus” significa deixar-se determinar pelo protoamor, de modo que nossos atos não sejam determinados por leis provenientes de um theós (Javé, Alá...) ou de alguma instância humana que alega decretá-las em nome desse deus (códigos alimentares, matrimoniais, litúrgicos, ou referentes ao vestuário...). E, sim, que sejamos determinados pelo protoamor, que nos induz a amar, ou concretamente: a cuidar, ajudar, dividir, perdoar, etc., inclusive nos amando a nós próprios ao tentar levar uma vida a mais valiosa possível. Desse cuidado para com a nossa humanização também faz parte a oração, não tanto em forma de orações como em forma de dedicação, deixando-nos mover por ela em direção ao semelhante. Isso para o cristão não é um privilégio, e sim tarefa sua, justamente para ele como cristão, pois graças a seu encontro com Jesus justamente ele tem uma conjetura de como deve ser a protorrealidade. Porque “quem o vê, vê o Pai”.
IHU On-Line – Em que aspectos devemos pensar a criação em termos de autoexpressão do Espírito?
Roger Lenaers – Essa é a única maneira de falar sobre a criação, porque somente assim consigo evitar a noção pré-moderna de um Deus fora do cosmos, isto é, de um Deus teísta, que fora de si próprio faz do nada o cosmos. Na Era Moderna não há mais lugar para um Deus desse tipo. Deus deixa de ser a inferência de um raciocínio (do tipo “O universo precisa ter uma causa”), ou, por outra, uma verdade que alguém me apresenta e a qual preciso aceitar. Não, eu O vejo e ouço e cheiro em tudo que vejo e ouço e cheiro, e não só fora de mim; Ele é intimior intimo meo, Ele é mais eu mesmo do que eu mesmo sou. Isso ilumina e deixa translúcidos o mundo e minha própria existência.
IHU On-Line – Quais são os principais desafios que o Papa Francisco encontra na Igreja de nossos dias a partir do diagnóstico que o senhor faz sobre o “a-teísmo”?
Roger Lenaers – Nem o Papa Francisco nem todos os outros papas são a cabeça da igreja para mim: Jesus é a sua cabeça. O Papa também não é representante dessa cabeça, porque Jesus não precisa de representantes, porque ele próprio sempre está vivamente presente. Quando muito, o Papa Francisco é porta-voz, secretário-geral do ramo (principal) católico da igreja. Nessa função ele só deve fazer uma coisa: ficar lembrando o Evangelho, e não governar, mandar, criar normas. E ele deve observar que a tradução concreta da mensagem evangélica deve variar segundo a diversidade das civilizações. Acontece que a modernidade ateísta é uma civilização fundamentalmente diferente da anterior, teísta. Por isso ele não deveria propagar mensagens uniformes, como as encíclicas, por exemplo. Por conta do passado romano e do seu próprio passado pessoal, elas assumirão conotação teísta. Ele deve, sim, empenhar-se no sentido de que as duas alas da Igreja Católica reconheçam como de igual valor o modo de pensar e o ideário da outra ala e vivam segundo o Evangelho, que é um Evangelho da fraternidade. Só receio que o pensamento do papa Francisco seja tão teísta que ele infelizmente terá pouca compreensão para a modernidade. Motivo para esse receio é, por exemplo, sua postura diante do homossexualismo. Onde se encontra essa postura em Jesus?
 
Em artigo também explicitado no IHU Online, Dom Raimundo Rizzardo, bispo de Dourados, MS, conclama com ampla coragem: “Entre vocês, vejo muitos jovens. A eles, digo: não tenham medo de ir contracorrente quando lhes querem roubar a esperança, quando lhes propõem valores deteriorados! Eles são comida estragada que, quando consumida, nos faz mal. Jovens, sejam os primeiros a ir contracorrente! Tenham orgulho de ser contracorrente! Sejam corajosos! E assim como não queremos nos alimentar com comida estragada, não carreguemos conosco valores deteriorados, que prejudicam a vida e tiram a esperança!»
 
O livro do pe. Roger Lenaers desabestalha, ao mesmo tempo que incentiva o ser humano a descobrir a autonomia do universo e, com ela, sua própria autonomia. Todo cristão deve entender que não recebemos a fé para guardá-la distanciada da contemporaneidade analítica. Se isso ocorrer, a mensagem do Homão da Galileia deixará de ser uma boa nova.  
 
(Publicado em 31.08.2015, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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