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O HOMÃO DA GALILEIA
Ontem, 20 de março, Domingo de Ramos, iniciou-se mais uma Semana Santa, onde se reverencia um rabi que transformou o mundo ao encarecer um relacionamento humano fundado na fraternidade de todos, sem discriminação de espécie alguma.
 Filho muito amado de pais extremosos, ele era de profissão carpinteiro, idêntica a do seu genitor. Uma atividade que requeria saber escrever bem e fazer cálculos com precisão, requisitos básicos para o exercício de uma especialidade tida e havida, à época, como “de referência”.
 
Mesmo sem ter deixado nada rascunhado, possuía esmerado trato, consolidado na escola rabínica de Nazaré. Uma educação sinagogal, que lhe proporcionou uma formação apropriada de homem e de judeu, da parte não aristocrática de um povo convicto de ter sido eleito por um Deus tido como único.
 
Percebia-se escolhido para renovar a Aliança, tendo sido ungido como um não integrante dos meios sacerdotais. Mas que estaria possuidor de um selo de aprovação já anunciado com antecedência de muitas centenas de anos.
 
Atuando num movimento liderado por um primo próximo, de nome João Batista, depois do assassinato deste constituiu grupo próprio, nele tornando-se Mestre, batizando até mais que o próprio parente e sempre apregoando rupturas dos modos de ser e de viver dos que persistiam em continuar sobrevivendo apenas sob procedimentos ultrapassados.
 
Em suas andanças e falas, favorecia reencontros substantivos com os fundamentos judaicos, que deveriam renascer para o Pai, mesmo que da Lei não se retirasse sequer uma vírgula. Com falas, gestos concretos e proposições, jamais deixou de expressar o mais puro ideal judaico, sempre a reconhecer urgência de uma restauração imediata nos princípios basilares.
 
Apregoando que o Vento soprava para onde bem desejasse se manifestar, assegurava que somente os que praticassem a Verdade poderiam ver a Luz, confirmando sem restrições o transmitido pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacó.
 
Sem intenção alguma de julgar quem quer que fosse, encontrava-se ciente sobre a identidade de quem o tinha enviado e de para onde deveria ir, jamais renegando suas tarefas de ser Luz do mundo para os que pelejavam por vida, e vida em abundância.
 
Convivendo com as mais diferenciadas categorias sociais, somente irava-se ao extremo com os hipócritas, aqueles fingidos que se travestiam do que não poderiam ser. E reiterou, em incontáveis ocasiões, que jamais rejeitaria os que dele se aproximassem, buscando novos comportamentos e saudáveis reestruturações existenciais.
 
Ungido certa feita, e por uma vez segunda, com nardo puro, perfume importado de grande valia, recomendou que se guardasse uma certa quantidade para o dia do seu sepultamento, quando regressaria para o seio de quem o havia enviado como um mais que notável profeta.
 
Portando um ideário intrinsecamente evolucionário para a sua época, o Homão da Galileia desabridamente anunciava que nenhum escravo é maior que o seu senhor, como nenhum mensageiro seria maior do que o remetente, nunca desmerecendo sua condição de filho de Deus obediente.
 
Sem complexos de superioridade, inúmeras vezes repetiu, para os ensurdecidos do seu derredor, que todos aqueles que tivessem fé fariam coisas mais surpreendentes que as dele. E que ainda fariam bem maiores que as por ele praticadas.
 
Com determinação solidária, apregoava que tocava flauta em praça pública, embora muitos nada percebessem ou não desejassem com ele dançar e que tampouco explicitavam entristecimento diante dos lamentos por ele entoados.
 
Em múltiplas oportunidades, condoeu-se dos cegos, coxos e prostitutas, exteriorizando entusiasmo pela fé demonstrada por todos eles, seres humanos que não possuíam qualquer empatia com os social e eclesiasticamente bem aquinhoados de então.
 
Não admitia a serventia simultânea a dois senhores, Deus e Dinheiro, anunciando que o amanhã já comportava suas próprias preocupações. E no seu dia-a-dia de militante garantia recompensa a quem oferecesse ajuda, nem que fosse um simples copo d’água fria, aos rejeitados da sociedade.       
 
Aos que o classificavam de beberrão e comilão, louvava aos céus por somente proporcionar esclarecimentos mais significativos aos menorzinhos e aos que em nada se assemelhavam aos fundamentalistas de plantão.
 
Enalteceu os verdadeiros, dando como  exemplo aquela viúva empobrecida que contribuiu com duas moedinhas numa coleta de dízimos. E para os que jejuavam, recomendava uma boa lavagem de rosto, tornando-o o mais alegre possível, para que ninguém pudesse constatar neles os sacrifícios praticados.
 
Durante um bom tempo, quase três anos, o Homão da Galileia semeou, como bom médico que buscava curar os não sarados, nada exigindo além de muita fraternidade de uns para com os outros. Como um não exclusivista credal, através de parábolas e relatos que favoreciam uma rápida memorização, transmitia boas novas, anunciando a chegada próxima do Reino no íntimo de cada um. Demonstrando ainda aos incrédulos como saciar a fome de muitos mediante uma organização social compatível com a dignidade de todas as coisas, quando todos poderiam comer pão.
 
Em momento algum, o Homão da Galileia exigiu carteirinha denominacional de qualquer dos seus admiradores, até prometendo estar sempre presente nos pequenos grupos que o reverenciassem. Sem brabezas, soube diluir no vazio o pleito de uma mãe obsessiva que cabalava lugares privilegiados para dois dos seus filhos, na mesa diretora do escritório do além-daqui.
 
Ajuntador especial de mentes e corações, bom semeador de palavras, o Galileu  alertava que o egoísmo corrói  toda grandeza d’alma, dilapidando as candeias individuais que deveriam, solidárias, iluminar as veredas e os descampados das estruturas cósmicas. E de vez em quando repetia Isaías, um dos seus profetas preferidos, aquele mesmo que denunciava sem contemporizações os que oravam da boca para fora, muito distanciados do coração, considerando os ensinamentos religiosos apenas rituais ditados por alguns de outras eras.
 
Percebendo-se na reta final de sua estadia terrestre, anunciou que iria adiante de todos para a Galileia, depois da sua imolação, sofrida no madeiro, condenado que foi como subversivo político e blasfemo religioso.
 
Antecipou-se aos poetas de agora há quase dois mil anos, ao asseverar que viver não era preciso, ainda que navegar fosse, sempre sob as coordenadas do “amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
 
O Homão da Galileia nunca mais voltou. Mas continua mais vivo que nunca, muitos furos acima das instituições que o têm como porta-estandarte, ainda que algumas delas, metidas a única do pedaço, persistam em escondê-lo como propriedade debaixo dos documentos dos seus purpurados, olvidando o ensinamento do próprio: o de que não havia mais judeu, nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, posto que todos são um sob as bênçãos de um Criador que não tem nem cabelo, nem barba, nem bigode, tampouco traje e rosto, mas que é eternamente glorificado sob o inefável codinome Eu Sou O Que Sou.
 
(Publicado em 21.03.2016, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com/sempreamatutar)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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